Opiniao

Tino de Rans dá uma lição de Política a Sampaio da Nóvoa (que já SNAPou)

1.O debate de terça-feira, na RTP, entre todos os candidatos presidenciais revelou-se caótico, confuso e inconsequente. Caótico, porque revelou uma aglutinação bizarra de temáticas, sem fio condutor – culpa, não dos moderadores, mas do formato do debate (em rigor, não se tratou de um debate, antes de uma sequência de mini-entrevistas). 

Confuso, porque nenhum candidato conseguiu impor uma ideia forte, perante tantos temas, tantas intervenções e tão pouco tempo para partilhar. Inconsequente, na medida em que nenhum impacto teve nas preferências ou intenções eleitorais - os portugueses já tinham a sua intenção de voto na cabeça no início do debate; permaneceram com a mesma intenção no final do mesmo.

2.Registe-se, porém, um facto político ocorrido no debate entre os nove candidatos que merece o devido relevo: a lição de seriedade e honestidade política que Vitorino Silva (mais conhecido como Tino de Rans) deu a SNAP (Sampaio da Nóvoa). Tino de Rans, em certo passo da sua intervenção, declarou, urbi et orbi, que “não estou aqui para a intrigalhada”. Tino de Rans – o candidato que a esquerda caviar tanto hostiliza por ser calceteiro – com esta afirmação tão singela e tão repleta de significado político, desancou na estratégia seguida por SNAP (Sampaio da Nóvoa). A estratégia de SNAP, finalmente, foi SNAPada (SNAP, relembramos, significa, em inglês, partir, quebrar) expressamente por um candidato. Mérito (muitíssimo) de Vitorino Silva.

3.Efectivamente, toda a estratégia política de SNAP (Sampaio da Nóvoa) assenta na intrigalhada, no ataque, em inventar casos e casinhos. Diz-se que foi uma fonte da candidatura de SNAP (Nóvoa) que revelou os nomes dos deputados que subscreveram o requerimento para suscitar a fiscalização abstracta da constitucionalidade da eliminação da subvenção vitalícia dos políticos (parlamentares com mais de doze anos de exercício de funções). Para quê? Para revelar que Maria de Belém foi uma das subscritoras e, desta forma, SNAP assegurar o segundo lugar nas presidenciais do próximo domingo. Este caso gera um desgaste fortíssimo e letal para Maria de Belém – já aqui escrevemos, mas hoje reforçamos: Maria de Belém, com mais este caso, corre o risco de obter uma votação humilhante. O que é curioso é que muitos dos deputados socialistas que subscreveram o requerimento para o Tribunal Constitucional são apoiantes de…Sampaio da Nóvoa, do próprio SNAP. Ou seja: o ataque feito a Maria de Belém por Sampaio da Nóvoa com base neste argumento faz ricochete e afecta o próprio Nóvoa. Mais: afecta a credibilidade de todo o Partido Socialista. O ataque a Maria de Belém, por falta de transparência e honestidade, é um ataque que atinge o PS, como partido – é que Belém foi Presidente do PS!

4.Dito isto, evidentemente, sufragamos que os deputados que tomaram tal atitude deveriam ter tido a hombridade de assumirem as suas posições políticas – e não se esconderem no anonimato ou no falso sigilo processual. É que o recurso ao Tribunal Constitucional por parte dos deputados é um acto político. E, como acto político que é, deve ser objecto de escrutínio público. É estranho é que, só agora, SNAP (Sampaio da Nóvoa) se tenha lembrado que a subvenção vitalícia é uma realidade com a qual não concorda e que abdicará dos privilégios atribuídos ao ex-Chefes de Estado. Ora, Marcelo Rebelo de Sousa já dissera que renunciará a tais privilégios há dois meses – e, na altura, Sampaio da Nóvoa confidenciou que essa renúncia seria uma desqualificação da democracia e da própria dignidade do Estado. Ainda bem que SNAP já mudou de posição – e concorda com Marcelo Rebelo de Sousa.

5.E poderíamos aqui, no presente artigo, fazer a listagem de todas as intrigalhadas (ou, no caso de Sampaio da Nóvoa, as SNAPadas) estimuladas por Nóvoa. Por exemplo, poderíamos invocar que  SNAP mentiu no debate contra Marcelo Rebelo de Sousa, quando o acusou de ter sido membro de um Governo que destruiu o Serviço Nacional de Saúde. Primeiro, a lei invocada por SNAP era uma lei de organização dos serviços do sector público da saúde. Segundo, para destruir o Serviço Nacional de Saúde era preciso haver Serviço Nacional de Saúde – ora, em 1982, o Serviço ainda não tinha sido implementado, como reconheceu o Tribunal Constitucional. Terceiro, o próprio Presidente Ramalho da Eanes solicitara apenas ao Conselho da Revolução que se pronunciasse sobre o órgão competente para proceder à revisão da orgânica da administração pública de saúde – se o Governo, se a Assembleia da República, em termos exclusivos. O Presidente Ramalho Eanes não considerou a dita lei do Governo Balsemão como violadora do Estado Social ou de direitos sociais – manifestou apenas dúvidas sobre se o Governo tinha competência para a aprovar ou se seria do domínio reservado da Assembleia da República e, logo, inconstitucional. Só que esta parte, como não lhe convinha, SNAP (Sampaio da Nóvoa) omitiu ou não sabia.

