Cultura

‘Para Kurt Cobain era preferível morrer a trair a essência da arte’

Desde a adolescência que dizia que ia suicidar-se, chegou a ser sem-abrigo e mesmo quando estava a lançar Nevermind, um álbum que venderia milhões, vivia no carro. A vida trágica e sofrida de Kurt Cobain é contada por Charles R. Cross na biografia Mais Pesado do que o Céu, que acaba de ser editada em Portugal.

A tripla efeméride assinalada em 2019 – os 25 anos da morte de Kurt Cobain, os 30 anos do primeiro disco dos Nirvana e os 25 anos do álbum Unplugged in New York – pareceu a Vladimiro Nunes «uma boa desculpa» para traduzir e publicar Mais Pesado do que o Céu – A Biografia Definitiva de Kurt Cobain (ed. PIM!). Segundo a revista Rolling Stone, o livro de Charles R. Cross «continua a ser o melhor ponto de partida para a viagem sombria ao claustrofóbico mundo interior de Kurt Cobain». Um mundo com contornos sombrios, impregnado de sofrimento, mas donde saíram canções brilhantes que marcaram uma geração. Fã dos Nirvana de longa data, o editor e tradutor fala-nos das contradições insanáveis que habitavam no interior de Kurt Cobain e de como a incapacidade para gostar de si próprio o levou a entrar num processo de autodestruição irreversível.

Como tomaste conhecimento da existência deste livro?

Encomendei-o logo quando ele saiu [2001]. Li-o na altura e ficou-me na cabeça que dificilmente se faria melhor sobre o Kurt Cobain.

Qual é a história do autor? Tinha alguma ligação aos Nirvana?

O Charles Cross foi editor de um jornal de música chamado The Rocket e acompanhou o movimento grunge todo, conheceu todos os protagonistas. Esteve no concerto de lançamento do Nevermind, viu aquela loucura toda a começar a crescer e a explodir de repente. Se não me engano, o The Rocket foi a primeira publicação a dar uma capa aos Nirvana.

Enquanto fã que já sabia bastante sobre os Nirvana, havia muita coisa nesta biografia que não soubesses?

A infância e adolescência dele aparecem muito detalhadas. E depois há um elemento especialmente surpreendente que é o facto de ele de ele ser um construtor do próprio mito, criando mistificações à volta de momentos-chave da sua história de vida.

Como quando vende as armas do padrasto e compra uma guitarra?

A história das armas não será propriamente falsa, foi talvez um bocadinho colorida. Mas sobretudo a história de ter vivido debaixo da ponte, que enforma muito do imaginário à volta dos Nirvana. Ele nunca viveu, que se saiba, debaixo de nenhuma ponte. Mas foi sem-abrigo. E depois o livro contraria a tese de que foi a fama que o matou e que de alguma forma ele não aguentou a pressão. Não será tanto aí que está a chave da vida dele, mas antes numa propensão trágica.

Já muito antes de se tornar conhecido ele tinha uma faceta autodestrutiva muito acentuada.

No início da adolescência já dizia que se ia suicidar. Acho que ele abraçou como missão dar o máximo de si àquilo que fazia, à música, à arte, com verdade. E tinha a conceção muito adolescente de que essa verdade se esbate com o aburguesamento. Portanto, ao recusar a idade adulta, ele estava a recusar essa decadência.

Achava que se ia trair?

Ele idolatrava os The Who, que são muito conhecidos pela canção ‘My Generation’, em que dizem ‘I hope I die before i get old’ e que ele transformou num ‘I hope I die before I become a Pete Townsend’ [vocalista dos The Who]. Quando o Kurt morre, o Pete Townsend faz um texto para um jornal sobre os diários e tenta desconstruir o significado dessa frase. ‘Porque é que ele tinha de morrer antes de se tornar eu? Porque eu me tornei chato? Porque envelheci? Porque me tornei vendável?’. Nunca vamos saber mas eu acho que é isso: um certo extremismo da ética punk-rock, de acreditar que ao mínimo desvio já se está a trair a essência da arte. E que é preferível morrer a fazer isso.

Falaste da infância, adolescência, e da forma como ele construiu o seu próprio mito. Esse são os pontos mais fortes da biografia?

Os mais surpreendentes, pelo menos. Num livro destes, que diz respeito a alguém que só viveu 27 anos e cuja vida está tão documentada, é como pegarmos num romance em que já sabemos como a história vai acabar. O que surpreende é o caminho. Sem sair da esfera jornalística, documental, factual, o livro vive muito de análise psicológica, quase como um romance russo. Portanto vamos entrar num livro que sabemos como termina, mas é como se a cada passo estivéssemos à espera que o resultado fosse outro, porque no fundo tinha tudo para isso.

A vida apresenta-lhe o caminho sedutor do sucesso...

