Politica

Na esquerda já só o PS dá a mão a Tsipras

Catarina Martins e António Costa foram o rosto em Portugal da celebração da vitória do Syriza na Grécia, em setembro do ano passado. Menos de um ano depois, os elogios ao partido da esquerda radical que ocupa o poder emAtenas saíram do guião público da esquerda portuguesa. E isso é tanto mais notório quanto mais o Governo helénico aplica em doses mais ou menos evidentes medidas de austeridade, sob pena de ver bloqueadas as tranches que decorrem do terceiro programa de assistência do FMI. 

Mas António Costa e Alexis Tsipras, ambos no poder, parecem mais unidos do que nunca. O primeiro-ministro esteve na Grécia com Tsipras e assinou uma declaração conjunta com o primeiro-ministro grego em que são defendidas medidas alternativas à austeridade. António Costa deixou ainda  nota de que a mudança não se faz pela «confrontação» mas por via do «diálogo» – e isso serviu para quem o quisesse ouvir dentro e fora de Portugal.

Bloco diz que a Grécia é exemplo negativo...

Do lado oposto, está agora o BE.Catarina Martins insiste que a reestruturação da dívida – a mesma que foi abandonada pelo Syriza, dadas as condições impostas por Bruxelas – «tem de ser conduzida pelo Governo português». Em entrevista esta semana ao DN, a porta-voz do BE apontou mesmo o exemplo da Grécia (pela negativa), afirmando que «ficar à espera de uma solução europeia» é algo que «destrói a economia». 

E é por não querer ficar à espera que o BE exigiu ao PS, em troca do seu apoio para formar governo, a criação de um grupo de trabalho para o estudo da renegociação da dívida. Dos encontros pouco ou nada se sabe. Apenas que o Bloco de Esquerda não quer ser apanhado na curva e ver-se obrigado a engolir a acusação que fez ao Syriza relativamente ao processo do referendo. Tsipras depois, de conseguir do seu povo um ‘não’ à austeridade, acabou por aceitá-la em versão redobrada.

Mas se António Costa dá uma no cravo e outra na ferradura – ou seja, permite a criação de um grupo de trabalho que senta à mesa PS e BE ao mesmo tempo que dá um sinal político de que está com o Syriza –, Mário Centeno não cede um milímetro na posição oficial: o cumprimento rigoroso dos compromissos europeus. Esta segunda-feira, à saída de uma reunião extraordinária do Eurogrupo para discutir o resgate da Grécia, o ministro das Finanças recusou colocar o país à boleia da Grécia. «Não. É altura de nos concentrarmos nas nossas obrigações. (...) O Governo português sabe bem o rigor e a exigência que tem de pôr na sua ação. É esse caminho que devemos trilhar», frisou o governante. 

... e procura nova esperança à esquerda 

As declarações de Centeno – que mais não fez do que reiterar o que já havia dito em fevereiro durante o debate na generalidade do Orçamento do Estado – não são bem recebidas pelo BE.Na moção de agregação entre as principais correntes do partido e que será votada na Convenção de junho, o BE insiste na necessidade de ser Portugal a conduzir o processo de renegociação. 

E no dia a dia já se fala em novas esperanças para a esquerda europeia, depois de Fernando Rosas, por exemplo, ter admitido em fevereiro ao jornal i que «o Syriza foi uma derrota séria da esquerda europeia». Marisa Matias ensaiou uma aproximação ao Movimento para a Democracia na Europa 2025 (DiEM25), lançado no início do ano por Yanis Varoufakis, o ex-ministro das Finanças do Governo de Tsipras que bateu com a porta depois do aumento do IVA e do corte nas pensões mesmo depois do ‘Não à austeridade’ ter ganho o referendo popular. 

Em abril, Zoe Konstantopoulou, ex-presidente doParlamento helénico, apresentou o seu novo partido político: Viagem para a Liberdade. O partido assenta nestes pilares: Democracia, Justiça, Transparência, Direitos, Redução da Dívida e Pagamento da Dívida Alemã da II Guerra. Em Lisboa, o novo projeto grego que se junta à esquerda europeia foi recebido com agrado e com esperança. 

PCP aponta erro do Syriza: alimentou falsas esperanças

Numa semana em que a Grécia voltou a ser falada, depois dos confrontos na rua (ver texto ao lado), também Jerónimo de Sousa saiu a terreiro para marcar posição. «Há quem diga que não aprendemos com a Grécia. Mas isso é virar o bico ao prego. (...) O grande erro do governo grego foi não querer sair do euro, ao contrário, foi ter alimentado a ilusão de que era possível eliminar a política de exploração (...) dentro do euro», defendeu o líder dos comunistas. 
OPCP sempre recusou entrar no coro de esperança que invadiu a esquerda com a vitória do Syriza, não obstante o partido ter reconhecido então que a vitória do partido de esquerda radical na Grécia representava também a «derrota dos partidos» que governaram até então a Grécia. E que são, «com a União Europeia, os responsáveis pelo desastre económico e social», reagiu então João Ferreira.