Carta de Wall Street

Reforma ou Renascimento - Portugal 2050

Com a decadência das capacidades físicas a avançar e a matemática dos anos que nos restam pela frente cada vez mais clara, uma escolha tem que ser feita: preparamos a nossa vida para uma reforma, que se espera descansada e confortável, ou acreditamos que, apesar dos desafios acrescidos, ainda podemos sonhar em fazer o nosso melhor trabalho pela frente?

Reforma ou Renascimento - Portugal 2050

Por Pedro Ramos

But, uh, but you and I, we’ve been through that
And this is not our fate
So let us not talk falsely now
The hour’s getting late, hey
Bob Dylan, All Along the Watchtower

Queridas Filhas,

Eu e os meus amigos estamos na meia-idade. A crise da meia-idade é real, pelo menos para mim. O vigor e otimismo da juventude aos poucos se desvanece. Somos forçados a reconhecer a mortalidade e os limites das nossas capacidades. Muitos (todos) procuram celebrar e ‘aproveitar’ a vida perseguindo sonhos de adolescentes. Mantendo uma aparência exterior de juventude, quando no silencio sabem que no fundo, estão a lutar para se manter no topo, na montanha da vida que começa a descer. 

Com a decadência das capacidades físicas a avançar e a matemática dos anos que nos restam pela frente cada vez mais clara, uma escolha tem que ser feita: preparamos a nossa vida para uma reforma, que se espera descansada e confortável, ou acreditamos que, apesar dos desafios acrescidos, ainda podemos sonhar em fazer o nosso melhor trabalho pela frente?

Não há resposta certa. Mas o que é errado é assumir que não temos escolha. Não estamos condenados à reforma. A lista de pessoas que conseguiram o seu melhor trabalho na segunda parte da sua vida é extensa: Abraham Lincoln, George Washington, Ray Croc (fundador da McDonalds), JK Rowling, Vera Wang, Giorgio Armani, Charles Darwin, Miguel de Cervantes, Sam Walton (fundador da Wal-Mart), Henry Ford, Ronald Reagan e muitos outros.

Se comuns mortais podem sonhar com melhor futuro mesmo depois da meia-idade, porque não nações? Portugal tem desafios conhecidos: população envelhecida, alto endividamento, elevada burocracia… 

Mas temos muitas oportunidades e forças. Muitas listei na última carta. Temos ainda uma história muito rica, que reflete um espírito de sonho, exploração e conquista. Fiquei surpreendido quando consultando a lista de exploradores da Wikipedia (https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_explorers) um em cada seis dos mais de 600 listados são portugueses! Mais do que qualquer outro país. Seguem-se Inglaterra e Espanha. 

Preocupa-me que esse espírito esteja reformado. Conformado com saber onde são os bons restaurantes, com segurança de emprego e com uma classe política focado em interesses pessoais e partidários. Procura-se não fazer ondas. Não incomodar. E ganhar eleições. Pensa-se no Portugal 2024, e talvez 2026 e depois logo se vê. Os outros que paguem as contas… Se tivermos sorte ainda ganhamos o mundial de futebol.

Eu sonho com o renascimento de Portugal. Não contem comigo para o funeral do espírito português! Vejo muitos exploradores lusos em Nova Iorque como vi em Londres. Muitas pessoas de Goa, Malaca, Taiwan, Tokyo, Macau, Cabo Verde, Uruguai, Brasil, África do Sul… vieram falar comigo quando souberam que sou português. E ensinaram-me do que por lá fizemos.

Mas eu acredito que Portugal pode superar este passado glorioso. Eu sonho com um Portugal capaz de construir pontes internacionais em 2050. 

Pontes políticas e diplomáticas facilitando o diálogo entre o Ocidente e a Ásia, África e América Latina, aproveitando a nossa presença histórica nesses continentes

Pontes económicas facilitando a produção e exportação de bens no nosso país com acesso privilegiado ao mercado europeu, excelente infraestrutura e fiscalidade competitiva ao nível da Irlanda.

Pontes regulatórias, ajudando multinacionais a estabelecerem-se na UE através de apoio de alto serviço na navegação das cada vez mais complicadas regulações de Bruxelas.

Pontes científicas atraindo cientistas e congressos internacionais, facilitando a discussão aberta de ideias sem intervenção política que hoje vemos nas melhores universidades americanas.

Pontes tecnológicas, atraindo o melhor talento do mundo através de baixa fiscalidade, baixo custo de vida, população com bom conhecimento de inglês e infraestruturas de apoio a empresas e a profissionais digitais nómadas. 

Pontes financeiras, oferecendo mercados de capitais líquidos, eficientes e transparentes para empresários e investidores.

Faltam 28 anos para 2050. Pelo que vejo, os líderes que vos pedem votos não pensam em 2050 nem em 2030 sequer. A escolha é nossa: resignamos a um assobiar para o lado, chutar a lata para a frente e o último que feche a parta e pague as contas? Ou acreditamos que Portugal ainda tem muito por explorar, muito por construir e que 2050 será muito diferente dos últimos 28 anos? A escolha é nossa. Eu por mim, já tenho as mangas arregaçadas!

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