Economia

Pressão dos preços das casas passa para a periferia

Preços elevados e tipologias desajustadas levam portugueses a procurar imóveis nas periferias. Responsáveis do setor admitem que comprar casa está cada vez mais difícil.

Os preços das casas em Portugal continuam a aumentar e a pressão dos preços não se verifica apenas nas grandes cidades. Agora o cenário repete-se também na periferia. A garantia é dada ao SOL pelo CEO da Century 21 ao admitir que muitas famílias, apesar da sua preferência pelo centro da cidade, estão a adquirir casas noutras zonas das áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto. «Estas transações fora das cidades estão a concentrar-se nas zonas servidas por metro, comboio e barco estando já a criar uma pressão nos preços dos imóveis nestas localidades», diz Ricardo Sousa.

Em causa estão acima de tudo os preços. Segundo o responsável, os portugueses procuram adquirir habitação por um valor médio, a nível nacional de 138.623 euros, enquanto a oferta se situa numa média de 173.252 euros. Mas também a tipologia dita esta escolha. «Regista-se um deficit na oferta de apartamentos T3, com duas casas de banho. Este desajuste é mais evidente nas cidades de Lisboa e do Porto, contudo, verifica-se também nas restantes zonas das respetivas áreas metropolitanas, onde, ainda assim, a oferta está mais ajustada às necessidades e capacidades financeiras dos portugueses», salienta Ricardo Sousa. 

E a solução não está à vista. Isto porque o pipeline de novas unidade de habitação, tanto de construção como de reabilitação, nas duas cidades concentra-se em tipologias T1 ou inferiores, quando a procura dos portugueses se concentra em apartamentos T2 e T3. «Neste contexto, a oferta de tipologias ajustadas à procura nacional vai continuar a estar, sobretudo, concentrada nos subúrbios», o que leva ao aumento dos preços nestas localizações.

Compra cada vez mais difícil

A opinião é unânime junto dos vários responsáveis do setor e vão ao encontro do que foi dito, esta semana, pela Comissão Europeia, que se mostrou preocupada com os preços especulativos do mercado imobiliário português e com a crescente dificuldade das famílias no acesso à compra de imóvel. Bruxelas culpa, em parte, o turismo por este cenário. «[O boom turístico está] a puxar pelos preços não só nas zonas mais turísticas, mas também nos bairros residenciais, com impacto na capacidade de as famílias comprarem casa, particularmente as que têm menores rendimentos», disse na oitava avaliação pós-programa.

Esta dificuldade no acesso à habitação já é reconhecida pela Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal (APEMIP). Ao SOL, Luís Lima garante que «é efetivamente cada vez mais difícil a compra de casa». E justifica os vários motivos: «o setor financeiro é mais conservador na atribuição de crédito à habitação, obrigando as famílias a terem uma maior percentagem do valor total dos imóveis para dar de entrada, o que nem sempre conseguem, e o valor dos ativos nos centros das grandes cidades tem crescido devido à ausência de stock, começando a estar desadequado da realidade da generalidade dos salários das famílias».

Apesar destas dificuldades, a APEMIP prevê um aumento de transações imobiliárias até ao final do ano na ordem dos 15%.

Já a Remax justifica este cenário com as leis do mercado livre e concorrencial que ditam que numa conjuntura onde a procura é superior à oferta, assistir-se-á necessariamente a uma subida de preços, assim como a uma maior dificuldade na aquisição de um imóvel. «Se a este fator acrescentarmos o facto do poder de compra de uma família não crescer tanto quanto os preços dos produtos que adquire, naturalmente será mais difícil adquiri-los», diz Manuel Alvarez ao SOL. 

Ainda assim, preveem-se aumentos cada vez menos acentuados até final do ano. «A dificuldade de uma família portuguesa em comprar uma casa será menor por esta via, mas muito dependerá das políticas governamentais que vierem a ser adotadas, assim como de mercados coadjuvantes como o da construção/reabilitação».

A mediadora mostra-se otimista e acredita que o preço das casas irá estabilizar nos finais do próximo ano ou eventualmente em 2020. Aliás, ainda esta semana, a Standard & Poors (S&P) divulgou um relatório onde estima que os preços vão subir 9,5% este ano mas que nos próximos anos - em 2019, 2020 e 2021 - vão aumentar menos, respetivamente, 7%, 6% e 5%. Segundo a agência de rating, as pressões vão abrandar com o crescimento económico mais lento, os crescentes custos do endividamento e a deterioração da acessibilidade.

Recorde-se que, no primeiro trimestre deste ano, os preços das casas subiram 12,2% em Portugal, depois de já terem aumentado 10,5% em 2017. A subida foi superior nas casas usadas (13%), face à verificada em habitações novas (9,7%).