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PSD. Eutanásia reabre guerra interna. Montenegro ataca Rio

Luís Montenegro está indignado com “a forma desastrada” como o líder do PSD enfrentou o debate. Alguns deputados concordam que Rui Rio geriu mal este processo

Durou pouco tempo o período de paz interna dentro do PSD. A forma como Rui Rio geriu o debate sobre a eutanásia causou mal-estar no partido. Luís Montenegro, que já manifestou disponibilidade para disputar a liderança, não perdeu a oportunidade para criticar a forma “desajeitada” e “desastrosa” como Rui Rio geriu este processo.

O ex-líder parlamentar esperou pela votação na Assembleia da República para manifestar a sua “profunda indignação com a forma desajeitada, desastrosa mesmo, como o líder do PSD enfrentou este debate”. No programa “Almoços Grátis”, que partilha com Carlos César na TSF, Montenegro acusou o líder social-democrata de ter pressionado os deputados para votarem a favor da despenalização da eutanásia. “Ouvir Rui Rio dizer que estava a fazer um enorme esforço para não impor a disciplina de voto é, para a nossa história, um atentado”, acrescentou.

Rui Rio admitiu, antes do debate no parlamento, que fez “um esforço enorme para dar essa liberdade de voto”, porque “o impulso para defender o sim de uma forma muito violenta é muito grande, mas depois tenho de respeitar os outros e tenho de me conter”.

Eleitorado do PSD é contra A situação do PSD neste debate seria sempre complexa. Rui Rio assumiu há muito tempo que é favorável à despenalização da eutanásia – uma posição que não é partilhada pela esmagadora maioria dos deputados do seu partido. Isso ajudou a que o PSD fosse o único a aparecer neste debate sem uma posição concreta, o que deixou muitos sociais-democratas frustrados. “É um tema muito importante e o PSD não teve uma posição clara. Ninguém sabe o que pensa o PSD e o que vamos pôr no programa eleitoral”, diz ao i um deputado social-democrata.

A falta de debate também desagradou a alguns sociais-democratas e, mesmo entre os que apoiaram Rui Rio, há quem reconheça que um assunto como este deveria ter sido discutido nos órgãos nacionais. “Temos de ter a consciência de que o nosso eleitorado é contra a eutanásia”, afirma um social-democrata que esteve ao lado de Rui Rio na campanha interna.

Santana Lopes, que disputou as eleições internas com Rui Rio, também defendeu que “há aqui uma revisão de atitude a fazer por parte do PSD”. O ex-líder do partido atribuiu “significado político” ao facto de o líder do partido estar “do lado dos outros” no dia da maior vitória, nos últimos tempos, do centro-direita. “Isto não passa pela cabeça de ninguém. Hoje é o dia da maior vitória política do centro-direita e o líder [do PSD] está do outro lado (...) O PSD não pode ser isto”, afirmou Santana Lopes no seu habitual comentário na SIC Notícias.

"Uma enorme lição" Com a esquerda dividida, a única esperança dos defensores da legalização estava nos deputados do PSD. Seis votaram a favor, mas não foram suficientes para aprovar nenhum dos projetos de lei (PS, Bloco de Esquerda, PEV e PAN) que estavam em discussão. As contas feitas antes do debate apontavam para que, pelo menos, oito deputados sociais-democratas votassem a favor, mas terá havido quem mudasse de posição. Pedro Pinto era um dos deputados apontados nesse sentido, mas acabou por se abster. “A votação é demasiado renhida. Não posso ser responsável pela aprovação quando o que pode estar em causa é um voto. Não faz sentido”, disse à revista “Sábado” o deputado do PSD.

Paula Teixeira da Cruz, Duarte Marques, Margarida Balseiro Lopes, Cristóvão Norte, Teresa Leal Coelho e Adão Silva votaram a favor da despenalização, mas nem todos votaram nos mesmos projetos.

A posição de Rui Rio saiu derrotada. No final do debate, Carlos Abreu Amorim, um dos maiores críticos da atual liderança, escreveu nas redes sociais que “os deputados do PSD deram uma enorme lição de maturidade e de bom senso. E não foi aos seus simpatizantes e eleitores, com quem, aliás, demonstraram perfeita sintonia” – um claro recado para o líder do partido.

Antes da votação apareceram várias vozes com peso dentro do PSD contra a legalização. Passos Coelho, que tem optado por manter uma atitude discreta desde que saiu da liderança, defendeu mesmo que o partido devia ter assumido uma posição, mesmo dando liberdade de voto. “Se um partido, em matéria de visão de sociedade e do mundo, se alheia de emitir opinião neste particular, então nega a sua razão de ser e coloca sobre os seus representantes uma responsabilidade desproporcionada”, afirmou, num artigo para o “Observador”, o ex-líder do partido. Cavaco Silva também fez um apelo aos deputados para votarem contra. O ex-Presidente garantiu que nas próximas eleições legislativas não votaria nos partidos que apoiassem a legalização da eutanásia.