Economia

Relações comerciais. O peso de Angola na economia portuguesa

Angola ainda é dos principais países a importar bens e serviços portugueses, apesar de uma quebra durante a pandemia. Mas perde terreno enquanto país fornecedor.


Portugal e Angola continuam a desempenhar uma parceria relevante ao nível da economia, apesar das trocas comerciais entre os dois países terem perdido gás nos últimos anos.

Em declarações recentes, o ministro da Indústria e Comércio de Angola, Victor Fernandes, defendeu que por força da alteração dos últimos anos, nomeadamente a pandemia de covid-19 e o aumento da produção nacional naquele país africano, muitos dos produtos importados via Portugal fizeram diminuir a cadência exportadora portuguesa.

Apesar de Angola não ter deixado Portugal de lado, atualmente a China é o seu maior parceiro, quer nas importações quer nas exportações, tendo as trocas comerciais entre os dois países registado um crescimento de 42% em 2021. Ainda assim, o país que vai hoje a votos para escolher o Presidente continua no top 10 dos clientes de bens portugueses.

De acordo com os dados cedidos pela Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) – com base em informação do Instituto Nacional de Estatística, Banco de Portugal e do International Trade Centre –, as exportações portuguesas de bens para Angola ascenderam a 951,6 milhões de euros em 2021, acima dos 870 milhões de euros registados em 2020, contrariando uma tendência de descida registada desde 2017. Entre esse ano e o ano passado, as exportações de Portugal para Angola registaram uma quebra a uma taxa média anual de 13,5%.

Essa tendência de decréscimo nos últimos anos traduziu-se numa descida de posição para o país no ‘ranking’ dos clientes de Portugal, passando da oitava posição em 2017 para a nona posição a partir de 2019, tendo a sua quota de mercado diminuído consecutivamente de 3,25% em 2017 para 1,62% em 2020 e 1,5% em 2021.

Relativamente aos principais bens portugueses exportados em 2021 destacam-se as máquinas e aparelhos (29,1% do total), os químicos (11,9% do total) e os produtos agrícolas (11,3% do total). Também os produtos alimentares (9,2% do total) e os metais comuns (9,1% do total) integram esta lista. Porém, foram as peles e couros que verificaram o maior crescimento entre 2020 e 2021, representando 0,2% do total no ano passado.

Angola caiu enquanto fornecedor Em sentido inverso à quebra das exportações de Portugal para Angola entre 2017 e 2021, as importações portuguesas de Angola cresceram a uma média anual de 26,4% nesse período. No entanto, no ano passado cifraram-se bastante abaixo dos 278,9 milhões de euros registados em 2017 e dos 389 milhões de euros em 2020, ao totalizarem apenas 80,6 milhões de euros.

Os dados divulgados pela AICEP colocam Angola como o 56.º fornecedor de Portugal em 2021, com uma quota de 0,10% do total, o que traduz uma queda abrupta face a 2020, quando figurava no 25.º lugar. Em 2019 encontrava-se no 11.º lugar e em 2017 no 33.º.

Já Portugal reforçou-se como o segundo fornecedor de bens de Angola, em 2021, posição que recuperou em 2020, depois de em 2019 ter descido para o terceiro lugar e de em 2017 ter ocupado o primeiro lugar do ‘ranking’, posição que é agora ocupada pela China. No ano passado, a quota de mercado de Portugal das importações Angola foi de 12,10%, sendo de 13,94% em 2020, de 12,86% em 2019 e de 16,57% em 2017.

Entre os principais bens provenientes de Angola em 2021 contam-se os combustíveis minerais (67,4% do total), os produtos agrícolas (15,3% do total), os produtos alimentares (8,0% do total), a madeira e a cortiça (2,6% do total) e os minerais e minérios (2,0% do total). Quanto ao maior crescimento registado entre 2020 e 2021, destacam-se os produtos alimentares, que dispararam 723,5%.

Contributos para as economias Relativamente às trocas com Angola, Portugal sai com um saldo positivo da balança comercial de bens, tendo atingido os 871 milhões de euros, um crescimento face a 2020, quando registou 480 milhões de euros. Apesar disso, em 2017, este valor ascendeu a 1507 milhões de euros.

