A festa da guerra e paz

A Festa do Avante! vai ser uma maravilha. Ninguém se vai lembrar que durante aqueles três dias os exércitos do ditador russo que o PCP apoia vão matar mais umas centenas de homens, mulheres e crianças ucranianas

Por João Cerqueira

No mês passado, José Milhazes criticou os artistas que vão à Festa do Avante!. Milhazes afirmou: «Eles são livres de participarem no que quiserem, mas que pensem bem porque estão a participar numa festa que não é só musical, é uma festa política de um partido que apoia regimes hediondos e que, neste momento, está a apoiar uma guerra».

O caldo e a música entornaram-se. 

Os visados responderam com argumentos que Milhazes, ainda que se tivesse esforçado mais do que para escrever A Mais Breve História da Rússia, não foi capaz de rebater. E, na verdade, que se pode obstar a semelhantes raciocínios?
Ei-los: 

– Eu sou a favor da paz e, por isso, já posso ir à Festa do Avante (toma e embrulha Milhazes)

– Há guerras em todo o mundo e ninguém diz nada (toma e embrulha Milhazes)

– E as desgraças que os portugueses deixaram no Brasil? (não enche o saco Milhazes).

A argúcia e a complexidade destes argumentos exigem que sejam explicados às massas.

Porém, antes disso, convém lembrar que a Festa do Avante! é um evento político destinado a celebrar uma ideologia – o Comunismo – que foi responsável por cerca de 100 milhões de mortos, privou da liberdade e direitos humanos 1\3 da humanidade, foi recentemente equiparada ao Nazismo pelo Parlamento Europeu e o seu organizador – o PCP – está a apoiar a agressão da Rússia à Ucrânia.

Apesar disto tudo, o primeiro argumento – Eu sou a favor da paz – faz sentido. Ora, se o contrário de estar morto é estar vivo, ser a favor da paz significa que se é contra a guerra. O próprio Estaline, segundo os seus apoiantes, foi sempre a principal garantia de paz no mundo. Ele próprio criou o Prémio Internacional Estaline para o Fortalecimento da Paz entre os Povos destinado a premiar pacifistas que não viram nenhum mal na aliança que ele fez com Hitler, na invasão da Hungria e da Checoslováquia pela União Soviética, no fomento de guerras civis, e nos Gulags e fuzilamentos de milhões de opositores. Portanto, tal como no passado, a declaração de se ser a favor da paz isenta-nos de qualquer responsabilidade moral. 

Aliás, Putin começou a guerra justamente para obter a paz; tal como a NATO mantém a paz para poder começar a guerra.
O segundo argumento é ainda melhor.

Se há guerras em todo o mundo – na Síria, no Sudão, no Chade, na Etiópia, na Somália, etc – e ninguém diz nada, então por que motivo nos havemos de ralar com a guerra na Ucrânia? Ainda que não tenham tido em conta o papel da ONU, da UNICEF e de outras organizações humanitárias que socorrem as vítimas destes conflitos, a sagacidade deste argumento é tal que até permite completar o anterior.

Ou seja, tal como a existência de uma guerra pode justificar outra, também um tirano genocida pode ser desculpado se o compararmos com outro. Estaline matou milhões de pessoas? Está bem, e quantos matou Hitler? E quantos seres humanos morreram na guerra do Vietname? E nas guerras coloniais portuguesas? E o extermínio dos Neandertais? Ah, pois é! Está tudo explicado e podem continuar a matar os ucranianos.

Por fim, os subscritores deste argumento não o disseram, mas eu acrescento: afinal, a culpa da guerra da Ucrânia é do belicismo da NATO e dos interesses dos oligarcas ucranianos.

E, por último, o argumento de uma cantora brasileira que colocou na mesma balança dos direitos humanos a herança colonial portuguesa no Brasil e a matança do povo ucraniano. Ainda que haja séculos a separar as duas coisas, se possa falar da construção de um país por oposição à destruição de outro e sobretudo de alhos e bugalhos, esta argumentação é também notável.

Mesmo que o Brasil seja independente há duzentos anos, não haja praticamente nenhum brasileiro que se sinta português, mais de metade da população seja negra ou mestiça e a violência policial sobre negros seja também exercida por outros negros e mestiços, a culpa disto tudo só pode ser dos portugueses.

Esta teoria foi inventada pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda, um homem que se referiu aos portugueses como irresponsáveis, imprevidentes e vagabundos e que, por isso mesmo, desgraçaram o Brasil.

Ora como os salafrários portugueses deram cabo do Brasil – exceto quando ganha o campeonato do mundo de Futebol, produz escritores como Jorge Amado e Sérgio Sant’Anna, e está na vanguarda das novas tecnologias – logo, participar num evento que apoia a destruição de um país que nada tem a ver com Portugal também faz todo o sentido. 

Porque, quase de certeza, que nas Caravelas de Pedro Álvares Cabral havia lá algum grumete ucraniano cheio de ideias racistas.

A Festa do Avante! vai ser uma maravilha. Com tantos grupos e cantores a celebrar a paz, ninguém se vai lembrar que durante aqueles três dias os exércitos do ditador russo que o PCP apoia vão matar mais umas centenas de homens, mulheres e crianças ucranianas.