O Tumo venceu uma espécie de Nobel da Educação. Qual a importância deste prémio, a par do montante remuneratório?
O prémio Wise é provavelmente o prémio de maior reputação mundial na área da Educação e, neste caso, reconheceu a plataforma de aprendizagem Tumo como sendo muito inovadora. Esta plataforma funciona de uma forma muito engraçada porque os alunos estão a aprender com um tutor e com um colega de Inteligência Artificial. Cria-se uma dinâmica de aprendizagem a três, em que o aluno pode recorrer ao tutor para esclarecer perguntas, para procurar conhecimento e depois tem um colega que está a ‘aprender’ ao mesmo tempo. Um dos aspetos mais interessantes que começa a perceber-se em relação à utilização da Inteligência Artificial na educação é que nos permite conceber dinâmicas pedagógicas ou modelos de aprendizagem muito inovadores e muito envolventes. O que sabemos, seguramente há mais de 100 anos, é que estar sentado numa sala de aula a ouvir um professor ou a vê-lo a escrever no quadro é muito ineficiente.
Como vê as críticas que dizem que a informação proveniente da Inteligência Artificial nem sempre é fidedigna?
Depende muito das suas utilizações e, no nosso caso, estamos a utilizar a Inteligência Artificial num ambiente muito controlado. Imagine um aluno que está a aprender cinema tem de aprender a escrever um guião, a dirigir atores, a fazer iluminação, a capturar a imagem, a montar e a edita um filme. É um conjunto de conhecimentos muito claros e aí não há azo a alucinações da Inteligência Artificial. Mas a Inteligência Artificial não é um fim em si mesmo, é apenas mais uma ferramenta de que dispomos para construir uma experiência de aprendizagem mais eficaz, mais envolvente e mais motivadora.
Que balanço faz desta forma de ensinar e aprender de forma diferente?
Tem sido extraordinário. Tenho filhos mais velhos, tenho netos e não é óbvio o que os nossos filhos e netos têm de aprender para o futuro, mas temos a certeza que vai ter um futuro com uma dose grande de tecnologia, com um progresso muito rápido, em que as pessoas vão ter de se adaptar, de voltar a aprender e de fazer muitas coisas diferentes ao longo da sua vida. Temos de encontrar este novo caminho para a Educação. Infelizmente, vivemos uma escola tradicional muito fechada sobre si mesmo, pouco preocupada com o preparar desta geração e muito mais virada para os professores do que para os alunos, mais virada para o modelo e para a preservação do status quo do que para procurar inovar e melhorar o futuro. O Tumo procura ser uma espécie de um farol para a educação e para que as escolas também possam vir cá entender como é que a educação funciona aqui e poderem levar alguma desta experiência.
Estes cursos acabam por funcionar como um complemento do sistema educativo tradicional…
Claro. Chamamos-lhe centro de tecnologias criativas e os alunos vêm aqui desenvolver os seus interesses e os seus projetos. Nesse caminho vão desenvolver a sua autoconfiança, resiliência, vão aprender a trabalhar uns com os outros e vão aprender a usar tecnologia. A nossa ideia é muito clara: como podemos contribuir para melhorar a educação do nosso país e acredito que a mudança poderá acontecer quando as pessoas vierem aqui descobrir como é que se faz. Tenho esperança que isto possa servir de exemplo para o nosso sistema educativo.