E ele escolhe o outro. É a vida enquanto exercício da vontade em que se pode fazer a escolha errada – todas as escolhas erradas. E apesar de tudo dar certo – pelo menos na vertente de exprimir uma verdade ou de deixar uma obra – ele opta pelo suicídio, como uma escolha da qual ele não se desvia mesmo quando a vida lhe dá todas as condições para se desviar. Há uma frase quanto a mim muito importante de um pastor evangélico que o acolhe em casa.

Ele passou por inúmeras famílias de acolhimento, não foi?

Por várias. E houve esta em particular com quem ele passou mais tempo. Estamos a falar de um pastor evangélico, com a sua própria família, que também tocava guitarra e incentivava-o muito a fazer música. Ele diz sobre o Kurt: «Tinha o desespero, e não a coragem, de ser ele próprio. A partir do momento em que fazes isso, não há fracasso possível, porque não tens por onde errar quando as pessoas te adoram por aquilo que és. Mas para o Kurt não importava que os outros gostassem dele. Ele é que não gostava o suficiente de si próprio». Acho que é um diagnóstico muito certeiro.

Esses problemas costumam ter origem na fase de formação da personalidade. Como foi a infância dele?

Pode-se partir em dois blocos. Um que vai até aos sete, oito anos. Uma família normal, classe média-baixa, em que o pai trabalha e traz o sustento da casa. Houve uma infância muito feliz até mais ou menos à altura de os pais se separarem. Aí dá-se a grande rutura, que ele depois gosta de desvalorizar. Essa separação deixou-lhe marcas muito profundas, porque é a derrocada de uma infância plenamente feliz, que depois se transforma numa guerra entre o pai e a mãe. A partir daí quase todas as relações dele são pautadas por um medo paralisante do abandono. E adota uma espécie de padrão emocional em que, por antecipação ao abandono que acha que vai sofrer, é ele a criar a rutura. Isso vai degenerar numa sucessão de profecias auto-realizadas. Nesse aspeto, ele assenhora-se completamente da sua narrativa de vida.

Na adolescência acaba por se tornar um delinquente, não é?

À beira da delinquência. São sempre pequenas coisas: graffitis, partir umas montras, estar bêbedo em cima de uns telhados, andar um bocado pedrado...

Disseste que ele chegou a ser sem-abrigo. Isso foi por opção ou por força das circunstâncias?

Por opção, no sentido em que ele esticou sempre a corda com a mãe, com quem ficou [depois da separação]. Estranhamente acaba por ser expulso de casa por ser apanhado com uma miúda. A mãe põe-no fora, provavelmente já num estado de saturação.

E como sai dessa situação?

Com o dinheirito de uns concertos, quando começa a tocar e os Nirvana começam a ter alguma projeção local. Mesmo assim não nos esqueçamos que quando ele faz o concerto de lançamento do Nevermind ele está a dormir no carro... Tem um contrato com uma multinacional, acaba de lançar um disco que – sabemos nós – nos dois primeiros meses vai ascender que nem um foguetão e destronar o Michael Jackson. Aqui está o responsável por um disco que vai vender milhões de cópias a ter de viver no carro e a ser incapaz de ver o próprio vídeo a passar na televisão porque não tem televisão no carro onde vive!

O nome da banda, Nirvana, remete para o budismo. Ele interessava-se por isso ou foi uma escolha mais ocasional?

Ele tinha interesse pelo budismo, pelo jainismo, por diferentes religiões, embora não fosse propriamente crente. Interessava-se por estados de transcendência, até porque ele próprio toda a vida os procurou – fosse nas drogas, fosse noutras coisas –, portanto essa ligação a uma vida espiritual ou a um plano mental ou filosófico superior sempre lhe fez sentido. E se calhar também se pode fazer a leitura de o nirvana ser o estado que ele atinge através da música.

Ele falava muito sobre ser uma estrela de rock. Era um objetivo que perseguia ou algo mais utópico?

Não acho que fosse utópico. Ele tinha consciência de até onde era capaz de levar o seu talento com trabalho e com esforço. Podia demorar, mas ele sabia que ia chegar lá. E orquestrava cada passo que dava. Há um aprimorar da estética dos Nirvana, tanto em termos musicais como em termos líricos. Há sempre uma doçura misturada com raiva, com agressividade, uma parte de mistério, que sintetizado dá aquela mescla estranha, e em que tens muitas vezes canções muito agressivas, em termos de sons, com letras que são quase doces e canções que são calmas com letras muito fortes. Como a ‘Polly’, que tem um imaginário absolutamente tenebroso. No entanto aquilo é um docinho... Ele explorava muito bem essas dinâmicas e esses contrastes.

O Nevermind destronou...

Dangerous, do Michael Jackson.

Quando eles atingem esse grau de sucesso muda alguma coisa na atitude dele? Eles celebram?

