No fim de semana passado surgiram dúvidas quanto ao número oficial de vítimas nos incêndios de Pedrógão Grande, Castanheira de Pêra e Figueiró do Vinhos.
No domingo, Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, afirmou que «o país tem de conhecer exatamente a dimensão da tragédia» de Pedrógão, porque nenhuma vítima «pode deixar de ser lembrada».
Na segunda-feira, Hugo Soares, recém-eleito líder de bancada do PSD, lançou o ultimato: «O Governo tem 24 horas para tornar pública a lista nominativa das pessoas que perderam a vida na tragédia de Pedrógão Grande e de esclarecer quais foram os critérios».
Na terça-feira de manhã, Hugo Soares regressou para pedir «com caráter de urgência uma reunião da comissão permanente da Assembleia da República para que este assunto possa ser debatido» e o PS respondia que os sociais-democratas estavam e pedir «ao Governo que violasse o segredo de justiça» decretado pelo Ministério Público sobre o nome das vítimas.
Na terça-feira à noite, o MP revelava os 64 nomes, levantando o segredo de justiça em nome do artigo 86 do Código do Processo Penal, que contém a «tranquilidade pública» como justificação.
Na quarta-feira de manhã, Hugo Soares saudou a revelação do Ministério Público e informou que «como é evidente, depois de ter sido publicada a lista deixa de fazer sentido a exigência do PSD que houvesse uma conferência de líderes e da comissão permanente, para que debatêssemos este assunto». O esclarecimento dos «critérios» para a elaboração da lista, todavia, não fora dado. E embora o debate de urgência já não vá acontecer, os sociais-democratas já fizeram saber que o «assunto não está encerrado».
O deputado Carlos Abreu Amorim considerou mesmo que foi «graças à pressão» do PSD e da imprensa que a lista se tornou nominalmente pública, rejeitando as críticas que toda a esquerda lançou à oposição por «aproveitamento político».
Em reação à publicação dos 64 nomes por morte ‘direta’, Governo, PS, Bloco de Esquerda (que também havia feito exigências no fim de semana), e Partido Comunista condenaram veementemente o PSD.
Saudável ‘geringonça’
O SOL conseguiu apurar que o silêncio inicial do PCP e a mudança de posição do Bloco – de exigir ao governo no domingo, mas condenar a oposição na quarta-feira – não foi casual. A ‘geringonça’ permanece em saudável articulação política.
«A lista das vítimas mortais da tragédia de Pedrógão Grande estava sob segredo de justiça, e um Governo que se dá ao respeito e respeita as instituições e o Estado de direito cumpre o segredo de justiça decretado pela Procuradoria-Geral da República», afirmou ontem Pedro Nuno Santos, secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares.
«O PSD e o CDS-PP têm tentado criar um clima de especulação em torno de uma grande tragédia nacional, procurando marcar pontos politicamente», acrescentou o deputado Pedro Delgado Alves, também socialista.
O PCP, por sua vez, acusou a oposição de «utilizar, lamentavelmente, a questão das vítimas para fazer chicana política». O deputado comunista António Filipe culpou os partidos de centro-direita de «instrumentalizarem esta situação para obter dividendos político-partidários».
O Bloco de Esquerda, desta vez através do líder do seu grupo parlamentar, Pedro Filipe Soares, condenou a «politização de algo que deveria ser mantido para lá dos partidos políticos: o número de vítimas da tragédia e a lista dessas vítimas», acusando a oposição «pelo aproveitamento político» que fez do caso, reiterando a posição do PCP.