Opiniao

A litania da vergonha...

Entre o ralhete de Ferro Rodrigues ao deputado do Chega e a deriva de Flor Pedroso há um fio condutor.

 

Estamos a viver uma quadra festiva que, de harmonia com os cânones tradicionais, é propícia à caridade cristã e ao convite ao consumo, que tanto desespera o ministro do Ambiente, no meio das suas trapalhadas.

Esse espírito natalício aconselha, por isso, uma avaliação piedosa do despautério de Eduardo Ferro Rodrigues, que um ‘erro de casting’ faz sentar, desde outubro de 2015, na cadeira de presidente da Assembleia da República, pela qual passaram, só na fase mais recente, personalidades tão marcantes como Almeida Santos, Mota Amaral ou Jaime Gama. Um enorme downgrade…

É com essa contenção que se deve tratar a insuspeitada vocação de ‘mestre-escola’ que despertou em Ferro Rodrigues, achando-se no direito de censurar o deputado do Chega, por este utilizar vocábulos tão ‘gravosos’ como «vergonha» ou «vergonhoso», por causa do amianto nas escolas ou dos entraves no hemiciclo. 

Reapareceu afinal, de corpo e alma, o ativista do MES, um grupúsculo de esquerda radical que se extinguiu a par de outros que vicejaram pós 25 de Abril, durante o PREC. 

Mas teve azar, porquanto, no mesmo dia, uma deputada bloquista utilizou a palavra proibida para classificar o mesmo caso, sem merecer, contudo, idêntica reprimenda. 

Em relação ao Chega, Ferro ‘chegou-se à frente’, cheio dos seus pergaminhos, por não estar disposto «a ceder no que são os princípios e valores», acusando André Ventura de «querer passar todos os limites». Quais, não disse, mas supõe-se que sejam aqueles que as esquerdas podem violar à vontade, enquanto a direita tem soberania limitada. 

Este quiproquó, criado pela segunda figura do Estado, quase marginalizou o imbróglio em que se afundou a direção de Informação da RTP, com Maria Flor Pedroso à cabeça. É uma história de contornos rocambolescos, com tiques a roçarem também o censório.

Desde o episódio do lítio, que dá pano para mangas, até à investigação jornalística de Sandra Felgueiras sobre eventuais irregularidades numa escola superior (encerrada pelo Ministério…) onde Flor Pedroso deu aulas, o folhetim continha todos os ingredientes para manchar a reputação da jornalista, forçada a demitir-se, e a dos seus pares na direção editorial, que seguiram o mesmo caminho.

Entre o desatino de um experimentado político e a derrapagem da jornalista não menos experimentada, a semana foi pródiga em sinais de que o PS e os seus próximos estão a entrar em rota de colisão com essa maçada que é viver em democracia.

Outra infelicidade foi o abaixo-assinado que logo circulou «em defesa da integridade» de Flor Pedroso, com o mal disfarçado propósito de branquear as suas contradições – o que ilustra a atuação das esquerdas, em registo de ‘pronto-socorro’, sempre que pressentem que um dos seus está em maus lençóis… 

Finalmente, o comunicado do Conselho da Redação do operador público – que já advertira não estarem «reunidas condições para um clima de tranquilidade e confiança entre os jornalistas» – foi arrasador para Flor Pedroso e para a adjunta, Cândida Pinto, vinda da SIC para a RTP. A mudança fez-lhe mal, como a Flor Pedroso. 

Pasma-se, aliás, como é que uma direção editorial integrada por jornalistas seniores com lastro em televisão pode ter caído em tamanha esparrela, ao ponto de Flor Pedroso ser acusada de «violação dos deveres deontológicos e de lealdade para com a redação da RTP» e de Cândida Pinto ser alvo de suspeitas de «conivência» com Flor Pedroso. 
A decisão rápida da administração da RTP, ao nomear uma nova direcção de informação com a ‘prata da casa’, embora reconduzindo   um dos demissionários – António José Teixeira, que atravessou a crise nos ‘intervalos da chuva’ – demonstra bem que quer arrumar o assunto, por ser incómodo. 

Entre o ralhete ao deputado do Chega feito por Ferro Rodrigues (esquecido de si próprio, quando não se coibiu, ao tempo de Passos Coelho, de usar no mesmo hemiciclo a palavra «vergonha»), e a deriva de Flor Pedroso, com a cumplicidade dos seus adjuntos, há um fio condutor que traz à superfície o perfil típico do PS quando está em situação de poder.

Com Sócrates, assistiu-se a um assalto aos media e à Banca. Com António Costa – que figurou no seu Governo –, observa-se uma trajetória mais sofisticada, aproveitando a debilidade estrutural da maioria das empresas jornalísticas e o facto de as redações, por natureza, terem o coração à  esquerda.  

O PS e o Governo têm vindo a ganhar terreno e influência nos media, públicos e privados. Mas, por vezes, sai-lhes o ‘tiro pela culatra’, à vontade de ‘mostrar serviço’, cultivada  pelos seus prosélitos.  

O ‘moralismo’ tardio de Ferro – em contraste com o vernáculo vicentino que usou noutras ocasiões – é revelador do seu estado de alma.