Enquanto cliente das exportações angolanas, Portugal hoje ocupa o 27.º lugar, com uma quota de 0,24%, segundo os dados da AICEP. Esta posição compara com o 10.º lugar registado em 2020 (com uma quota de 1,33%), o 5.º lugar em 2019 (quota de 3,19%) e o 15.º lugar em 2017 (quota de 0,96%).

Em termos de crescimento das exportações globais portuguesas, o contributo angolano foi de 0,15 pontos percentuais (pp.) em 2021, valor que compara com os -0,62 pp. registados em 2020 e 0,57 em 2021. Por seu lado, a contribuição para o crescimento das importações globais de Portugal foi de -0,45 pp. em 2021 e de -0,86 quer em 2020, quer em 2017.

Empresas e serviços O número de empresas exportadoras para Angola tem vindo a diminuir consecutivamente e atingiu o valor mais baixo dos últimos anos em 2021. Se em 2017 era de 5850, em 2018 caiu para 5532, em 2019 para 5150, em 2020 para 4351 e no ano passado para 4225.

No que se refere às exportações de serviços de Portugal para Angola verificou-se um decréscimo a uma taxa média anual de 15,6%, atingido 574 milhões de euros em 2021, ligeiramente abaixo dos 577 milhões de euros de 2020 e significativamente abaixo dos 852,9 milhões de euros de 2019. Face a 2017, a diferença é ainda mais acentuada. Nesse ano, a exportação de serviços ascendia a 1.171,6 milhões de euros. Assim, Angola registou uma quota de 2,12% das exportações globais de serviços de Portugal, quando em 2017 era de 3,80% e em 2020 de 2,59%.

Entre os principais serviços exportados em 2021, distinguem-se as viagens e turismo (27,7% do total), outros serviços fornecidos por empresas (26,3% do total), telecomunicações, informáticos e informação (18,9% do total), transportes (13,1% do total) e diretos de utilização de propriedade intelectual (3,2% do total).

O cenário não é muito diferente nas importações de serviços de Angola para Portugal, que caíram a uma taxa média anual de 12,4%. Esta trajetória descendente levou a que em 2021 aquelas exportações apenas representassem 80,9 milhões de euros, depois de em 2017 se terem cifrado em 158 milhões de euros, em 2019 tenham caído para 187,7 milhões de euros, e em 2020 para 118,5 milhões de euros. Angola registou, assim, uma quota de 0,46% das importações portuguesas de serviços em 2021, quando em 2017 era de 1,08% e em 2020 de 0,87%.

Entre os serviços mais importados em 2021 referem-se os transportes (34,7% do total), as viagens e turismo (32,2% do total), outros serviços fornecidos por empresas (19,4% do total), telecomunicações, informáticos e informação (4,3% do total), construção (3,3%) e financeiros (2,2% do total).

No total, as exportações de bens e serviços para Portugal cifraram-se em 1526,7 milhões de euros em 2021 e as importações em 150,7 milhões de euros, tendo o saldo da balança comercial do conjunto sido positivo para Portugal, com um excedente de 1376 milhões de euros.

Turismo Os dados da AICEP apontam ainda para um crescimento das receitas do turismo angolano em Portugal, tendo estas mais do que duplicado entre janeiro e maio deste ano face ao período homólogo do ano passado, atingindo 118,2 milhões de euros. Durante a pandemia as receitas do turismo de Angola em Portugal registaram uma quebra acentuada, mas a trajetória descendente já se fazia sentir antes disso.

Em números concretos, as receitas do turismo proveniente de Angola em Portugal cresceram 122,5% entre janeiro e maio deste ano, face aos 53,1 milhões de euros registados nos primeiros cinco meses de 2021.

Ainda assim, no total do valor de exportação de serviços registado na rubrica viagens e turismo da balança de pagamentos portuguesa, entre janeiro e maio de 2022, representaram apenas 1,96%, um decréscimo face ao mesmo período do ano passado, quando representavam 3,10% do total.

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