Nascido num 10 de Junho

Ao ouvir Sampaio da Nóvoa, o ex-líder do PSD Marcelo Rebelo de Sousa afivelou um sorriso de espanto e o actual líder do PS, António Costa, pareceu beber-lhe as palavras. Esse discurso do 10 de Junho de 2012, que deixou Passos Coelho com uma expressão fechada, teve mais aplausos numa plateia onde estava representada toda…

Nascido num 10 de Junho

Com esse manifesto anticonformista, visto como o melhor discurso de oposição ao Governo PSD-CDS, nasceu a hipótese de uma carreira política de Sampaio da Nóvoa, o convidado de Cavaco Silva para organizar os festejos desse dia de Portugal. Do discurso ficou o apelo aos portugueses para tomarem em mãos o destino político do país e procurarem alternativas, que o próprio levou a sério: “Ou nos salvamos a nós, ou ninguém nos salva”. A frase, emprestada, é neste caso do escritor Manuel Laranjeira, mas as citações literárias, com Nóvoa, são abundantes e ecléticas.

Foi assim que o então reitor da Universidade de Lisboa passou a ser falado como putativo candidato a Belém. E a ideia foi germinando, diz quem o conhece. Três anos depois, aos 61 de idade, confirma a vontade de avançar. “Não é sério dizermos que somos candidatos em Outubro para umas eleições que acontecem dois meses depois”, disse este sábado, em entrevista ao Jornal de Notícias.

Se o currículo político é muito recente, a carreira académica é extensa e marcada pela distinção de prestigiadas universidades estrangeiras. Nóvoa é doutor em Ciências da Educação pela Universidade de Genebra e recebeu um segundo doutoramento em História  pela Sorbonne, de Paris. Deu aulas em importantes universidades, como Genebra, Paris, Wisconsin, Oxford e Columbia. É autor de mais de 150 títulos (entre livros e artigos), publicados em 12 países. Um estrangeirado da academia que passou a uma boa parte do último ano na capital do Brasil, numa missão da UNESCO.

Antes ainda da entrada na política, projectou o seu estatuto com a fusão bem sucedida da Universidade Clássica de Lisboa, de que era reitor, e da Universidade Técnica de Lisboa – um processo que lhe foi dando uma marca ideológica. “A fusão serve para dizer que somos e queremos ser uma universidade pública” e “evitar derivas privatizantes”, explicou então.

De congresso em congresso

A ascensão deste professor universitário a figura de referência de uma ala do PS e outros sectores à esquerda, firmou-se a partir de 2013 em conclaves de oposição ao Governo. Foi o que aconteceu no Congresso Democrático das Alternativas, junto a Mário Soares (que agora apoia a sua candidatura a Belém).

Já este ano, no Congresso da Cidadania, organizado pela Associação 25 de Abril para encontrar novos protagonistas políticos, Nóvoa pré-anunciou o avanço: “Já dissemos tudo o que tínhamos para dizer e até para dizer uns aos outros. Agora, chegou o tempo da coragem e da acção”.

Antes de subir ao palco da Gulbenkian, falou longamente com o presidente do PS, Carlos César – um pormenor que não passou despercebido e foi visto como o sinal do apoio socialista.

António Costa, em boa verdade, deu-lhe o grande impulso ao percurso rumo a Belém. Em Novembro de 2014, no Congresso em que foi eleito, depois de ter ganho as primárias a António José Seguro, Nóvoa foi o convidado de honra: um independente num conclave do PS, um sinal de que seria a aposta para as presidenciais se faltasse António Guterres.

António Sampaio da Nóvoa, nascido em Valença, é filho de Alberto Sampaio da Nóvoa, juiz, ex-presidente do Supremo Tribunal Administrativo e que foi ministro da República dos Açores. É casado, com a diplomata Lénia Real, prima direita da dissidente comunista e editora Zita Sebra. Tem um filho, com actividade política e que milita no novel Partido Livre.

O actual reitor honorário da Universidade de Lisboa diz que gosta de decidir rápido. O processo de decisão da candidatura presidencial, porém, teve tempo para maturar. E para ser acompanhado por várias figuras de referência da esquerda, que o incentivaram.

As citações literárias abundantes denunciam o seu gosto pela literatura. O teatro e o desporto são outras paixões. Aos 17 anos, deixou uma então promissora carreira como futebolista (era centro-campista na Académica) por uma inscrição na escola de teatro do Conservatório. Das artes cénicas fez a transição para as ciências da educação e para a universidade. A vida política activa, começa agora, depois dos 60.

O que Sampaio da Nóvoa já disse:

“Devo a Abril tudo o que sou. Se estamos aqui, é porque somos Abril. Porque quando tudo parecia bloqueado, a coragem iniciou uma ruptura logo abraçada como utopia”

Sinto que quando chegamos a um determinado momento das nossas vidas, e se pudermos ajudar em certas coisas, temos a obrigação de o fazer. Sempre que seja para uma lógica de mudança, estarei disponível”

“Quando pensávamos que este passado não voltaria mais, eis que a pobreza regressa, agora sem as redes das sociedades tradicionais. Começa a haver demasiados 'portugais' dentro de Portugal, demasiadas desigualdades”

“Com políticos antigos não haverá políticas novas. Ficará tudo enredado em calculismos, golpes, hesitações, sem elevação e sem futuro”

“José Mujica, Presidente do Uruguai, teve a coragem de dizer que quem gosta muito de dinheiro deve afastar-se da política. Se tivermos as mãos atadas por teias e arranjos, não teremos condições para defender o interesse público, de todos”

“Não consigo separar este Governo da troika nem a troika deste Governo. O Governo já não devia existir. Parece-me óbvio que já devia ter sido demitido”

“A economia do futuro tem um nome: conhecimento. E conhecimento exige tempo, continuidade e investimentos que nunca poderão ser feitos apenas pelos 'mercados'“

Sampaio da Nóvoa: 'Inexperiente, radical e intervencionista'

manuel.a.magalhaes@sol.pt