Internacional

Intifada à vista

Após a frágil vitória nas legislativas de março, Benjamin Netanyahu levou quase dois meses a apresentar um novo Governo israelita. Tal como acontecera no mandato anterior, a solução maioritária só foi possível à Direita, com o Likud a juntar-se a dois partidos ultra-ortodoxos e à Casa Judia da extrema-direita.

Já então quase metade dos questionados pelo Instituto Democrata Israelita considerava «alta» ou «muito alta» a probabilidade de se viver uma nova intifada no país, devido ao facto das já estancadas negociações de paz com os palestinianos terem poucas perspetivas de avanço com o novo Executivo.

Meio ano depois, Netanyahu é acusado de estar a ser «empurrado pela liderança dos colonos na coligação, levando todo o país para o abismo». As palavras de Ayman Odeh - líder da aliança de partidos árabes que foi a terceira mais votada em março - referem-se à violência que tem atingido o país desde o início do mês. 

Iniciada com a morte de um casal israelita - assassinado a tiro por dois árabes quando seguia no carro com os três filhos, no dia 1 - a onda de violência já levou à morte de mais de meia centena de pessoas. Todos parecem temer uma terceira intifada - que se segue aos períodos de revolta palestiniana em 1987 e 2000 -, que na imprensa internacional já é chamada de intifada dos colonos. 

O nome está relacionado com aquela que é tida como principal causa da revolta: a presença judia no Monte do Templo, zona de Jerusalém mais sagrada para todas as crenças, mas reservada apenas para orações islâmicas, segundo os acordos de paz assinados em 1967. Uma regra que vem sendo violada pelos colonos mais radicais e até por membros do Governo - em Setembro, o ministro dos colonatos, Uri Ariel do partido Casa Judia, foi filmado a rezar no local, aumentando os rumores na sociedade palestiniana de que o Governo israelita se prepara para alterar as regras que regem o local.

Grande parte das dezenas de ataques registados nas últimas semanas foram atos individuais com recurso a armas brancas, muitos deles perpetrados por árabes de nacionalidade israelita. Morreu uma dezena de israelitas, assim como foram mortos mais de 20 palestinianos na sequência de ataques e outros tantos falecidos em confrontos com a Polícia. O exército foi mobilizado para controlar as entradas e saídas nas principais cidades do país, assim como os locais de maior população árabe.

Revolta no Governo

Netanyahu continua a negar qualquer tentativa de mudança de regras e confirmou a posição ao banir, na semana passada, a ida de deputados ao Monte do Templo, para grande revolta interna no Executivo - «não é normal e não existe qualquer razão para um judeu não poder subir ao Monte do Templo», exclamou Ariel. 

A crise levou o secretário-geral da ONU a Jerusalém, onde se encontrou com Netanyahu e com o líder da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas. O sul-coreano falou em «tempo difíceis» e na «necessidade de procurar seriamente uma solução que acabe a longo prazo com o derramamento de sangue, o ódio e o medo de um conflito ainda maior». 

Mas no atual clima de insegurança, a via diplomática não parece ter muitos simpatizantes no lado israelita: segundo uma sondagem, Netanyahu aparece apenas como terceira escolha do eleitorado para enfrentar esta crise. Foi escolhido por 15% dos inquiridos, atrás do seu antigo parceiro de coligação Avigdor Lieberman (22%) - da extrema-direita do Yisrael Beiteinu - e do líder da Casa Judia, Naftali Bennett (17%).

nuno.e.lima@sol.pt