Internacional

Wiriyamu: A reconstituição no local do crime (parte II)

O Nascer do Sol recorda os acontecimentos do episódio mais negro da guerra colonial (I parte publicada na revista Luz de 10 de setembro) através da investigação de Felícia Cabrita, que, em 1992 (ao serviço do Expresso), entrevistou os militares que participaram naqueles atos - e falaram pela primeira vez - e esteve em Moçambique com as vítimas.
No início deste mês, António Costa pediu desculpa pelo massacre de Wiriyamu, que classificou como um ‘ato indesculpável que desonra’ a história de Portugal.

Wiriyamu: A reconstituição no local do crime (parte II)

[continuação]

Joaquim matou muita gente, perdeu a conta. Mas crianças jura que só foram duas. Uma, levou com uma munição nas costas, a barriga era um enorme buraco, as tripas penduradas. Vivia ainda e deu-lhe o tiro de misericórdia, na cabeça. O outro era muito pequeno, dois ou três anos, e tinha as duas pernas partidas. Fechou os olhos, acertou e virou costas.

O que pensaria a mãe se o visse naquela figura. Parecia o diabo, as botas e a farda sujas de sangue e, ao pescoço, as missangas da jovem que violara. Quando chegasse ao estacionamento havia de as desfiar para fazer uma pulseira com o seu nome de guerra.

A loucura não tem fim, é uma cruzada apocalíptica. Em formatura, no centro da aldeia, os que sobreviveram à primeira investida recebem granadas. À esquerda, à direita, no meio. Os soldados protegem-se dos estilhaços atrás das palhotas que ardem. António Michone, ferido num ombro, esconde-se entre os corpos dos pais e dos irmãos. Para que não sobrem testemunhas, os soldados retiram as coberturas de capim das palhotas e lançam fogo. António escapa-se da pilha e no meio das labaredas ludibria os soldados que disparam.

Joaquim continua a inventar. Manda sentar um grupo de mulheres e homens adultos. Por baixo dos corpos coloca granadas e retira as cavilhas como se enfeitasse uma árvore de Natal. «Se se levantarem, morrem», era o conselho. Nada bulia. O alentejano espera, impacienta-se. Depois manda erguer o do meio. Era uma perna para um lado, um braço para outro, cabeças que pareciam melancias a rebentar de maduras. Memórias que correm como se tudo tivesse acontecido ontem. Depois escolhe um corpo que já arrefeceu e senta-se. O sol declina, a fome aperta. Saca da mochila a lata de sardinhas picantes e uma Laurentina, a cerveja mesmo choca sabe-lhe a vida.

Manuel Coelho retira-se de Juwau, outra aldeia destruída. Batem a zona até ao rio Mazoe. Os soldados estão cansados, carregam os destroços da guerra, bugigangas que não servem os mortos. Aproximam-se do rio Luenha. Manuel tem a farda colada ao corpo, cheira a sangue e a trotil. Apetece-lhe um banho. Ao aproximarem-se do rio descobrem muitas mulheres e crianças escondidas entre as árvores. Um miúdo escapa-se. O soldado grita-lhe que pare, mas a criança não percebe português. Ergue a G3 e dispara. O corpo cai. Mas levanta-se de novo. Outro tiro, e o miúdo volta a levantar-se. Um comando não falha. O corpo encalhou numa pedra, a água do rio trouxe o sangue para a margem. «O que é que me levou a fazer aquilo?», interroga-se hoje Manuel Coelho, agente da PSP. Os outros soldados entretinham-se com uma mulher grávida. Manuel é convidado mas declina. Quando chegasse à cidade tinha as mulheres que queria. Nenhuma resiste ao crachá de comando e a uma lata de sardinhas.

A grávida sobrevive a quatro praças. «Não percebo porque não a mataram, era uma testemunha perigosa», passados 20 anos Manuel ainda não perdeu vícios de tropa de elite.

Dois dias depois, algumas Berliets vão recolher os comandos. Os soldados estão esgotados, mas a loucura não esmoreceu. Para os substituir, os camiões trazem pára-quedistas. Armados até aos dentes, bazucas, morteiros, lança-rockets. «Parece que vão para o Vietname», gozava Joaquim Pacheco. Comandos e páras já na altura rivalizavam, era uma festa em família. Escondidos na mata os soldados lançam granadas aos colegas. Não houve estragos, era só para os assustar. Afinal o que estavam eles ali a fazer? O serviço já está feito e bem feito. «Pareciam uma bola no chão, convencidos que estavam a ser atacados pelo inimigo», recordações do soldado José Maria.

