Política a Sério

Um erro de palmatória

A estratégia do PSD só pode ser uma: promover a bipolarização na sociedade portuguesa entre esquerda e direita; tentar mobilizar a direita para a construção de uma alternativa política; e finalmente procurar ser ele o partido mais determinante nesta área.

Um erro de palmatória

Realizam-se hoje as eleições para a liderança do PSD. Frente a frente estão dois homens com perfis muito diferentes: um é um político tarimbeiro, que foi líder parlamentar durante seis anos; o outro é um técnico que, por razões que desconheço, foi parar à política como ministro do Ambiente. E que gostou tanto de lá estar que decidiu abandonar uma carreira internacional bem sucedida para se candidatar à presidência do partido.

Mas, logo à partida, cometeu um erro clamoroso.

Em vez de pôr todo o foco no PS, que é o grande rival do PSD, disparou em várias direções.

Traçou ‘ linhas vermelhas’ à direita, excluindo o Chega do leque de partidos com quem admite dialogar.

E, assim, lançou a confusão na campanha.

Em vez de esta se centrar no debate sobre a construção de uma alternativa ao poder socialista, centrou-se na discussão sobre… o Chega!

O que mais divide os dois candidatos, hoje, não é a atitude que o partido deve adotar nos próximos quatro anos na oposição ao Governo – é a posição relativamente ao Chega!

O Chega tornou-se o centro do debate dentro do PSD!

Na fase crítica em que o Partido Social Democrata se encontra, era fundamental começar por se preocupar consigo próprio antes de se pôr a olhar para os outros.

Era necessário pensar no que terá de fazer para mobilizar a área não socialista da sociedade portuguesa – e conseguir, depois, impor-se aí como o partido mais forte e mais ativo.

Ora, já sendo escassa a área não socialista, como as últimas eleições provaram, que sentido tem dividi-la ainda mais, como pretende Jorge Moreira da Silva?

O objetivo deveria ser aumentá-la e não encolhê-la…

Este erro é tanto mais estranho quanto é certo que Moreira da Silva tinha um bom caso de estudo na trajetória recente do Partido Socialista.

Uma boa fonte de inspiração.

Recordemos: como é que António Costa começou a construir a maioria absoluta de que dispõe hoje?

Depois de perder as eleições, fez uma inédita aliança com os dois partidos à sua esquerda, o BE e o PCP, e conseguiu chegar ao Governo.

Nos anos seguintes, usou aqueles dois partidos para consolidar a sua posição no poder.

Finalmente, quando se sentiu seguro, virou-lhes as costas, provocou eleições, roubou-lhes os eleitores e abocanhou o poder sozinho.

 Ou seja: Costa usou o BE e o PCP como escadotes para alcançar a maioria.

Aproximou-se deles, seduziu-os – e deu-lhes o ‘abraço do urso’.

Ora, tal como aconteceu com o PS, também o PSD nunca chegará ao Governo sem o voto de parte dos atuais eleitores do Chega e da IL.

É uma impossibilidade matemática.

Assim, chamar aos eleitores do Chega «racistas, xenófobos e populistas», e rejeitar à partida o seu apoio, foi um gesto incompreensível por parte de Moreira da Silva.

O PSD não tem de atacar os eleitores do Chega – tem de os atrair.

É uma evidência.

A estratégia do PSD só pode ser uma: promover a bipolarização na sociedade portuguesa entre esquerda e direita; tentar mobilizar a direita para a construção de uma alternativa política; e finalmente procurar ser ele o partido mais determinante nesta área.

E nesse percurso não poderá marginalizar nem dispensar ninguém.

A divisão das águas terá de ser entre a esquerda e a direita – e não no interior da direita.

Se António Costa tivesse feito o mesmo em 2015, nunca teria chegado onde está.

Caso a estratégia apresentada por Moreira da Silva vencesse hoje, o PSD eternizar-se-ia na oposição e continuaria a definhar.

Ora, acreditando eu no instinto de sobrevivência dos seus militantes, julgo que isso não acontecerá.

Apesar de todas as suas qualidades como pessoa e como profissional – sendo um homem bem-intencionado, tecnicamente capaz, civilizado – falta-lhe obviamente o instinto político.

Falta-lhe o instinto político que sobra, por exemplo, a António Costa.

Se fosse eleito, cometeria os mesmos erros que condenaram Rui Rio e trouxeram o PSD para a situação em que está.

Também Rio, em vez de tentar mobilizar os eleitores de direita, recusou contactos com André Ventura e procurou competir com o PS na disputa do eleitorado do centro-esquerda, com os resultados que se viram.

 Eleger Moreira da Silva seria, de certo modo, reiniciar este percurso com outros atores.

 

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