Cultura

Roger Scruton: O grande vilão das Utopias

Morreu, aos 75 anos, uma das grandes figuras intelectuais da direita. O filósofo e escritor inglês foi ainda um maestro a provocar o ultraje e controlar com a sua batuta o coro das brigadas do politicamente correcto.


Muitas vezes somos levados a reconhecer que, nas alturas decisivas, não há maior lealdade que se possa exigir de um espírito crítico do que o de exercer uma oposição feroz às inclinações da época. Se assumirmos que a inteligência é um instrumento, é realmente lamentável o facto de esta cair tantas vezes nas mãos de imbecis. Roger Scruton, que sucumbiu a um cancro do pulmão na segunda-feira (dia 12), aos 75 anos, estava consciente disto, e foi um intelectual público que sempre se orgulhou de representar-se apenas a si mesmo, formando uma minoria de um, ainda que, dada a «tremenda lucidez dos seus escritos e a graça nos modos de se exprimir», se tenha tornado uma espécie de herói para os conservadores britânicos e não só.  «Disse alguém – e não vejo porque razão não hei de dizer quem foi, foi Marx (...) – que  o homem subjetivo não podia tomar-se diretamente a si mesmo, senão em relação a essa resistência que ele encontra. E, assim, numa espécie de operação, de acção» (Francis Ponge). Ora, se há algo que foi várias vezes destacado na hora da morte de Scruton é, não só o talento, como a sua paixão argumentativa, o trabalho a que se dava, e a capacidade de reconhecer mérito a alguns autores do campo ideológico a que se opunha, de tal modo que, no papel de antagonista, a resistência que encontrou ao longo de toda a sua vida distingue-o como o exato oposto da esquerda caviar, pois, como reconhecia o obituário do Guardian, Scruton assumiu «riscos tremendos pelas suas convicções políticas», não apenas nos anos em que se envolveu pessoalmente na luta contra o comunismo soviético na Europa de Leste, mas expressando de forma constante e desafiadora as suas visões reacionárias, de tal modo que foi ostracizado pelo aparelho esquerdista.

Curiosamente, se nos momentos em que esteve em baixo, viu «os críticos digladiarem-se por uma oportunidade de cuspir em cima do cadáver», no fim, não houve lugar a esses oportunismos de quem estaria à espera de o ver pelas costas. E isto pode dever-se a estar ainda presente na memória de todos a última campanha de linchamento que lhe foi movida, na sequência de uma entrevista concedida, no ano passado, ao editor da New Statesman. Depois de aquele ter anunciado no Twitter que tinha uma série de afirmações ultrajantes do filósofo, o artigo que saiu, como se veio a provar mais tarde, montava e distorcia o que Scruton havia dito, o que o colocou no centro de uma «tempestade de ódio». Acusado de antissemitismo, islamofobia e de veicular estereótipos sobre os chineses, a revista foi forçada a emitir um pedido de desculpas depois de a entrevista ter emergido. Como último ato de graciosidade, Scruton insistiu em que o seu entrevistador não fosse despedido. Nos últimos seis meses, lutando contra a doença, confessou que «à medida que a morte se aproxima começas a ter uma noção do sentido da vida, e o sentido é a gratidão».

Um autor imensamente prolífico, este filósofo britânico escreveu mais de 50 obras, e se a sua faceta como brilhante polemista na defesa das causas conservadoras é o que maior relevo assume no seu perfil público, tendo-se notabilizado como um crítico tão impiedoso quanto parcial  das obras desses pensadores que tomava na conta de charlatões da pós-modernidade, o certo é que, sempre com um pé dentro e outro fora da academia, debruçou-se sobre uma infinidade de temas, desde introduções exemplares às obras de Espinoza, Kant ou Wittgenstein, a obras mais gerais sobre a história da filosofia, trabalhos de referência sobre estética e artes, estudos sobre música e arquitetura, e manteve crónicas sobre outras paixões como o vinho e a caça.

A par do tom acintoso de muitos dos seus textos, mais do que se notabilizar como um pensador original, foi sobretudo a clareza e o apelo da sua prosa que fizeram dele um adversário temível, tendo publicado quatro romances com fortes traços autobiográficos.  E arranjou ainda tempo para tocar piano com alguma proficiência, chegando a compor algumas óperas. Como se vê, nesta tão teatral e aguerrida busca de afirmação pessoal, desenvolvendo todos os sinais de refinamento, adotando desde as convicções aos maneirismos de um aristocrata, apesar de ter dedicado a sua vida a contrariar o peso da consciência de classe, a sua truculência, o ânimo combativo não deixam de registar a frustração e o ressentimento próprio de quem sabe que só poderá guardar as portas do lugar onde gostaria de entrar. De resto, como refere Jane O’Grady, no obituário do Guardian, ele exemplifica o aforismo de Nietzsche que nos diz que «toda a filosofia é uma espécie de biografia pessoal». E a tensão que se torna tão cativante nos seus escritos regista, de forma até angustiada, as justificações de alguém que, tendo sido humilhado, se vinga. Um homem que ataca com o grau de virulência apaixonada de quem se defende.

