Nuno Crato: o Ministro maoísta de Passos está chumbado!

1. Em 2012, escrevemos que Nuno Crato reunia todas as condições para se afirmar como o Ministro mais credível, mais consistente na acção política e capaz para implementar reformas estruturais que pudessem perdurar por várias décadas. No fundo, considerámos que Nuno Crato poderia representar o papel que Veiga Simão representou antes e depois do 25…

2. E a opinião pública não foi indiferente à onda de entusiasmo e expectativa em redor de Crato: as primeiras sondagens da era Passos Coelho mostravam que o Ministro da Educação e do Ensino Superior era o membro do Governo mais popular, registando uma vantagem apreciável face aos seus colegas que compõem o executivo. No entanto, rapidamente o entusiasmo se converteu em desilusão generalizada.

3. Pese embora no início do mandato Crato ter apresentado boas propostas e um projecto que se apresentava como reformista e coerente para uma melhoria qualitativa do sistema educativo português, o legado que Nuno Crato deixará ser a ideia de que um técnico e um especialista bastante competente gera frequentemente um político desastrado.

4. Nuno Crato foi isso mesmo: um político mais do que desastrado. Não negamos que se registaram algumas mudanças positivas no que respeita aos conteúdos programáticos ministrados nos ensinos básico e secundário, uma valorização da exigência e da meritocracia na avaliação dos alunos e uma aposta relevantíssima no ensino precoce do inglês. Mas que reforma estrutural – daquelas que Nuno Crato apresentava nos seus múltiplos livros sobre educação, daquelas que o Nuno Crato enquanto presidente da Associação Portuguesa de Matemática apresentava com enorme impacto mediático no prime-time dos principais canais noticiosos portugueses – o Ministro levou a cabo? Nenhuma.

A receita maoísta de Nuno Crato para os professores!

5. Qual foi a medida aprovada por Nuno Crato para valorizar a investigação científica, os investigadores, o ensino superior e politécnico como instrumento essencial de valorização do capital humano, essencialíssimo para o progresso e desenvolvimento da sociedade portuguesa? Zero! Pelo contrário, Nuno Crato protagonizou uma política e um discurso permanentemente contra os investigadores, contra os centros de investigação (mesmo os de excelência que operam em Portugal e que orgulham o nosso País!), culpabilizando as Universidades pelo problema das finanças públicas português, incentivando uma política persecutória contra as instituições de ensino superior e seus docentes. O que é muito estranho vindo de alguém que é Professor Universitário e que dispõe de um conhecimento amplíssimo e correcto sobre a realidade universitária em Portugal!

6. O que ficará então para a história da acção política de Nuno Crato? Primeiro, um estrangulamento financeiro das Universidades, digno de um político mesquinho e sem escrúpulos que quer impedir a todo o custo a formação de elites intelectuais, que não soçobram, nem têm medo de pensar e criar, mesmo contra o poder político conjuntural. Nuno Crato, sendo um académico, revelou uma atitude (ao longo dos últimos quatro anos) profundamente anti-académica. Negou os valores que devem pautar um académico. 

7. Em segundo lugar, Nuno Crato revelou um despeito e uma arrogância sem precedentes face aos professores. De todos os níveis de ensino, mas especialmente do ensino primário e secundário. É verdade que Mário Nogueira é um mercenário do sindicalismo, um homem que tem como profissão fazer barulho, andar com o megafone na mão a vociferar uns insultos contra os vários Ministros da Educação. É uma profissão como qualquer outra: só o atura quem quer. E, definitivamente, não é o nosso caso. Todavia, Mário Nogueira é uma personalidade do mundo sindical: não representa todos os professores portugueses, que são profissionais dedicados, abnegados e que dedicam muito do seu tempo em prol do sucesso educativo dos nossos alunos! Para Nuno Crato, todos os professores são incompetentes como o Mário Nogueira: logo, uma reforma do sistema educativo deve iniciar pelo combate contra os professores.

8. Ora, é impossível empreendermos uma reforma do sistema de educação que logre obter sucesso – à margem ou contra os professores, desmotivando-os e tratando-os como profissionais desqualificados, incompetentes e inúteis, como Nuno Crato fez. Sabemos bem que Crato nasceu politicamente nos meios maoístas: tem, pois, no seu “sangue” a utopia da revolução cultural, do grande salto em frente. Para se atingir o progresso de um Povo, é necessário mudar o Povo – logo, para se atingir o sucesso na educação, é necessário mudar os Professores. Deu asneira: Crato aprovou e aplicou um sistema de avaliação dos docentes que é uma complicação monumental – e um absurdo de todo o tamanho.

9. E a história de Nuno Crato teve, como se esperaria, um epílogo desastroso: o Ministro que apelava à competência, à exigência, à avaliação e ao controlo de resultados – espalhou-se ao comprido no processo de colocação de professores, prejudicando milhares de alunos e destruindo a vida pessoal e profissional de inúmeros professores! Nuno Crato chumbou na sua prova de avaliação! Está chumbadíssimo! Se tem o mínimo sentido de responsabilidade e vergonha, demite-se no segundo seguinte a resolver os problemas que criou!

10. Confessamos que a nota mais baixa que atribuímos a um aluno foi um 3: ora, Nuno Crato merece um 2! Chumba tragicamente com um 2 na pauta! Crato é o rosto da incompetência política! E Passos Coelho? Bom, o Primeiro-Ministro terá de rapidamente providenciar pela resolução do problema, aceitar a demissão de Nuno Crato e anunciar a remodelação governamental. Caso contrário, quem merecerá um chumbo monumental será Passos Coelho. 

De segunda a sexta-feira, João Lemos Esteves assina uma coluna de opinião no SOL

joaolemosesteves@gmail.com