As duas coisas. Acho que a ética e a estética punk que ele celebrava obriga-o a desmerecer o sucesso ou até a queixar-se dele. Ele não quer estar tão exposto, mas ao mesmo tempo queixa-se de que a MTV não passa vezes suficientes o vídeo do ‘Smells like Teen Spirit’. Ele vai alcançar alguma estabilidade, porque compra uma casa, acaba por se casar, vai constituir família, vai ter um carro um bocadinho melhor, deixa de ter problemas de dinheiro – embora depois haja uns acidentes que o vão levar outra vez ao medo da ruína financeira. Mas por outro lado reage mal. Acha que há demasiada gente à volta dos Nirvana a tentar aproveitar-se do sucesso, que há pessoas a ouvir e a idolatrarem os Nirvana que ele preferia que não os ouvissem e não os idolatrassem.

Há algum acontecimento que possamos relacionar diretamente com o suicídio ou era algo que já estava ‘escrito’ há muito tempo?

Acho que isso já estava mais ou menos marcado no calendário dele – não chegar aos trinta anos. Mas aquela última digressão, já com uma tentativa de suicídio em Roma, as sucessivas desintoxicações, o consumo cada vez mais brutal de heroína... Até a filha, que era um polo de adesão à vida, se transforma no contrário: ‘Se calhar ela fica melhor sem mim’.

Mais vale sair de cena?

Tudo aquilo que dava sentido à vida dele transforma-se quase num peso porque a doença e a adição começam a falar mais alto.

Vamos à nota de suicídio. O que é que ela nos permite perceber?

Ele na verdade comete um duplo suicídio: começa por injetar uma dose mortal de heroína e, não satisfeito com isso, dá um tiro na cabeça. Mais no fim da carta a letra é maior talvez por ele já estar num estado de intoxicação e ter dificuldade em manter o controlo. Agora, a nota faz sentido dentro daquela psique. Apesar de tudo é dos textos mais ‘concretos’ que ele escreve.

A viúva acaba por reagir à morte dele de uma forma bizarra, anda com a camisa dele ensanguentada...

No meio dos fãs, com a carta dele na mão. Para a maior parte dos fãs dos Nirvana a Courtney Love é a ‘Yoko Ono assassina’, a responsável pela morte do Kurt. Eu não tenho muito esse entendimento. Ela influenciou-o de uma maneira que acho que foi positiva – artisticamente, pelo menos. Do ponto de vista pessoal, pode-se sempre especular que ao ter entrado naquele processo de autodestruição das drogas juntamente com ele terá precipitado o fim, mas até pode ter sido o contrário. Acho que antes de viver com ela, ele nunca se tinha sentido tão compreendido por ninguém. E isso acabou por ter um efeito positivo não só na arte como na vida dele.

Recordas-te de receber a notícia da morte dele?

Recordo. Eu comecei a ouvir os Nirvana com 14 anos.

Como os descobriste?

Por volta do final de 1991. Os meus pais tinham-me oferecido no Natal desse ano um gravador de cassetes com duplo deck, e eu comecei a gravar cassetes e a ouvir música com mais interesse. E houve um amigo que me trouxe uma cassete original do Nevermind. Lembro-me de começar a ouvir aquilo e... Woh! O que é isto? Ouvi aquele disco vezes sem conta. Em 92 sai o Incesticide. Como é que alguém conseguia conjugar daquela maneira a alienação, a raiva, alguma revolta, mas depois também a doçura e a capacidade de sentir as coisas? Estavam ali muito bem plasmadas todas as emoções, de altos e baixos, que eu no pico da adolescência também estava a passar.

Quando ele morre, o que sentiste?

Quando ele morre eu tenho 17 anos, estou no 12.º ano. Lembro-me de estar em casa a ouvir o telejornal e ver de repente um quadradinho com a fotografia do Kurt Cobain. Percebo que ele morreu e fico num estado de absoluta incredulidade. Fiquei desiludido, fiquei zangado. Foi um processo muito parecido com o luto.

Como reagiste?

Senti aquilo quase como uma traição. Claro que fui para a escola com calças pretas, sapatos pretos, casaco preto, com a única t-shirt dos Nirvana que tinha, e toda a gente veio dar-me os pêsames, como se eu tivesse acabado de perder uma pessoa de família. Foram uns dias muito tristes.

Depois voltaste para casa e foste ouvir as músicas dos Nirvana?

Houve uma fase em que me afastei daquilo. Mas não durou muito. É um daqueles gostos de adolescência que mais tarde percebes que te acompanharam e dos quais não te envergonhas. O rock não morreu ali, mas o Charles Cross tem razão: nunca mais houve uma estrela de rock como o Kurt Cobain. O OK Computer é um grande álbum, o Funeral dos Arcade Fire é um grande álbum, os Whitestripes e os The Strokes fizeram belíssimos discos. Mas com aquela força e aquela capacidade de fazer estremecer os alicerces de uma instituição como o rock nunca mais apareceu ninguém.