A guerra na Ucrânia ainda nem começou!

Se os Aliados dizem, e bem, que estarão com a Ucrânia até ao fim, facultem-lhe rapidamente os meios para a sua vitória

por Henrique Santos
Politólogo

A oitava reunião do Grupo de Contacto para a Defesa da Ucrânia, a 20 de janeiro último na Base Aérea Americana de Ramstein, na Alemanha, deixou em Kiev um enorme sentimento de frustração, num momento em que, aparentemente, a Ucrânia parecia estar a fraquejar.

Recordemos quais os 41 Estados que constituem esse grupo: 30 membros da OTAN, 4 de África (Libéria, Marrocos, Quénia e Tunísia), 4 da Ásia-Pacífico (Austrália, Coreia do Sul, Japão e Nova Zelândia) e 3 do Médio Oriente (Catar, Israel e Jordânia).

Houve acordo sobre volumosos novos envios de toneladas de munições, artilharia pesada, meios de defesa antiaérea, veículos blindados de transporte de tropas, mísseis Brimstone, camiões com obuses Caeser, sistemas de artilharia Archer, bem como a remessa de carros de combate alemães de Infantaria Marder e os Bradley americanos. Uma decisão importantíssima, mas que soube a pouco por faltar a luz verde para o envio dos blindados pesados.

O desamparado recém-nomeado ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, bem dizia que a decisão final alemã estava para breve, mas tal não impediu que 15 países, liderados pela Polónia e Finlândia, se tenham reunido em paralelo e decidido enviar os seus Tanques Leopard 2 mesmo que a Alemanha não autorizasse a sua exportação. O ambiente estava de tal modo crispado que o secretário da Defesa americano, Lloyd Austin, e o Chefe de Estado Maior, o General Mark Milley, tiveram que vir em auxílio da Alemanha e recordar o que tem sido o seu importante contributo em armamento, mas também em treino intensivo de militares ucranianos. E a Alemanha não podia correr o risco de se ver desautorizada pelos aliados, se estes avançassem para o envio dos seus blindados para a Ucrânia sem o seu acordo.

A oposição alemã, liderada pela CDU, denunciou que «a Ucrânia está a ficar sem combatentes e sem armas, é uma Nação a sangrar. A credibilidade da Europa está a esfumar-se». No Governo de Olaf Scholz, quer os Verdes (tradicionalmente pacifistas), quer os Liberais, insistem na rápida aprovação das exportações dos blindados Leopard 2. Receoso de um eventual escalar russo, o Chanceler quer o respaldo americano e o anúncio simultâneo do envio dos M1 Abrams. Foram 72 horas angustiantes entre o fracasso de Ramstein e o anúncio feito em Berlim e em Washington!

Em Moscovo tudo fizeram para dissuadir as lideranças ocidentais de tomarem esta atitude:

* O porta-voz de Putin, Dmitry Peskov, dirigiu-se diretamente às opiniões públicas ocidentais para os ‘alertar’ sobre os elevados custos para os contribuintes. Que ‘amigo’ tão preocupado!

* O ex-Presidente, Dmitri Medvedev, o ‘trauliteiro’ de serviço, profere a ‘pérola da semana’: «Uma potência nuclear não pode ser derrotada numa guerra convencional!». Que paradoxo: o que aconteceu à União Soviética na Guerra do Afeganistão de 1979 a 1989? Perdeu! E aos Estados Unidos da América na Guerra do Vietname de 1954 a 1975? Perderam! E aos mesmos Estados Unidos no Afeganistão de 2001 a 2021? Perderam! E seguiram, naturalmente, o seu caminho, sem usar armas atómicas contra os seus anteriores opositores!

Porquê esta ofensiva tão acirrada do Kremlin? Porque numa fase em que, ao fim de 11 meses, a Ucrânia se depara com uma nova ofensiva russa, Moscovo sabe que estes mais de cem blindados de última geração com que vai ter de combater na Ucrânia, representam uma ameaça séria à sua vantagem recente, que pode infletir o desenrolar da guerra! Noutras palavras, tentam desvalorizar a eficácia e nova capacidade ao serviço da Ucrânia, porque o receiam. Sabem que esses tanques são bem mais que ‘felinos desdentados’!

Por isso o Patriarca Kirill, líder da Igreja Ortodoxa Russa, falando essencialmente para o seu povo, alerta para «a vontade do Ocidente em destruir a Rússia». Mas foi o Ocidente que invadiu a Rússia, que desencadeou esta Guerra cujas consequências ainda hoje ignoramos?

Aqui chegados, perguntamo-nos se estas novas medidas são suficientes para infletir a guerra. Não! Depois de tantas hesitações, chegam vergonhosamente tarde, aliás tardíssimo! E quando a Ucrânia pediu trezentos tanques, vai receber quantos? Pouco mais de cem! E quando? Será que vão alterar o curso da guerra? Não! Mas vão contribuir para arrastar o conflito, para prolongar o sofrimento dos dois povos mais envolvidos (não só os mais de cem mil mortos de cada lado, mas toda a devastação e total destruição de um país cuja reconstrução demorará várias gerações).

E será que esta foi a última querela pública sobre o apoio militar à Ucrânia? Seguramente não! Zelensky vai continuar a pedir mais duzentos tanques e…vai começar a pedir meios aéreos de ataque, dos A10 (o melhor avião subsónico anti-tanque e de apoio às tropas no terreno) aos F16 (para finalmente poder controlar o espaço aéreo). Tal como no início do pedido dos tanques, a primeira reação foi de rejeição. Porque embora reconhecendo que a Rússia controla os céus, a imposição de uma zona de exclusão aérea será o escalar máximo dum conflito convencional aos olhos do Kremlin. Depois de muitas recusas em público e de novos desaires ucranianos, teremos novas rondas nos bastidores em que os Aliados obrigarão a Ucrânia a garantir que esses meios aéreos não serão usados em território russo. Aí sim, os tais meios aéreos que nunca seriam entregues à Ucrânia, lá acabarão por chegar!

O Ocidente continua sem se assumir e ter uma linha coerente e unida. É certo que, no princípio da invasão russa, ninguém antecipava que a Ucrânia, sozinha, resistisse pouco mais do que umas semanas, e não tivesse que capitular sob o rolo compressor do Kremlin. O seu estoicismo por um lado, a violência gratuita e a carnificina das tropas russas e dos seus mercenários por outro, granjearam uma simpatia e uma solidariedade internacional à Ucrânia admirável. Mas, se era para ajudar, os Aliados deveriam, desde bem mais cedo, ter fornecido os meios militares necessários à sua defesa. Sem se envolverem com ‘botas no terreno’, garantindo que a Ucrânia não utilizaria o armamento que lhe fosse entregue para ações em território russo (considerando território da Federação Russa o de antes de 2014, portanto sem a Crimeia e partes do Donbass), mas atempadamente e sem tibieza nem receios da retórica de Moscovo. Tal como deviam ‘avisar’ a Bielorrússia que não tolerariam a sua participação nesta guerra de forma efetiva, e que responderiam militarmente a Minsk caso viesse a atacar a Ucrânia.

Este apoio a conta-gotas tem como consequência um arrastar da guerra, um escalar das hostilidades, um maior sofrimento dos ucranianos (porque a frustração russa com a falta de resultados concretos leva a violentos ataques indiscriminados contra infraestruturas civis, hospitais, escolas, creches). Se os Aliados dizem, e bem, que estarão com a Ucrânia até ao fim, facultem-lhe rapidamente os meios para a sua vitória.

Pobre Ucrânia, pobre Rússia, pobre Europa, pobre mundo! A guerra ainda nem começou!