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Ai, quando até a EDP dá prejuízo

Pois é, Senhor ex-ministro, apurados os resultados veio já a EDP dizer que o prejuízo registado pela elétrica apenas nestes três meses de seca extrema foi de... «400 milhões de euros». E só pela eficiência de outros setores da empresa foi possível ter ‘apenas’ 76 milhões de prejuízo.

Ai, quando até a EDP dá prejuízo

Há um ano, no primeiro trimestre de 2021, a EDP registou lucros de 180 milhões de euros.

Agora, nos primeiros três meses de 2022, a elétrica portuguesa comunicou ao mercado perdas de 76 milhões de euros.

Sendo certo que a eletricidade em Portugal está no top-10 da Europa em termos de custo para o consumidor e que a EDP está no top-5 das empresas que mais faturam em território nacional, muito mal está o país e a sua economia quando mesmo assim e apesar de tudo os resultados daquela são negativos.

Numa nota divulgada na quinta-feira através da Comissão do Mercado e Valores Mobiliários (CMVM), a EDP dá uma explicação: «No primeiro trimestre de 2022 [o resultado financeiro] foi fortemente impactado pela seca extrema em Portugal no inverno 2021/2022, o mais seco dos últimos 90 anos, que resultou num défice recorde de produção hídrica da EDP no mercado ibérico no trimestre de 2,6 TWh [terawatts hora] face à média histórica».

Ou seja, ante a seca extrema e a descida alarmante das cotas das albufeiras que obrigaram a suspender a produção nas barragens, e sem a alternativa do recurso à energia produzida nas centrais a carvão (uma vez fechadas tanto a de Sines como a do Pego), a EDP teve de assumir os custos agravados da importação de energia, sendo que se viu impedida de os refletir na sua carteira de clientes.

Portugal está na linha da frente da descarbonização, é um facto, mas já começou a pagar a fatura – que não é de somenos.

E o Governo pode começar a fazer as contas para tratar de pagar tamanho prejuízo de mais um dos grandes potentados da economia nacional – desta vez, a EDP.

Enfim, se não paga de forma direta, com o agravamento da fatura da luz que recebe em casa ou na sua sede, bem pode o pobre contribuinte esperar pela volta do correio, que a fatura há de chegar-lhe por via dos impostos e acabará por pagá-la sem apelo nem agravo.

Ora, há muito pouco tempo (em meados de fevereiro), o ex-ministro do Ambiente passeava nas águas do Tejo na albufeira de Castelo de Bode, vangloriando-se com a decisão tomada de fechar a Central do Pego e desvalorizando os efeitos da seca. Dizia o ministro que Portugal tinha que importar todo o carvão de que se alimentava aquela central e só com isso, com o seu fecho, «Portugal poupa 100 milhões por ano».

Pois é, Senhor ex-ministro, apurados os resultados veio já a EDP dizer que o prejuízo registado pela elétrica apenas nestes três meses de seca extrema foi de... «400 milhões de euros». E só pela eficiência de outros setores da empresa foi possível ter ‘apenas’ 76 milhões de prejuízo.

Isto é, lá se foi o racional de uma poupança que, em boa verdade, vai sair-nos muito cara.

Como disse o mesmo ex-ministro, os portugueses têm uma alternativa: apagar a luz e os aquecedores e os ares condicionados e usar menos as máquinas de lavar roupa e loiça e por aí fora.

Por isso, não será à toa que Lisboa à noite é uma cidade cada vez mais escura.

As velas da Ponte Vasco da Gama (em manutenção) é raro estarem iluminadas e mostrarem todo o esplendor daquela magnífica obra de arte.

Como faz toda a diferença ver o Palácio da Pena altaneiro e todo iluminado, como que saído de um filme de encantar, elevando-se nos céus que se misturam com o negrume da sombra da Serra de Sintra.

E voltamos aos 100 milhões.

Lisboa parece preferir continuar a investir dezenas de milhões numa Web Summit cujo retorno para a cidade e para o país é duvidoso, ainda por cima agora que se confirmou que, afinal, nem sequer é exclusiva e vai ter outras réplicas.

Paddy Cosgrave, o jovem empreendedor irlandês que leva a palma aos nossos tão experientes e tarimbados políticos nacionais, já anunciou que vai haver também uma Web Summit nesse outro gigante da tecnologia que é o Brasil.

Lisboa, alega o iluminado Cosgrave, será sempre a ‘casa-mãe’ – vá lá saber-se o que isso quererá dizer. Já o Rio de Janeiro será, com certeza, a nova cidade enamorada e a bancar o encontro de internautas inventado pelo jovem irlandês.

Bem vistas as coisas, pode estar resolvido o problema da escuridão em que nos arriscamos mergulhar.

É acreditar na veracidade do velho provérbio emiliano: Si tutti i cornuti portassone un lampione, mamma mia quanta illuminazione.

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