Esta é uma carta aberta a todos vós que fazem parte destas greves.

Queridos pilotos da TAP,

 

 

Eu sou um emigrante que teve de ir trabalhar para fora e tem poucas oportunidades de ir a Portugal. Sou uma mãe com um filho doente em Londres. Sou um trabalhador que juntou dinheiro durante anos, o equivalente a um mês vosso, para conseguir cumprir o sonho de ir ao Brasil. Sou um surfista profissional com uma competição a decorrer na Indonésia. Eu sou um músico com concertos regulares pelo mundo inteiro onde canto sempre em português. Sou um estudante Erasmus que queria fazer uma surpresa ao meu avô que fez anos. Eu sou também um médico reputado que ia dar uma palestra importantíssima a Boston. Eu sou um explorador do Árctico com resultados surpreendentes para apresentar num colóquio. Eu sou homem de negócios que queria ter voltado de urgência a Portugal para ver o nascimento do meu primeiro filho. Eu sou um actor que finalmente foi chamado para um casting na Broadway. Eu sou milhares de pessoas com saudades, com ambições, com uma série de vontades que não passam por ganhar mais dinheiro.

Faltei ao casting, não vi o meu filho nascer nem o meu avô fazer anos. Demorei mais dias a ir cuidar da minha mãe, fiquei muito menos tempo no Brasil, cancelei concertos e palestras. Deixei as saudades a latejar no peito e adiei ambições.

Porquê? Por causa da vossa birra. Por causa do vosso ganguezinho bem fardado e manipulado pelo sindicato dos pilotos que quer mais e mais, sem olhar a meios, sem olhar à volta, sem olhar para nada que não seja o seu umbigo.
Para quem faz da sua vida ter o mundo à sua frente, até entristece perceber que vivem num mundo só vosso, num mundo tão tacanho.

Andarem lá em cima não faz com que possam achar que todos os outros são mais pequeninos que vocês.

Que isto tudo vos corra mal.
Até um dia destes.