Opiniao

Fé, sangue, o bunker, a cera e Fátima

Cumprir penitência ou promessa com sacrifício sobre-humano faz tanto sentido como pagar para atirar velas aos magotes para a fogueira. Ou seja, nenhum

Todos os anos, por esta altura, mais dia menos dia, mais do norte e centro mas também do sul do país, com ou sem visita papal, milhares de peregrinos fazem-se à estrada, que todos os caminhos vão dar a Fátima. Têm de estar, o mais tardar a 13 de Maio, na Cova da Iria, onde Maria terá aparecido aos pastorinhos Lúcia, Jacinta e Francisco há um século.

O santuário mariano, para crentes e não crentes, é um lugar com mística.

Para devotos e não devotos, a verdade é que se trata de um lugar diferente, onde se respira um ar diferente ou que se sente diferente.

Como noutros lugares sagrados ou ditos sagrados, sejam católicos apostólicos romanos, sejam de outras religiões ou confissões – do Muro das Lamentações em Jerusalém a Meca, ao Taj Mahal, à grande mesquita de Lahore, a Lourdes, ao Tibete, ao Vaticano, a Santiago de Compostela... à Basílica da Estrela ou à Sé de Lisboa, de Silves ou de Braga, ao Convento de Cristo em Tomar ou ao dos Capuchos quase abandonado no meio da Serra de Sintra, à Capela de S. Paio nas dunas da Torreira ou à transmontana dos Possacos em Valpaços ou à ermida beirã da Senhora do Almortão e a alentejana Igreja Matriz de Castro Verde... por aí fora.

Lugares diferentes, que convidam quem entra, sendo crente, ao culto, à prece ou à oração, ou, todos os demais, à introspeção, à reflexão ou, simplesmente, à contemplação.

Quando o mosteiro, o convento, a igreja, a capela tem mais história mais ainda. Pela arte, pela arquitetura, pelas talhas, os painéis, os frescos, os mosaicos, as imagens.

Quanto a estas, já foram mais ricas e enriquecedoras – quando e porque eram mais inspiradoras de paz, serenidade e tranquilidade. A imagem de Maria de Fátima, por exemplo, com a sua expressão de bondade e seus traços simples e belos de Mãe.

Confesso que é raro o templo moderno, de paredes despidas e cimento polido, com imagens standartizadas em que sobressai a dor ou o sacrifício ou com pinturas abstratas sem significado maior, em que reveja o mesmo efeito ou sentimento.

Fátima, o Santuário, tinha muito mais beleza e mistério quando o recinto de oração tinha apenas a Capelinha das Aparições e a Basílica da Nossa Senhora do Rosário.

Obra de arquitetura com toda a certeza notável, a nova Basílica da Santíssima Trindade não tem nada a ver com Fátima. É um bunker.

 

Como nada têm a ver com Fátima, nem com nada, a não ser negócio, os fornos  para a queima das velas de todos os tamanhos e preços para os crentes deixarem o dízimo e as atirarem para lá aos magotes.

Acender uma vela à Santa ou Santo por alguém que se pretenda seja iluminado ou protegido é uma coisa. Como é de rara beleza a Procissão das Velas.

Outra, é pôr toneladas de cera (e são toneladas por ano) a queimar e pagar por isso.

A Igreja devia cuidar mais que Fátima não fosse assim. Como devia cuidar mais dos crentes e peregrinos.

Não faz sentido algum o sacrifício sobre-humano de muitos cumpridores de promessas.

Pés em sangue, joelhos em ferida quase até aos ossos, esforço muito para além dos limites da razoabilidade.

Não será por acaso que não se veem, ou serão muito poucos, sacrificados peregrinos de pés, joelhos e mãos a sangrar percorrendo o caminho do Santuário e às voltas à Capelinha a rastejar pelo chão com hábito vestido.

A Igreja, por estes dias de Páscoa, devia catolicamente preocupar-se em desincentivar a sério os seus praticantes de fazerem tais promessas ou cumprirem tamanhas penitências.

O silício pode ter uma justificação transcendental para quem, informada e voluntariamente, a ele se sujeita.

Mas desumanos sacrifícios são absolutamente escusados.

E tão incompreensíveis como as velas que os fieis pagam para jogar para autênticos fornos de liquidificação.

Só fazem fumo. Não iluminam.

A fé tem de ser outra coisa.