Viver para contar

O triunfo da estabilidade

Assumindo a presidência do FC Porto há 40 anos, Pinto da Costa tem sobrevivido a tudo: processos judiciais, períodos desportivos menos bons, escândalos amorosos, problemas de saúde.

O triunfo da estabilidade

O FC Porto ganhou mais um título nacional de futebol – o 30º –, com o sabor adicional de se ter sagrado campeão na casa do seu grande rival, o Benfica.

Embora não precisasse de acrescentar mais nada ao currículo para ser considerado um fenómeno, Pinto da Costa continua a ganhar. E só não digo que é ‘o melhor dirigente desportivo do mundo’, porque ele já se situa noutro plano: um plano extraterrestre. 

Este homem pegou num clube que, sendo grande, ainda tinha uma dimensão regional, e fez dele, primeiro, um clube nacional, depois um clube europeu e finalmente um clube mundial.

No início desta ascensão teve um importante aliado, José Maria Pedroto, que lhe deu a tática que ele usaria toda a

vida: a afirmação contra Lisboa. Na verdade, o crescimento do FC Porto foi feito com base na guerra contra os ‘mouros’, na luta contra os lisboetas. Sem essa definição de um ‘inimigo externo’ forte, o clube não seria hoje o mesmo. 

Assumindo a presidência do FC Porto exatamente há 40 anos, Pinto da Costa tem sobrevivido a tudo: processos judiciais, períodos desportivos menos bons, escândalos amorosos, problemas de saúde.

Quando surgiu o escândalo do Apito Dourado, em 2004, parecia ter os dias contados.

Lembro-me do telefonema que recebi de uma jornalista quando viajava de carro para o Norte, que me disse alvoroçada: «Tenho em mãos um grande escândalo de corrupção no futebol. O Pinto da Costa está tramado».
As escutas telefónicas comprometiam-no irremediavelmente. Ficava claro que o Porto tinha árbitros ‘por conta’ e corrompia alguns com a oferta de serviços de prostitutas, às quais chamava «fruta». Mas o juiz do processo não aceitou as escutas como prova e Pinto da Costa passou por entre os pingos da chuva.

Em 2017 o Benfica venceu o tetra, ficou a caminho do penta, e disse-se que a hegemonia do FC Porto no futebol português tinha acabado. E com ela o longo reinado de Pinto da Costa à frente do clube. Mas ele levantou-se do chão, foi pedir a Sérgio Conceição que o ajudasse, este correspondeu, rasgou o contrato que já tinha assinado com o Nantes e rumou ao Porto para ajudar o velho presidente. E hoje temos de novo o FC Porto a dominar o futebol em Portugal, com três títulos ganhos nas últimas quatro épocas.

No plano pessoal, o presidente portista nunca deixou de estar envolvido em escândalos. 

Separou-se da primeira mulher, juntou-se com Filomena Morais, separou-se desta com queixas de violência doméstica mas voltou para os braços dela e chegou a casar, numa cerimónia de estadão em que convidou Eanes para padrinho.

Mas o casamento não durou nada, separando-se o casal pouco tempo depois. Um ‘flop’… 

Pinto da Costa, porém, não esmoreceu. Iniciou com outra mulher, Carolina Salgado, um tórrido romance, que acabaria da pior forma – com ela a escrever um livro recheado de acusações gravíssimas e escabrosas. O caso andou umas semanas nas bocas do mundo mas depois tudo esqueceu. As acusações foram todas arquivadas, porque o juiz considerou as provas insuficientes. 

Seguiu-se Fernanda Miranda, com a qual Pinto da Costa também casou, da qual se separou, voltando a abrir-lhe as portas de casa depois de ela ter um filho de um empresário com o qual entretanto se relacionara.
Por muito menos casos do que estes, houve homens que ficaram com a reputação estragada e a carreira comprometida. Mas Pinto da Costa resistiu a tudo.

De vez em quando diz-se que está doente, que foi aqui ou ali fazer um tratamento médico, mas reaparece sempre em boa forma.

Corrupção, escândalos, doenças – nada deita Pinto da Costa abaixo. E no campo desportivo, mesmo quando cai momentaneamente, acaba sempre por recuperar. 

Os sucessos deste homem são a prova mais eloquente de que a estabilidade compensa.

Há teóricos que defendem a renovação permanente das lideranças – na política, nas empresas, no futebol – mas a realidade mostra o contrário. Quando uma instituição tem a sorte de encontrar um homem capaz, só tem interesse em conservá-lo. Se Luís Filipe Vieira não se tivesse envolvido nas trapalhadas que o deitaram abaixo, hoje o Benfica estaria melhor com ele à frente. 

Percebo os riscos de os dirigentes permanecerem muito tempo nos cargos. 

Há vícios que se instalam, há o perigo da estagnação, consolidam-se interesses, facilita-se a corrupção. Tudo isso é verdade. Mas a instabilidade, as trocas de líder constantes, acabam por ter riscos maiores. Não permitem uma continuidade estratégica, não promovem a consolidação de princípios, não estimulam o respeito pela hierarquia que as lideranças prolongadas conseguem.

E isto é válido para tudo. Para os clubes, para as empresas, para os países. 

Os períodos de maior crescimento de Portugal corresponderam a lideranças políticas prolongadas. Inversamente, os períodos de grande instabilidade – como a parte final da Monarquia, a 1ª República toda e o pós-25 de Abril – foram tempos perdidos. Ou, pior do que isso, tempos em que andámos para trás. 

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