Viver com uma moeda forte

Ouvem-se queixas de que o custo do petróleo baixou muito, mas que os preços dos combustíveis em Portugal não desceram no mesmo grau. Pois não: é preciso tomar em conta a evolução cambial. O petróleo é cotado em dólares; ora o euro valia quase 1 dólar e 40 cêntimos há um ano; agora vale à…

A descida da cotação do euro tem a ver com as baixas taxas de juro do BCE (algumas delas negativas há meses) e será também resultado da prevista compra pelo BCE de dívida pública e privada. Muitos vendedores de títulos ao BCE  poderão aproveitar o dinheiro da venda para comprarem títulos fora da zona euro, implicando a saída de capitais e acentuando assim a depreciação da taxa de câmbio da moeda única, como referiu Eduardo Catroga na semana passada, numa bem articulada palestra sobre se seriam possíveis alternativas à política económica europeia (iniciativa conjunta do Grémio Literário, Centro Nacional de Cultura e Clube Português de Imprensa). Mas notou E. Catroga que a depreciação da taxa de câmbio do euro vem mais da saída de capitais a curto prazo, de natureza especulativa. 

Portugal entrou para o primeiro grupo de países da moeda única em 1999 com um câmbio em relação ao escudo um pouco alto demais. E com o euro a valer 1 dólar e 18 cêntimos. Ora não nos convém um câmbio do euro demasiado alto. A recente descida do euro é globalmente positiva para a economia portuguesa. Aliás, vários exportadores nacionais queixavam-se de que a cotação elevada do euro lhes tirava competitividade. Mas tal não significa que deveríamos voltar à época do escudo. 

Há quem defenda que a economia portuguesa não aguenta viver com uma moeda forte, sem frequentes desvalorizações. De facto, não tem sido fácil a adaptação ao euro. É que, antes, muitos exportadores nacionais estavam dependentes das desvalorizações do escudo para concorrerem no mercado. O que os desresponsabilizava de procurarem melhorar a sua competitividade por meios mais duradouros.

Desistir do euro seria uma derrota no esforço para modernizar a nossa economia. As desvalorizações do escudo foram sempre um expediente de curto prazo. Como o câmbio mais barato do escudo encarecia as importações, em breve a inflação subia, roendo a competitividade ganha no imediato – daí a necessidade de nova desvalorização, entrando-se num ciclo vicioso. E Portugal importa muita coisa, até para exportar.

Desvalorizar a moeda implica empobrecer o país, ao precisar de exportar mais para importar o mesmo. Medida de emergência utilizada pelo FMI nos seus programas de assistência financeira em inúmeros países, incluindo Portugal, não pode ser um modo de vida.

Tendo o euro acabado com a muleta das desvalorizações do escudo, a primeira reacção de algumas empresas foi voltarem-se para o mercado interno, evitando a concorrência internacional, em vez de se empenharem em ganhar eficiência e competitividade. Só que a crise da dívida reduziu a procura no nosso mercado interno, que aliás nunca foi grande. Por isso numerosas empresas decidiram nos últimos anos tentar a exportação. Muitas delas com sucesso. 

O que prova não ser inevitável termos de viver com moeda própria e fraca, periodicamente desvalorizada. A crise teve, pelo menos, a vantagem de mostrar ser um mito a necessidade de nos resignarmos a regressar ao passado.