Nessa noite, no estacionamento, contam-se proezas. José Maria faz coro com os outros. Chegara a Moçambique aos 14 anos, sozinho. Expulso do seminário por falta de vocação. É um dos autores do que viria a chamar-se os massacres de Wiriyamu. Mas fez aquilo como se nada fosse. Cumpria ordens. Depois já estava calejado. Raramente poupavam um prisioneiro, não era conduta de comando. Um prisioneiro na mata era o dobro do trabalho e menos horas que se dormia para o vigiar. Mas aquela criança que matara não lhe saía da cabeça. Não é por nada, mas o olhar do puto... Ele estava a retirar-se da aldeia quando viu a cabeça do miúdo a sair de entre os corpos. Era inadmissível, no meio daquilo tudo, deixar alguém vivo, e os mortos não sofrem. Voltou atrás. O alferes Abreu gritou: «Foge daí que isso está muito quente!».

Agora vem-lhe muitas vezes à memória aquela imagem. Não tinha mais de quatro anos. Levantou a cabeça, olhou-o, passou a mão pelo rosto cheio de sangue. Tinha a barriga desfeita. Talvez nem sobrevivesse. Talvez...

 Mas claro que houve cenas engraçadas: uns tipos que iam a fugir e são caçados pelo helicanhão, maozinha da força aérea, e ficaram desfeitos. E mesmo anedóticas, como quando atiraram a dose habitual para dentro de uma palhota e um negro saltou com o tecto. Aterrou vivo e foi a caça ao pombo. Ele desata a correr e José Maria a disparar com os outros. «Aí vai disto. Devia ter 20 anos e demos cabo dele».

Mas há quem não cante de galo nessa noite. Entre os oficiais, Silvério do Rosário chora: «Eu não sou um assassino, fizeram de mim um assassino». Há assassinos acidentais e profissionais.

 

Nódoa para a tropa portuguesa

António Michone chega ferido à povoação de Micombo. Taulo, seu tio, o chefe da aldeia, leva-o para o hospital de Tete. A notícia da chacina corre na cidade. Dois padres espanhóis da Ordem de Burgos ouvem a história do rapaz. Não era a primeira vez que os missionários denunciavam os massacres do Exército Português. Um delegado da Cruz Vermelha desloca-se ao local para confirmar. José Paz regressa sem dúvidas e faz um relatório. Mas o inspector da DGS trava-o a tempo e guarda as provas. «Disse-lhe para não mostrar aquilo a ninguém porque ia comprometer-nos e era uma nódoa para a tropa portuguesa», esclarece Joaquim Sabino.

Terça-feira, o jornal «Notícias», fiel à verdade, diz de sua justiça: «Um acampamento destruído é o resultado do assalto a um reduto terrorista por comandos apoiados pela FAP. Embora o grupo inimigo em fuga tenha reagido contra os helicópteros com tiro de armas ligeiras e de metralhadora pesada o nosso fogo conseguiu fixar os terroristas no terreno. As Forças Nacionais não sofreram baixas». Mas ninguém faz fé no que diz a imprensa de Moçambique.

Adrião Rodrigues, advogado, defende dois padres portugueses que se encontram presos. Delito: denunciaram na missa os massacres de Mucumbura, exercício de estilo dos comandos no ano anterior. Na mesma calha encontram-se os Padres Brancos e os padres de Burgos, ordem espanhola. Mas estes missionários estão enterrados até ao pescoço. Existem muitas provas que os ligam à Frelimo. Adrião Rodrigues é chamado a Madrid. A Igreja espanhola desunha-se para libertar os seus padres. «Sugeri-lhes que criassem um regabofe internacional, e foi assim que se denunciaram os massacres de Wiriyamu», adianta o advogado, que nunca sentiu as costas tão quentes como na altura.