Tem dito que somos um país marcado por uma sociedade estratificada, com pouca mobilidade social e com um sistema de ensino segregado…
Infelizmente, ao longo das últimas décadas, o nosso ensino, as nossas escolas ficaram muito segregadas. As escolas públicas, como o acesso é tipicamente feito pelo código postal da morada da família, passaram a depender muito pelo facto de se estar no centro da cidade ou na periferia ou no interior do país, tornando-se muito segregada. Por outro lado, nos últimos anos, quase um quarto da população de maior rendimento tirou os seus filhos da escola pública para a escola privada e esse espaço fundamental, em que se cruzavam pessoas de diferentes origens sociais de diferentes condições económicas deixou de acontecer. Isto é dramático. Nestas idades, os jovens estão-se a desenvolver e se não têm contacto com pessoas de outros meios não podem partilhar aspirações, não podem criar redes de contactos que depois lhes duram para a vida e perpetuamos este país que vive em bolhas disjuntas, bolhas que quase não se tocam. E vemos os resultados depois: aos 15 anos de idade, os alunos que vêm dos 25% mais ricos da população têm dois anos letivos de avanço sobre os que vêm dos 25% mais pobres da população. Isto é um número chocante, isto devia ser uma vergonha nacional. Há zonas do país em que a probabilidade de um aluno passar no exame de matemática do 9.º ano é de menos de 20%. O estado da desigualdade na nossa educação é chocante. Sou, por convicção, uma pessoa profundamente liberal, profundamente meritocrática, mas exatamente por causa disso preocupa-me a equalização das condições à partida. O nosso sucesso deve depender do nosso esforço, das nossas capacidades, mas tem de haver condições minimamente equitativas à partida. Quando não existem, a corrida está viciada. E, neste momento, a corrida em Portugal está profundamente viciada. No Tumo procuramos que metade dos nossos alunos venham dos ambientes mais vulneráveis da população e estou a falar de famílias de baixo rendimento, de baixa escolaridade, jovens que têm ação social escolar. Estou a falar também de refugiados, de jovens institucionalizados, pessoas para quem este tipo de aprendizagem tipicamente não é de todo acessível. E sentam-se aqui lado a lado com os outros. É uma igualdade fundamental porque é aqui um jovem que vem de uma família em que nunca ninguém foi para a universidade senta-se ao lado de outro por quem nunca passou pela cabeça não ir para a universidade.
O Ministro da Educação já defendeu o uso da Inteligência Artificial nas escolas…
Não faço ideia do que é que acontece no Ministério da Educação. O Ministério da Educação é um monstro burocrático que gera milhares de escolas e mais de 100 mil professores. É um modelo centralizado, burocrático, soviético e completamente obsoleto. Já vimos que o modelo de comando e controle de cima para baixo não funciona. Agora o ministro vai decretar que vai haver inteligência artificial em todas as escolas? Há pouco tempo decretou que todos os alunos iam ter um computador e nada disto acontece.
Disse que o objetivo é atrair alunos mais vulneráveis. É uma tarefa fácil?
Claro que para os atrair temos de fazer mais esforço. É mais difícil de chegar porque as famílias não estão tão atentas às oportunidades de educação. Temos de chegar através das escolas e das instituições em que estão. Os outros vêm pelo seu pé. As famílias quando sabem que abriu um Tumo põem imediatamente os seus filhos. As famílias que mais precisam são infelizmente as que têm menos acesso à informação, ou estão mais desatentas, ou não têm tempo ou disponibilidade.
E fácil atrair financiamento?
Tenho visto do lado das empresas, das fundações, das famílias um interesse enorme na educação, uma vontade realmente de dotar a próxima geração das competências para poderem vingar.
Estão presentes em Lisboa, Porto e Coimbra. O ideal seria estarem presentes em outros locais?
Estamos abertos a ir para outros sítios, mas nem sempre é fácil. Fora dos grandes centros urbanos a população é muito mais dispersa, é difícil fazer-se um centro com esta escala numa pequena cidade ou vila, mas estamos a estudar várias oportunidades.
Em Lisboa conta com 1.500 alunos. Quantos são no Porto e em Coimbra?
