José Sá Fernandes: António Costa já não manda em Lisboa

1. Quando achamos que já ouvimos tudo – as ideias mais ridículas que alguém sensato e de bom senso poderia ter – na política portuguesa, eis que há sempre algumas personalidades que nos conseguem surpreender. Pela negativa, claro. Agora, foi o inefável José Sá Fernandes que conseguiu baixar a fasquia da lucidez e da qualidade…

2. Qual o argumento de Sá Fernandes? Ora, os brasões referem-se ao império português de África e do Oriente: mas, claro está, esse Império já não existe. Hoje, tais espaços são repúblicas democráticas, com plena soberania. Logo, não faz sentido, impondo-se um processo de requalificação, manter os símbolos de um Império já desfeito (até porque, segundo Sá Fernandes, custa muito dinheiro manter os brasões).

3. Palavras para quê? Qualquer português conclui de imediato que José Sá Fernandes, que andava desaparecido, com fome de novas “causas fracturantes”, veio protagonizar a cena mais patética da silly season. A História de uma Nação- da Nação Portuguesa – não se pode apagar por um simples processo de requalificação de um jardim! Percebe-se que Sá Fernandes, sedento de protagonismo e ainda com ambições política em Lisboa, tenha sentido necessidade de agradar ao seu eleitorado de extrema-esquerda: para ele, atacar os brasões é atacar o Estado Novo e uma certa direita conservadora. Enganou-se triplamente.

4. Primeiro, a esquerda que tenta seduzir tem outras preocupações que não os brasões da Praça do Império. Bater no Estado Novo já não dá votos: a nossa democracia já tem 40 anos. Já é uma senhora, ainda com um charme limitado, mas madura e sem complexos. Há uma esquerda, mesmo com uma crise financeira, económica e social sem precedentes, não consegue adoptar um discurso coerente. Precisa sempre de ressuscitar certos “fantasmas do passado”. José Sá Fernandes prestou um mau serviço à esquerda portuguesa, que cai, mais uma vez, no ridículo.

5. Segundo, José Sá Fernandes não tem noção das imitações da sua argumentação. E do erro de raciocínio flagrante em que se precipita: ora, se os brasões não merecem ser recuperados, pois Portugal já não é um Império, então, significa que todos os monumentos e símbolos representativos da nossa História devem ser abolidos, retirados, destruídos, até não restar nada da memória da Pátria mais antiga! É que, por exemplo, Portugal hoje é uma República – mas, ao longo de muitos séculos, fomos o Reino de Portugal (um Estado monárquico). Aplicando o critério Sá Fernandes, os autarcas e os governos de Portugal devem acabar com os castelos, as referências aos nossos Reis, aos feitos militares dos portugueses, à restauração da nossa independência (sim, porque há que matar qualquer referência belicista: paz entre os povos!) e por aí fora…Já agora, Sá Fernandes poderia propor a destruição do Mosteiro dos Jerónimos: simboliza o “pecado original” dos portugueses. EM substituição, poder-se-ia erigir uma estátua em homenagem ao “Che Guevarra” português: el comandante Sá Fernandes!

6. Terceiro, Sá Fernandes não tem génio político, nem intelectual suficiente, para perceber que hoje a Praça do Império representa o “destino” da política externa portuguesa. É verdade que as realidades representadas pelos brasões são hoje Estados independentes e soberanos: e muito bem. Mas Portugal não cortou relações com estes países: pelo contrário, pretende reforça-las. Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e todas as restantes, estamos juntos na promoção da lusofonia. Em espalhar a nossa cultura, a nossa Língua comum pelo Mundo, tornando-nos, recíproca e solidariamente, mais fortes. A Lusofonia é o marco distintivo da política externa e diplomática portuguesa. Os Brasões não impedem este nosso objectivo: pelo contrário, ao lembrar os laços que nos unem, reforça a nossa vontade de trabalhar em conjunto.

7. Porque é que Sá Fernandes se sente tão livre para dizer tais asneiras? Porque a Câmara está sem presidente – ou seja, liderança. É um autêntico vazio de poder – e já se percebeu que Fernando Medina será um desastre à frente dos destinos de Lisboa. Não tem tacto político! E Sá Fernandes, aproveitando o vazio de poder, voltou ao mediatismo, preparando já a sua candidatura. Aqui está o “grande” António Costa a dar-nos uma lição dos seus talentos políticos…Pois….

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