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E se há azar, mulher, e se há azar?

Veja-se o exemplo do caos em que está transformada aquela zona do Parque das Nações com mais uma edição daquela iniciativa chamada WebSummit que um irlandês inteligente conseguiu impingir por mais de 100 milhões ao Estado português e à Câmara de Lisboa, sem que estes tenham garantido exclusividade, e que o jovem multimilionário vai agora exportar para o Brasil e para Singapura e para quem mais quiser. 

E se há azar, mulher, e se há azar?

Dizem os especialistas e ‘marketeiros’ que, por dia, recebemos milhares de estímulos publicitários. Na esmagadora maioria, como é óbvio, nem sequer realizamos ter tido qualquer contacto com eles. Não obstante, há alguns que, por mais anos que passem, duram, duram, duram, como aquelas pilhas de um certo anúncio com um coelhinho. É também o caso de um famoso diálogo entre a popular atriz Luísa Barbosa – falecida vai para 20 anos – e a sua comadre numa viela de um bairro típico de Lisboa filmado no tempo da TV a preto e branco e que alertava para os riscos de uma má utilização das bilhas de gás e das ligações aos respetivos aparelhos por elas abastecidos, como fogões ou esquentadores.

«E se há azar, mulher, e se há azar? Põe em risco o prédio todo» – a fala de Luísa Barbosa é uma daquelas que ficou na memória coletiva de quem agora com mais de 50 anos e que reavivamos quando confrontados com perigos ou riscos que saltam à vista de toda a gente.

É o caso da Jornada Mundial da Juventude e do local escolhido para a acolher, no prolongamento do Parque das Nações, junto ao Tejo, entre o Rio Trancão, a linha de comboio (linha do norte) e uma via rápida (o início do IC2, à saída de Lisboa, com ligação a Vila Franca de Xira ou à principal autoestrada para o Porto – a A1). Ai, mulher, se há azar...

Vítor Rainho escreveu na edição passada deste jornal mais um excelente artigo sobre a envolvente daquele que será um dos maiores acontecimentos realizados em Portugal, sublinhando as preocupações das autoridades com as complexas questões de segurança que se colocam.

Basta passar pela zona – agora em obras, com aterros e construções várias, do altar que há de receber o Papa às pontes pedonais de acesso ao recinto – para se perceber o perigo.

E as experiências das Jornadas passadas fazem estimar em cerca de 1,5 milhões os jovens peregrinos que deverão acorrer a este recinto entre os concelhos de Lisboa e de Loures na primeira semana de agosto do próximo ano.

Um milhão e meio de pessoas concentradas entre o Tejo, o Trancão, a linha de comboio e uma via rápida?

Ai, mulher, e se há azar?

Não é preciso ser especialista em coisa alguma.

É gente a mais para saídas e escapatórias a menos.

Pode, claro, fechar-se a circulação pelo IC2 durante essa primeira semana de agosto e com certeza não virá daí mal de maior para ninguém. Eventualmente, também, até se arranjarão alternativas à circulação de comboios naquele troço ferroviário de acesso a  Braço de Prata, à Estação do Oriente e a Santa Apolónia. Também é verdade que vai poder atravessar-se o Trancão por ponte pedonal – ainda que, neste caso, seja deveras limitado. Já quanto ao Tejo, a coisa fia mais fino porque a única hipótese será mesmo distribuir coletes salva-vidas e esperar que as marés sejam favoráveis.

Fora de brincadeiras, porque o caso é mesmo sério, se já não faz sentido nem é possível ponderar sítio alternativo e com mais condições de segurança para receber o Papa Francisco e a Jornada Mundial da Juventude, assegurem-se todas as medidas preventivas que têm de ser tomadas.

Veja-se o exemplo do caos em que está transformada aquela zona do Parque das Nações com mais uma edição daquela iniciativa chamada WebSummit que um irlandês inteligente conseguiu impingir por mais de 100 milhões ao Estado português e à Câmara de Lisboa, sem que estes tenham garantido exclusividade, e que o jovem multimilionário vai agora exportar para o Brasil e para Singapura e para quem mais quiser. Sendo que, para ele, Paddy Cosgrave, Lisboa já deu o que tinha a dar (ou seja, muitas dezenas de milhões),  e o pretexto é a segurança que a FIL – não tendo tido a intervenção prometida – não oferece.

Além de que, não chegando a 100 mil os que, ao todo, por lá andam, o trânsito já é caótico, com congestionamentos permanentes, apesar das ruas cortadas, dos acessos condicionados e de uma quantidade impressionante de agentes da autoridade para lá destacados.

Imagine-se, então, 15 a 20 vezes mais pessoas, na sua esmagadora maioria jovens que se deslocam em bandos ou grupos.

E vamos estar em pleno verão, na primeira semana de agosto, quando as temperaturas e o sol também podem contribuir, e de que maneira, para complicar ainda mais as coisas.

Ai mulher, se houver azar...

As autoridades têm mais do que óbvias razões para estarem preocupadas com as questões de segurança da Jornada Mundial da Juventude. E rezar não chega.

Porque, se houver azar, nem um milagre evitará uma tragédia.

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