6. Por outro lado, SNAP Nóvoa acusa Marcelo Rebelo de Sousa de querer destruir o Serviço Nacional de Saúde, invocando uma lei da década de 80 (já passaram quase trinta e quatro anos). Ora, o mandatário nacional de SNAP é Correia de Campos, Ministro da Saúde de José Sócrates – o qual só se aguentou no cargo dois anos. Porquê? Porque apresentou a demissão a José Sócrates, invocando cansaço e melindre pessoal pelos ataques duríssimos dos seus camaradas socialistas às medidas que tomou na reformulação e actualização do Serviço Nacional de Saúde. António Arnaut – por sinal, hoje um dos principais conselheiros de SNAP e do próprio Correia de Campos – acusou o hoje mandatário nacional de SNAP de querer…liberalizar o mercado da saúde em Portugal, seguindo a política da direita! Manuel Alegre acusou mesmo Correia de Campos – actual mandatário nacional de Sampaio da Nóvoa – de implementar uma agenda de destruição do Serviço Nacional de Saúde! Que autoridade tem, pois, Correia de Campos – o braço-direito de SNAP – para acusar Marcelo de querer destruir o Serviço Nacional de Saúde? Será que Correia de Campos tem memória curta ou curtíssima?

7.Poderíamos, por exemplo, invocar que Sampaio da Nóvoa afirma que é um candidato independente, supra-partidário, que não depende do apoio de estruturas partidárias – contudo, enviou uma carta aos militantes socialistas. Ora, se SNAP não recebe apoio da máquina do PS, como explicar que tenha acesso às moradas dos militantes socialistas? E se SNAP (Sampaio da Nóvoa) se dirige a todos os portugueses, se tem a ambição de ser um candidato abrangente – porque não enviou uma carta a todos os portugueses? Os militantes do PS são mais dignos do que os cidadãos portugueses de outros partidos, segundo SNAP? A bota não joga com a perdigota. SNAP (Sampaio da Nóvoa) é de uma instabilidade política atroz: diz uma coisa, faz outra; critica as medidas de alguns Governos socialistas, mas eleva os Ministros que aprovaram essas medidas em seus mandatários. Como confiar num candidato assim? Sampaio da Nóvoa não é confiável.

8.Ou, então, poderíamos invocar os arrependimentos súbitos de SNAP Nóvoa. A forma como Nóvoa desconsiderou, por motivos de conveniências políticas e por sugestão dos seus assessores, o General Ramalho Eanes é bem sintomática da instabilidade e da falta de fiabilidade de Sampaio da Nóvoa. Antes, Nóvoa andava com Ramalho Eanes à lapela, invocando o seu legado e o seu exemplo para responder a todas as questões – agora, Sampaio da Nóvoa apagou o General Ramalho Eanes da sua campanha, do seu discurso e da sua história.

8.1. Porquê? Porque o General Ramalho Eanes revelou que Sampaio da Nóvoa é o candidato mais parecido com Cavaco Silva e que Cavaco Silva foi um Presidente com muitas qualidades humanas e políticas. Até na carta dirigida aos militantes do PS, SNAP Nóvoa assumiu-se como sucessor natural dos exemplos de Mário Soares e Jorge Sampaio – e suprimiu a referência a Ramalho Eanes. Nóvoa já só fala em Jorge Sampaio e, menos, em Mário Soares.

8.2. A candidatura de Sampaio da Nóvoa está, pois, a faltar ao respeito ao General Ramalho Eanes – não se instrumentalizam pessoas, que até já ocuparam o mais alto cargo do Estado, para fins eleitorais e de acordo com as conveniências do marketing político. Se Nóvoa deixou cair a referência a Ramalho Eanes com medo de perder uns votinhos, é porque nunca acreditou nos méritos de Ramalho Eanes – e os elogios que lhe dirigiu nunca foram sinceros. O que significa que SNAP (Sampaio da Nóvoa) é um homem vazio de convicções – e refém das conveniências dos “marketeiros”

9. Enfim, esperamos que Sampaio da Nóvoa tenha aprendido a lição tão bem dada por Tino de Rans no debate de terça-feira: chega de intrigalhada política. A intriga que Sampaio da Nóvoa gerou contra o General Ramalho Eanes, nos últimos dias, é lamentável. Quem diria que Tino de Rans iria SNAPar (partir, quebrar) Sampaio da Nóvoa, em directo na televisão? Como diria António Guterres, é a vida… 

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