Os militares desta vez brincam com o fogo, a Santa Madre Igreja declara-lhes guerra. Antonino Melo é chamado de novo à ZOT. Exigem-lhe que apague os vestígios. O alferes tenta recusar, não era a sua missão, nunca foi norma, um comando não é coveiro. «Não levem armas», dizem-lhe. Essa ordem, para seu bem, não a cumpriu. A 6ª Companhia faz as malas antes de terminar a intervenção. Tentam apagar os rastos enviando-os para férias na Ilha de Moçambique. Mas antes, Antonino e um grupo de confiança voltam ao local do crime. Tinham-se passado 20 dias, as aldeias eram o inferno. À volta dos cadáveres, um enxame de moscas e abutres. Os corpos inchados pareciam querer rebentar. Mal se dava pelas crianças, completamente estilhaçadas. O capim crescera entre os ossos. Antonino enxota com a bota as galinhas e os cães que não largam os corpos em decomposição. Os animais tinham engordado. Embebe o lenço verde do regulamento em Old Spice, o «after-shave» engana o cheiro insuportável. «Hoje não consigo cheirar o Old Spice sem ficar agoniado».

José Bandeira, para tristeza sua, não participou na primeira operação. Está especado a olhar para os cadáveres. Tantos mortos, e ele que pensava conhecer a guerra como ninguém. Era um duro, tinha feito de tudo um pouco. Matar crianças com a arma dentro da boca como se fosse a chupeta era coisa muito normal. Uma vez matou uma negra. Parou quando esgotou as balas da Walter. Estava pronto a dar o mesmo destino ao filho, mas um oficial travou-o e levaram a criança para o aquartelamento. Equiparam o Tomé com farda de capitão, mascote da companhia. Nunca percebeu porque é que o puto não gostava dele, porque o olhava de viés. E prisioneiros, quantos limpou para poder dormir sem ter de montar guarda? Iam em fila, a chamada bicha de pirilau, e o prisioneiro no meio. De vez em quando ouvia-se. «Deixa-o descer». O homem ficava para trás. Por fim, o último soldado dava o tiro. «Ele ia a fugir», desculpavam-se aos oficiais. Sempre ferveu em pouca água, mas com as mulheres refreava o sangue. «E elas sabiam que quanto mais resistissem mais paulada levavam».

Razão tinha o pai, antigo jogador do Benfica, quando dizia que ele não prestava. Por isso tirou-o do liceu de Chaves, onde o rapaz não atinava. Embarcou-o para Moçambique, a ganhar maneiras junto de uma tia e a trabalhar no duro. «Eu nessa altura era um javardo, éramos todos. Deixámos de ser homens, éramos bichos». À volta dos corpos uma mancha, parecia óleo. O soldado tenta arrastar um cadáver para o meter na vala, mas fica com um braço na mão. Aquele trabalho só mesmo à enxada. Com o «rigor mortis», as pernas de uma mulher ficam suspensas. José coloca-lhe a bota entre as pernas. «Olha que boa que era a gaja». Estava muito calor, abafado. No fim da tarde choveu. Talvez a água que as virgens tinham implorado na floresta sagrada. José ainda teve tempo para revistar os mortos, uns relógios, umas missangas.

José de Sousa não se sente herói. Tremeu ao entrar em Wiriyamu pela segunda vez e benzeu-se. Moçambicano de gema, não é racista. Na guerra não se olha à cor da pele quando se tem de matar. Antes de entrar na tropa era torneiro-mecânico e ganhava menos que um colono. Mas era o sistema, tinha de vencer por ele e sempre se sentiu português. Em criança jogou às aventuras nos escuteiros, patrulha elefante. Aos 20 anos, optou pelos comandos por vaidade. Adorava a farda e o perigo. A 16 de Dezembro entrou em Wiriyamu como soldado, cumpria uma missão. Ordem: dizimar a população. Hoje sente-se um cobarde. Passa por todas as aldeias, abre valas, enterra corpos apodrecidos, rega-os com gasolina. O pior é o cheiro a carne queimada. «Foi uma matança injustificada. Pessoas inocentes e desarmadas que morreram às nossas armas. Um comando não é um assassino». Depois, por três vezes lavou a farda de que tanto se orgulhava. Mas não se livrava do cheiro. Deitou-a fora.

