Política a sério

Uma história (muito) suspeita

Alexandra Reis, Pedro Nuno Santos e Fernando Medina: este episódio encontra-se longe de estar encerrado

Uma história (muito) suspeita

Na audição parlamentar ao ministro das Finanças realizada na Sala do Senado, a propósito do chamado ‘caso TAPgate’, envolvendo a ex-secretária de Estado Alexandra Reis, Fernando Medina disse duas coisas que retive.

A primeira foi: «Escolhemos a pessoa pelo currículo». 

Pelo currículo? 

Mas pelo currículo é possível avaliar a competência de uma pessoa para o desempenho de um cargo como ministro ou secretário de Estado?

Das boas ou más decisões de membros do Governo podem resultar benefícios ou prejuízos para o país de milhares de milhões de euros. 

Ora, para os escolher basta o currículo? 

A seriedade, o bom senso, a capacidade de trabalho, o caráter, a disposição para trabalhar em equipa, as qualidades de chefia, enfim, um conjunto de qualidades que o currículo não contempla, nada disso interessa na escolha de um governante?

Há pessoas com um grande currículo académico que nunca chegam a ser bons profissionais – porque se comprazem no estudo, na aquisição de conhecimentos e não na sua aplicação prática; e há pessoas com grandes currículos profissionais que não merecem grande confiança. 

Uma pessoa que trabalhou nesta e naquela empresa, que chefiou este e aquele departamento, que presidiu a este e àquele grupo, suscita a seguinte questão: por que saltitou tanto? Por que não se fixou numa instituição, num lugar, e andou de poleiro em poleiro? 

Um currículo muito vasto pode ser um sinal de instabilidade emocional ou revelar um problema; quando um profissional é muito bom, o empregador procura retê-lo. 

Posso dizer que, pela avaliação curricular, eu nunca teria sido diretor do Expresso.

Ao entrar para a direção, em 1983, o meu currículo era quase inexistente.

Colaborara numa série de jornais mas nunca trabalhara numa redação, tinha um curso de arquitetura concluído com uma média banal, trabalhava num atelier de arquitetura privado. 

O que me recomendava para aquele cargo? 

E, no entanto, estive lá 23 anos, com resultados excelentes para a empresa. 

E o meu exemplo não deve ser único.

Avaliar uma pessoa só pelo currículo não faz qualquer sentido.

Acontece que, ao afirmar que Alexandra Reis foi escolhida pelo currículo, Fernando Medina não disse a verdade.

Na mesma audição, em resposta a outra pergunta, o ministro desmentiu-se a si próprio, dizendo que a nomeação da secretária de Estado do Tesouro resultou «de informações fornecidas pelo Ministério das Infraestruturas».

Dito de outro modo, não foi o currículo que pesou, mas a recomendação (leia-se ‘cunha’) do então ministro Pedro Nuno Santos.

Medina não conhecia a pessoa, e limitou-se a fazer a vontade a Nuno Santos. 

Mas perante isso, cabe perguntar: por que razão Pedro Nuno Santos protegeu tanto Alexandra Reis?

Que dívida tinha para com ela?

Começou por nomeá-la para a administração da TAP, uma empresa delicadíssima por razões políticas e financeiras.

Fez questão de que ela permanecesse no cargo, depois da mudança de administração.

Avalizou a indemnização de 500 mil euros para ela deixar a empresa (ou foi mesmo ele que impôs essa verba).

Nomeou-a no mês seguinte para a presidência da administração da NAV.

Finalmente, recomendou-a ao ministro das Finanças, Fernando Medina, para secretária de Estado do Tesouro.

E, quando este a ‘convidou’ a demitir-se, Pedro Nuno Santos também pediu a demissão.

Concordemos que tudo isto é muito estranho. 

Que responsabilidade tinha Nuno Santos em relação a Alexandra Reis para a proteger de forma tão insistente e prolongada, acabando mesmo por ligar o seu destino ao dela, demitindo-se na mesma altura? 

Mas a história de Alexandra Reis explica também os erros que têm sido cometidos na escolha de membros do Executivo – e que comprometem, quiçá irremediavelmente, a credibilidade deste Governo e do próprio PS. 

O Partido Socialista é hoje visto como um partido que assaltou o Estado e fez dele coutada sua, nomeando gente à tripa forra, pagando ordenados principescos, concedendo indemnizações milionárias, negando a sua condição de partido protetor dos mais fracos.

Ainda agora se soube que os diretores da TAP recebem um cheque mensal de 450 euros à conta dos automóveis que não receberam, dado o cancelamento da compra de dezenas de BMWs para a empresa, na sequência do escândalo que provocou. 

Toda esta novela – recorde-se – foi iniciada pelo mesmo Pedro Nuno Santos, quando em 2015 reverteu a privatização da TAP e depois pagou 55 milhões ao sr. Neeleman para se ir embora.

E a partir daí usou a empresa aérea como as crianças usam os brinquedos: enterrou nela milhares de milhões, não vigiou convenientemente a administração, deixou-a tomar decisões que depois andaram para trás, pagou grandes indemnizações.

E um homem responsável por tudo isto, que nunca admitiu sair em consequência dos maus resultados da sua decisão, que recusou demitir-se depois da ‘barraca’ do anúncio da localização do novo aeroporto, acaba por se demitir em solidariedade com uma secretária de Estado que nem sequer era do seu Ministério.

Repito: nesta história ainda há muito por contar.

O caso é demasiado suspeito para se encerrar com a saída de Alexandra Reis de secretária de Estado do Tesouro e de Pedro Nuno Santos de ministro das Infraestruturas.

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