Politica

Cotrim sai de cena para dar espaço a líder mais "popular"

Depois de Guimarães Pinto ter saído para dar lugar a um novo rosto que comunicasse melhor, Cotrim Figueiredo também abandona a liderança da Iniciativa Liberal para dar lugar a protagonistas mais populares.


Preparar o futuro. Esta foi a principal justificação apresentada por João Cotrim Figueiredo ao anunciar que está de saída da liderança da Iniciativa Liberal (IL). A decisão, que apanhou muitos liberais de surpresa, resultou de uma “análise política objetiva” e tem como intuito assegurar “uma nova liderança” mais enérgica que esteja “em plenitude de funções com a antecedência suficiente face às batalhas eleitorais que ocorrerão a partir do segundo semestre de 2023”, altura em que se vão disputar eleições regionais na Madeira.

Em funções desde 2019 enquanto presidente da comissão executiva da IL, decidiu que não se recandidatará ao cargo para dar tempo a uma nova equipa de se afirmar, apesar de ter reconhecido, em entrevista à CNN Portugal, que a não recandidatura “não é normal num partido pacificado, sólido, consolidado, com um líder que ainda há pouco tempo foi dito como um dos líderes mais populares no país”.  

Contudo, perante o ciclo eleitoral que se inicia em 2023 com eleições na Madeira e tem em rápida sucessão eleições europeias, autárquicas, legislativas e presidenciais, disse estar indisponível para ir a votos em 2026.  Primeiro, por uma questão de idade, pois teria 65 anos. Depois, porque se ficasse até às próximas legislativas estaria há sete anos à frente do partido e somando os quatro anos do seguinte mandato estaria onze anos na liderança. “Num partido liberal isso não é muito normal”, justificou.

E isto presumindo que o calendário eleitoral não sofre alterações ao que está previsto. Algo que também terá pesado na decisão de Cotrim Figueiredo pois, dada a “rápida erosão do PS”, admite que haja eleições antecipadas e que seria uma “irresponsabilidade” não preparar o partido para essa eventualidade.

O segundo motivo, segundo apontou o próprio, prende-se ainda com uma “dificuldade interna”. Era necessário “sincronizar” os mandatos dos vários órgãos nacionais, uma vez que desde 2019 o partido tinha os mandatos da comissão executiva “desalinhados” dos restantes. Esse calendário desfasado obrigava a “realinhamentos internos anuais”. 

 A VII Convenção Nacional, que se vai realizar em dezembro, ia apenas eleger os membros do conselho nacional, do conselho de jurisdição e do conselho de fiscalização, mas com a antecipação de eleições para a comissão executiva, essa dificuldade pode ser finalmente ultrapassada.

Uma saída inesperada Em praticamente dois anos a IL passou de um deputado único para uma bancada parlamentar com oito deputados. Para muitos, estes sucessos eleitorais devem-se ao protagonista que agora sai de cena.

Para Cotrim Figueiredo, “é precisamente nos bons momentos que se tomam decisões difíceis que estruturam os partidos para as lutas seguintes” e, aos olhos do liberal, a decisão prova o “desapego ao poder”.

Contudo, isso não invalida o facto de ser uma figura incontornável no crescimento da IL, sobretudo junto do eleitorado mais jovem. A noite de 21 de janeiro, em vésperas de legislativas, foi prova viva disso mesmo. Cotrim Figueiredo surgia de cerveja na mão arrastando consigo uma multidão de jovens, com quem ia tirando selfies, pelas artérias mais movimentadas da noite lisboeta, entre o Cais do Sodré e Santos.

Foi, aliás, essa proximidade e capacidade quase messiânica de transmitir as ideias liberais que levou Carlos Guimarães Pinto, o seu antecessor, a colocar o seu lugar na liderança à disposição. “Comunica melhor, tem uma imagem melhor”, chegou a reconhecer em entrevista ao Nascer do SOL o antigo presidente do partido sobre o seu sucessor. Agora a história parece repetir-se com Cotrim a usar a mesma argumentação de que o partido precisa de uma atitude “mais combativa, abrangente e popular”. 

Numa altura em que os portugueses começavam a habituar-se à sua figura, depois de ter impulsionado o partido para um crescimento consolidado, há quem estranhe que agora Cotrim diga não estar “disponível para fazer determinado tipo de política mais popular que possa captar atenção mediática”. E sobre a possibilidade desta saída inesperada poder prejudicar o partido eleitoralmente, admite esse risco, mas ressalva que “as ideias contam mais que os líderes”.

De resto, este não será um adeus ao partido. O liberal já deu garantias de que irá manter-se como deputado mesmo depois de dezembro e mostrou-se disponível para contribuir para a IL de todas as formas que a nova liderança achar pertinente.

A sucessão Pouco depois do  comunicado da IL a dar conta da saída de Cotrim Figueiredo, Rui Rocha, deputado da Iniciativa Liberal, anunciou que será candidato à presidência da comissão executiva do partido com dois objetivos: “Continuar o atual sucesso da IL e popularizar o liberalismo pelo país, afirmando as ideias e os valores liberais com convicção e humildade para transformar Portugal num país mais próspero, mais justo e mais livre”.

O deputado eleito por Braga tem já o apoio declarado de Cotrim de Figueiredo que lhe elogiou o seu espírito “combativo” e a sua capacidade de raciocínio.

Nuno Simões de Melo, candidato ao Conselho Nacional pela lista B, garante que não será protagonista de uma candidatura à presidência da IL, mas não recusa que esta lista possa apresentar uma candidatura à comissão executiva. E nos bastidores, sabe o i, já se fala na deputada Carla Castro para protagonizar uma candidatura que rivalize com a de Rui Rocha, dada a sua capacidade técnica.

De fora da corrida da sucessão, além de Guimarães Pinto que foi rápido a afastar-se das questões internas do partido, há outro nome que também não se deverá atravessar no caminho de Rui Rocha. Rodrigo Saraiva, um dos fundadores do partido e líder da bancada parlamentar da IL, estaria em condições de disputar o lugar, mas a proximidade a Cotrim Figueiredo deverá ditar o seu apoio ao deputado de Braga. Além disso, ao i fontes da ala de oposição interna do partido alegam que Saraiva tem “demasiados telhados de vidro”, desde a altura em que foi secretário-geral da JSD e vereador da Câmara de Lisboa no tempo de Carmona Rodrigues.

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