Economia

TVI. Impresa abre guerra à Cofina

Há anos, Balsemão assumiu publicamente a guerra contra o negócio da Altice e da Prisa sobre a Media Capital. Agora, a Impresa já começou a mexer-se nos bastidores para tentar evitar que a Cofina se transforme no maior grupo de comunicação português com a compra da TVI.

A compra da Media Capital por parte da Cofina já está a criar descontentamento junto do grupo Impresa. O SOL sabe que  altos quadros da empresa liderada por Francisco Pedro Balsemão reuniram com as operadoras de telecomunicações para falar sobre este negócio, que vai criar o maior grupo de comunicações caso a operação avance.  

Contactado pelo SOL, o grupo diz apenas que «é natural que a Impresa tenha contactos permanentes com as operadoras por ter com elas várias relações comerciais e contratuais e, por isso, uma forte proximidade com todas». Em setembro, o CEO tinha admitido que estava «atento a quaisquer alterações neste setor da comunicação social», acrescentando que, enquanto não houvesse mais pormenores, não iria comentar a operação. 

Ao que o SOL apurou, o objetivo destes encontros passará por arrastar o processo de compra, nomeadamente junto da Autoridade da Concorrência (AdC). A ideia é  desvalorizar o ativo TVI - que está neste momento avaliado em 255 milhões de euros, mas cujas sinergias no futuro grupo estão fixadas em 46 milhões de euros - e seguir o exemplo do que se passou com a tentativa de compra por parte da Altice. A operação avaliada em cerca de 440 milhões de euros acabou por esbarrar na demora das autorizações necessárias da Concorrência e de outras entidades reguladoras. 

E os números falam por si: o volume de negócios conjunto das duas empresas rondará os 270 milhões de euros, tendo em conta os resultados da Media Capital e da Cofina. Um valor superior quando comparado com a Impresa, cujas receitas superam os 172 milhões de euros. No total, Media Capital e Cofina têm 1800 colaboradores. 

Mas as consequências deste negócio caso avance não ficam por aqui. O grupo Impresa também poderá ver beliscadas as audiências. Atualmente a SIC tem mais audiência do que a TVI e CMTV juntas e o SOL sabe que a SIC está a fazer um profundo investimento para aumentar cada vez mais o fosso em relação à TVI. No entanto, o caso pode mudar de figura depois da junção dos dois canais. O SOL sabe que a ideia da empresa liderada por Paulo Fernandes é ter públicos diferentes em cada um dos canais (ver texto ao lado). 

Tal como o jornal i avançou, a SIC tem sido, durante todo este ano - à exceção de janeiro -, a campeã das audiências. Não é novidade que a estação de Carnaxide tem estado em expansão desde a contratação de Cristina Ferreira e os números são a verdadeira prova disso. É que desde janeiro - mês em que a apresentadora se estreou nas televisões dos portugueses pela SIC -, as audiências têm disparado e, a partir de fevereiro, o canal nunca mais saiu da liderança, sendo o fosso entre as duas estações privadas cada vez maior: na audiência média acumulada desde o início deste ano, a SIC está 14% acima da TVI.

Endividamento pode condicionar

Esta preocupação junto da Impresa ganha maiores contornos tendo em conta a descida das ações em bolsa do grupo Impresa ao longo dos últimos anos e também os níveis de endividamento, que poderão condicionar uma resposta futura ao novo grupo. 

Aliás, em junho, a SIC avançou  com uma emissão de obrigações destinadas a investidores de retalho com vista a obter 30 milhões de euros. Para atrair os pequenos investidores propõe-se pagar uma taxa de 4,5% por títulos de dívida que têm maturidade a três anos. E, para que a subscrição fosse um sucesso, recorreu a estrelas televisivas para promover estas emissões. Cristina Ferreira, que tem puxado pelas audiências da estação de Paço de Arcos, é uma das quatro caras que foram utilizadas na campanha da emissão de dívida.

Também a desvalorização de ações tem sido uma dor de cabeça para o grupo Balsemão. Só no ano passado, os títulos registaram uma queda de 60,1%, depois de terem registado uma valorização de 70%. O cenário repetiu-se com os volumes de transação que registaram uma forte contração ao descer cerca de 73% para cerca de 200 mil ações por ação, no ano passado (ver gráficos em baixo). 

Contestação

O que é certo é que vários jornalistas e comentadores da SIC têm vindo a criticar o negócio. Um deles foi Pedro Marques Lopes, comentador do Eixo do Mal. «No dia em que o país está de luto por Freitas do Amaral, o jornal do principal grupo de comunicação social portuguesa  (Media Capital + Cofina) enche a primeira página com ‘Vibradores tramam pedófilo arrependido’», disse no Twitter. 

Já Daniel Oliveira - também comentador do Eixo do Mal - escreveu num artigo de opinião no Expresso: «O mais poderoso grupo de media português passará a estar nas mãos de um grupo que se dedica ao jornalismo sensacionalista e que tem uma agenda política clara (...). A compra da TVI pela Cofina é, em décadas, dos momentos mais determinantes para a nossa democracia». 

Também o jornalista da estação Pedro Coelho reagiu a este negócio. «Imaginem o efeito que teria num qualquer país se uma pequeníssima televisão tabloide tomasse conta de um canal nacional que foi 19 anos líder de audiências?», questionou no Twitter.

O anúncio do acordo para a compra da dona da TVI foi feito a 21 de setembro e o negócio deverá estar concluído no primeiro semestre de 2020. A transação estará sujeita a certas condições, em particular à aprovação dos reguladores e à realização de um aumento de capital da Cofina, em 85 milhões.