São 1.500 em cada um dos centros. No Porto começámos agora com mil, mas vamos crescer para 1.500. Um total de 4.500 já mexe um bocadinho a agulha, já estamos a chegar a muitas famílias que percebem que educação não tem de ser a experiência pela qual passámos e que não mudou. Um dos problemas de mudar a educação é, por um lado, a falta de imaginação. Toda a gente passou milhares de horas sentada numa sala, a tirar apontamentos do que o professor diz e temos dificuldade de conceber que a educação pode ser uma experiência muito diferente dessa. Por outro lado, há um conservadorismo muito grande na educação, durante décadas a estratégia foi estudar, ter boas notas, entrar numa boa universidade e ter uma carreira só que estamos agora a viver um período muito especial da história, em que a estratégia tradicional de dizer estuda muito e vai tirar Direito em Coimbra está condenada ao fracasso. A ideia de que vamos ser super especialistas numa área morreu. Qualquer LLM [(Large Language Model] sabe mais de qualquer assunto do que cada um de nós individualmente. O nosso sistema tradicional é a antítese disto e a ideia de que estudamos até aos 21, 22 anos, depois vamos trabalhar até nos reformarmos acabou. E muitas profissões já estão a ser completamente ultrapassadas por ferramentas de Inteligência Artificial. Os tradutores acabaram, os radiologistas vamos ver o que vai acontecer. Por exemplo, em relação a um médico radiologista, qualquer ferramenta de Inteligência Artificial é melhor do que um médico a olhar para um exame. Estes LLMs são bastante bons a ouvir a queixa de um doente, a fazer perguntas, a fazer a história clínica, a pôr hipóteses de diagnóstico, a recomendar exames complementares e a recomendar um tratamento. Isto não é ficção científica, isto é verdade hoje. A profissão médica vai mudar drasticamente e deixo a pergunta: Estamos a mudar a forma como treinamos os médicos a prepará-los para esse futuro? Desconfio que não. Isto é verdade no Direito, na Medicina, no Design, em muitas áreas. E o problema é em como preparamos a próxima geração para este futuro em que vai trabalhar com robôs e vai ter colegas de Inteligência Artificial. Não estou com isto dizer que não seja preciso aprender português, matemática, história e biologia, claro que sim, mas não no modelo obsoleto.
O PRR poderia ter sido usado para financiar estes modelos?
O PRR foi virado para o Estado. Foi virado para o Governo para colmatar os cortes de investimento que tinham sido feitos nos últimos anos. Foi uma oportunidade desperdiçada e é uma pena porque estamos a falar de 10% do PIB em poucos anos. Portugal sistematicamente, desde que entrou na União Europeia, tem recebido transferências da União Europeia maiores do que a taxa que tem conseguido fazer crescer a economia. Estamos consistentemente a destruir valor, nem sequer conseguimos crescer à mesma velocidade que representam as transferências que recebemos. Estamos sistematicamente a desperdiçar oportunidades umas atrás das outras porque este país perdeu a ambição e a ousadia. Estamos todos muito encolhidinhos a pensar em como podemos manter o status quo. Podemos achar que o nosso nosso status quo é miserável, mas é a nossa miseriazinha e estamos habituados a ela. Isto é uma pena.
É a tal falta de ambição e de ousadia…
Claro, porque nos últimos anos temos sido governados por governos que têm medo da crítica. Aparece algum comentário negativo anda tudo para trás. Não há coragem. Somos governados de acordo com inquéritos de opinião e focus groups.
Foi um dos responsáveis pela Nova SBE. Seria desejável ter mais casos desses?
Tive o privilégio de poder liderar o projeto de transformação da Nova SBE, entre 2012 e 2018. Em 2012, Portugal tinha acabado de falir, estava numa depressão profunda e acho que foi José Miguel Júdice que uma vez me disse uma frase famosa que é contra o vento que se levanta voo. E foi literalmente um projeto assim. Na altura, foi visto um bocadinho como um projeto louco por um lado, mas esperançoso por outro. Mas acho que foi isso que mobilizou a sociedade civil. Teve no início o apoio de Pedro Passos Coelho, mas depois com António Costa não teve. Cresceu muito, passou a ser uma grande escola europeia e tem um potencial muito grande. Agora, resta saber o que é o país quer fazer deste exemplo. É um exemplo para seguir? Será que ambicionamos a ter uma escola de medicina internacional? Por que não? Por que razão não temos escolas de ciência, de tecnologia, de artes ou de humanidades com esta projeção? Devíamos ter, mas para que a Nova SBE possa servir de exemplo às outras universidades é preciso ter coragem de alterar a regulação, os incentivos e o modelo de governance. Sem essa coragem vamos continuar a ter este miserabilismo que vemos por todo o lado. Não há um pensamento estruturado e ambicioso. E isto é tanto mais chocante quanto neste momento há uma oportunidade única, porque as universidades americanas estão-se a fechar para o resto do mundo. As políticas de Trump estão, essencialmente, a impedir que as universidades americanas recrutem o melhor talento do mundo e Portugal tem condições para ter grandes centros de investigação e de educação de classe mundial. Mas se tivermos a ambição de o fazer, se não sairmos um bocadinho deste pensamento miserabilista, pequenino que temos sempre. E a nova SBE, mais uma vez, pode ser um farol para essa mudança