Antonino está impaciente, acabou de cremar os corpos e os helicópteros sem virem. Não levaram ração de combate, estão sem água e escurece. Percebe que a força aérea não vai aparecer, e ele tem de voltar para o aeroporto onde ficou o resto da companhia, para abalarem para a Ilha de Moçambique. Embrenha-se na mata, furioso. Antes de alcançar a estrada rebenta o tiroteio. «Ele cantou novamente», pensa José Maria, convencido de que a Frelimo pedia vingança. «Foi a emboscada mais teimosa que apanhámos, e não era costume atacarem assim os comandos. Quem sofria emboscadas destas era a tropa normal», conta o alferes. A raiva sobe, a dúvida cresce. Porque é que a ZOT o mandou para a zona desarmado e os helicópteros não apareceram? Felizmente um comando nunca deixa as armas em casa.

Raimundo, o guerrilheiro daquela zona, já não pode falar. Suicidou-se há quatro meses no Songo, parece que por desgosto de amor. Mas José Moiane, general, antigo dirigente da guerrilha em Tete, não reivindica esta operação. Desconhecia até hoje que a 6ª Companhia tinha voltado a Wiriyamu para enterrar os corpos.

Antonino Melo estremece ainda quando pensa nisso. Será que tentaram criar vítimas para justificar o massacre? José Alberto Aparício, coronel, na altura na repartição de operações da ZOT, retira a nódoa do pano: «Não somos tão despersonalizados como os americanos para nos andarmos a matar uns aos outros».

Passaram-se 20 anos

Na antiga aldeia de Wiriyamu existe agora um monumento com as ossadas das vítimas. Baera Gandar, um velho seco, talhado pelo tempo, receia aproximar-se do mausoléu. Perdeu a família toda, quem sabe se os seus mortos não se encontram ali? Salvou-se porque nesse dia estava na machamba e ao ouvir os bombardeamentos fugiu para o rio Zambeze. Cinco anos depois, casou com uma das sobreviventes de Wiriyamu. Kaufina Fokoloni tentou fugir quando os soldados chegaram. Mas foi apanhada pelas granadas. Ferida numa perna ficou no chão entre outros corpos. Quando acordou a tropa já tinha partido. Nas suas costas o filho de meses não chorava. Kaufina retirou a capulana que segurava o recém-nascido, estava desfeito. Baera procura agora o espaço onde foi a sua  casa. Encostado ao tronco de um embondeiro, ossos que parecem o puzzle de um corpo assomam da terra ao lado de uma lanterna amachucada. Baera segura-os, engole as palavras como se rezasse. Não, não sente raiva dos portugueses, guerra é guerra e ele conheceu tantas...

António Michone vive na aldeia de M’Padue. Depois dos massacres foi protegido pelos padres espanhóis. Um dia os missionários disseram-lhe que Samora Machel o chamava a Dar Es-Salaam. Foi a corta-mato para a Zâmbia, onde o esperava um carro para o levar ao quartel-general na Tanzânia. Trabalhou no gabinete de Samora e foi guerrilheiro. Quando a guerra acabou voltou a Tete. Cultiva uma horta perto de Wiriyamu, envelhece pobre, muito pobre. Sem a reforma de antigo combatente. «Vivo na minha machamba, em luta com a fome e a seca».

Orario Kudenguirana cumpriu a tradição. Tomou a mulher de Tinta, um dos irmãos que morreu no massacre. Mas não apaga da memória o dia em que Dukiria foi violada. Augusta Creya, a menina que Antonino salvou, espera o quarto filho. A vida foi muito dura para lhe sobrarem ódios. Qual foi essa guerra? E depois dessa... E ainda...

Depois da independência saldaram-se facturas. As fotografias de todos os que pertenceram às tropas especiais portuguesas vieram a lume, para que não se esquecesse o passado. Valeriano Baúque estava em exposição no emprego e no bairro onde vivia. «Era uma forma de as pessoas nos controlarem e de sermos reintegrados na nova sociedade». Antonino Melo trabalhava na TAP quando lhe disseram que tinha a cabeça a prémio. Fez as malas. Raramente fala do passado e não gostaria de voltar a Wiriyamu, nem de rever Creya. Faz comparações, lembra a chacina de My Lai, uma população dizimada nas unhas dos americanos na guerra do Vietname. Esses foram julgados e condenados, a ele resta-lhe a consciência.

«A guerra foi uma estupidez, Wiriyamu, um crime». Guerra é guerra, são todas iguais. 

Na próxima edição: Reportagem em Wiriyamu 25 anos depois do massacre (1997)

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