O mundo em calções

As cervejas grátis de Eduardo Gallardo

O Sport Club viajou até Durán para vencer um grupo da capital, Quito. A goleada excitou os adeptos que foram buscar os jogadores

As cervejas grátis de Eduardo Gallardo

Caminho de encontro à ligeira brisa que sopra do Pacífico, o sol lá no alto, fazendo ferver-me o cérebro, uma atmosfera difusa que começou por embaciar o brilho do céu da manhã e se foi transformando numa espécie de pasta que me encharca a camisa de suor. Sou um homem do calor e dos trópicos. Sofro com o frio e com os Invernos, tudo me serve para fugir do País Triste quando ele fica cada vez mais triste com a escuridão que um horário estúpido nos impõe às cinco horas da tarde, que neste momento já passaram em Lisboa, desse outro lado do mundo para onde não me apetece voltar como aquele barco de Torga que se negava ao destino de ter cais. 

Pois, em Lisboa tudo na mesma, isto é, a vida morre... Pior ainda do que em Nambuangongo, Manel? A velha capital do Império, agora plastificada para agradar a turistas, parece ansiar por outro 1755, suplicando pela desgraça, recebendo absurdidades como a Web Summit, esse incomprensível evento que todos os anos lhe entope as artérias e fornica a cabeça de quem lá mora (e sobretudo trabalha), atraindo sempre os mesmo oradores vazios que enchem de nada os ouvidos de gente descerebrada e até se dá ao luxo de ter uma mulherzinha histérica e bacoca a dar lições de liderança. Se isto não é de ter vontade de um terramoto, onde está ela? Inexplicável vontade de chamar gente, chamar mais gente, cada vez mais gente, de entregar a cidade aos outros de mão beijada, de deixar que sejam eles a pisar os seus passeios, a sua consciência e a sua perdida liberdade. Djavan podia cantar ao longe: «Mas é doce morrer nesse mar de lembrar/E nunca esquecer/Se eu tivesse mais alma pra dar/Eu daria, isso pra mim é viver». Minha dor recuperada aqui junto à linha do Equador, Guayaquil, uma e meia da tarde. Uma espécie de névoa castanha escura paira sobre os braços do Guayas que recorta os bairros, vou-me liquefazendo mas, ao mesmo tempo, nesta terra de sofredores, já chega de mártires e das respetivas histórias dos seus martírios, e por isso paro numa taberna, sento-me na esplanada a beber essa bomba recuperadora de cansados feita à base de cerveja misturada com limão, especiarias e malaguetas e servidas em copos cujas bordas vêm a brilhar de sal a que chamam de michelada, procuro no mapa velho o lugar de onde zarpavam as embarcações que demandavam o norte, pelo rio adentro até Samborondón e La Aurora, esforço os olhos contra a luz que teimam em cerrá-los na procura do vislumbre de Durán, na outra margem, mas não consigo penetrar com a vista na dureza metálica do ar que me rodeia.

No dia 1 de agosto de 1912, um grupo de rapazes embarcou no vapor Balao e tomou o caminho de Durán, o local onde as empresas inglesas contratadas começaram a erguer a rede de caminhos-de-ferro da região. O médico, dr. Wenceslao Pareja, era o máximo responsável pelo bem estar do conjunto de jogadores do Sport Club Guayaquil do qual faziam parte os onze titulares, Básconez, Madinyá, Uraga, Reyes, Dunn, González Rubio, Roberto Wright, Ycaza, Plaza, Juan Alfredo Wright e Seminario. Pela primeira vez na história do futebol do Equador, que tinha tão escassos anos de vida, decidira-se que o campo de El Ejido, em Durán, serviria para que uma equipa da maior cidade da província, Guayquil, e outra da capital, Quito, se defrontassem num encontro que ficaria para a história. Ficou. Uma multidão plena de excitação viu o inglês Martín Dunn Hart e o grande avançado Marcos Plaza Sotomayor marcarem os golos de uma vitória convincente do clube fundado pelos irmãos Wright (4-0), o primeiro a surgir no país.

A viagem para Durán tinha sido feita de manhã bem cedo, ao nascer do sol, o regresso estava agendado para dia 13, a seguir ao almoço. Entretanto, as notícias corriam de boca em boca em Guayaquil. A equipa mais representativa da cidade esmagara os homens da capital e dava uma alegria suprema às gentes que se batiam por direitos fundamentais que lhes eram basicamente recusados, ano após ano, pelo governo central. A vitória do Club Sport ganhou uma aura política inimaginável para os seus jogadores.

Quando se reuniram no porto de Durán para voltarem a casa, desta vez a bordo doSam Pablo, os rapazes do Sport Club foram envolvidos por milhares de habitantes de Guayquil que não estiveram dispostos a esperar pelo seu regresso para se atirarem para uma festa de arromba, daquelas que fez com que muito homem encorpado e resistente, se perdesse durante dias pelos canaviais doGuayas sem muito noção de que em que lugar verdadeiramente se encontrava. Todos os barcos que faziam a carreira Guyaquil-Durán estavam cheios, a abarrotar de adeptos que tinham feito questão de ir buscar os seus moços ao outro lado do rio acompanhando a sua viagem gloriosa. A desforra ficou desde logo marcada para 18 de outubro, no antigo hipódromo de Guayaquil. Eduardo Gallardo, dono d e uma fábrica de cervejas prometeu que só não ficaria bêbado quem não quisesse. O jogo (0-0) foi tão mole, tão borrachoso, que muitos desconfiaram que os jogadores tinham aceitado o convite de Gallardo desde a véspera. Djavan soube entendê-los: «Vai além de onde eu vou/Do que sou, minha dor/Minha linha do Equador...».
afonso.melo@newsplex.pt

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