Como revela o obituário do The Economist, num tom que, não deixando de ser sóbrio, denota uma invulgar emoção, nas manhãs em que o inverno cala os campos sob uma camada de gelo,  ou em qualquer outra estação do ano, não havia para Scruton nada que lhe desse tanto prazer como sair para as suas caçadas a cavalo, envergando essa espécie de farda casual de um lorde inglês, seguindo de perto a excitação dos cães, não deixando mesmo estes de exibir uma certa afetação de fidalgos, nesse tão distinto passatempo, em que alguma coisa terá de morrer para que as velhas tradições se sintam vivas. «A sua vida, concluiu ele, dividia-se tal como a Gália de César em três partes», diz-nos o texto do Economist. «Na primeira, ele era um jovem algo desolado, tendo de fazer frente a um pai muitas vezes bêbado, um fervoroso socialista que, depois de ele ter ganhado uma bolsa de estudos em Cambridge, deixou de lhe falar. Na segunda e tão agitada parte, ele viajou, escreveu e construiu uma vida académica em filosofia no Birkbeck College e noutras instituições. Na terceira parte, a partir do início dos anos 1990, ele foi caçar. E nisso combinava as suas três paixões capitais: conservadorismo, controvérsia e o orgulho em ser inglês (Englishness).»

É assim que Roger Vernon Scruton acabou por libertar-se e, na medida em que lhe foi possível, apagar as suas origens, o ter crescido numa casa onde, muito embora o pai fosse professor, a cultura não era uma prioridade. Nascido em 1944, em Buslingthorpe, na zona nordeste de Lincoln, quando a família se moveu para Buckinghamshire enfiou-se na biblioteca de Marlow e, com o ânimo de um conspirador, entregou-se a tudo o que respeitasse à alta cultura. Tornou-se um aluno exemplar e logo conquistaria a bolsa de estudos que o levou para o Jesus College (Cambridge), acedendo ao universo da elite britânica.

Quanto ao momento que fez dele um fiel da ortodoxia conservadora, Scruton tributava a sua conversão aos eventos do Maio de 68, altura em que, estando em Paris, assistiu da janela do seu quarto quando bandos de jovens amatilhados, entre eles alguns dos seus amigos, entraram em confronto com a polícia no Quartier Latin: «O que eu vi foi uma multidão de desordeiros a dar largas à sua autoindulgência de classe média», disse numa entrevista ao Guardian, em 2000. E é curioso notar que na sua obra mais provocadora, Pensadores da Nova Esquerda (uma recolha de textos publicados na Salisbury Review, mais tarde revista e aumentada sob o título Tolos, Impostores e Incendiários – publicado entre nós, pela Quetzal, em 2018), Scruton garante que, se o comunismo seduziu tantos, isso se deve não às suas políticas concretas ou a qualquer programa de ação credível dentro da ordem existente, mas antes por se dirigir «à desordem interior da classe intelectual, num mundo em que nada havia de real em que acreditar».

Nauseado por essa forma de iconoclastia que via no repúdio por todas as instituições uma forma de redenção, Scruton sentiu desprezo por aqueles seus amigos que «tinham perdido a fé religiosa e a quem faltava a afeição cívica». Todas essas noções e valores, que ele tanto perseguira de forma a afastar-se o mais possível das suas origens, voltavam agora para assombrá-lo, prometendo arruinar o ambiente no qual tanto lutara para se integrar. «De súbito dei-me conta de que estava na margem oposta... eu queria conservar as coisas em vez de as mandar abaixo», disse numa ocasião. E noutro relato deste despertar, que adquire contornos de conversão mística, diz que, ao questionar os seus amigos sobre o porquê dos seus atos de vandalismos, estes lhe vieram com as típicas «balelas marxistas». «Fiquei enojado com aquilo, e pensei que tinha de haver uma forma de defender a civilização ocidental destes ataques. Foi então que me tornei um conservador, pois percebi que me interessava mais conservar as coisas do que vê-las ser derrubadas.»

Depois dos anos que passou dedicado aos estudos, entre 1971 e 1992 integrou o corpo docente do Birkbeck College, em Londres, e dizia que mais nenhum dos seus colegas partilhava o seu conservadorismo, pelo que só tinha a senhora que servia o chá para ouvi-lo e dar-lhe razão quando se queixava da indisciplina e da crise de valores nas instituições britânicas. Em 1982, Scruton ajudou a fundar o jornal conservador The Salisbury Review, e foi ali que, como já se disse, saiu a maioria dos artigos que integraram o volume Pensadores da Nova Esquerda, o que motivou uma forte reação de repúdio, numa campanha que tudo fez para pôr em causa a sua competência intelectual e até o seu caráter moral. Em consequência, Scruton viria a ser afastado da docência e o livro não voltou a ser reimpresso pela Longman. Por esses anos, a sua influência como defensor dos princípios conservadores levou a que o vissem como um dos ideólogos que ajudou a dar ao Thatcherismo uma espinha dorsal intelectual, mas o certo é que Scruton nunca foi um grande entusiasta das políticas liberais – chegou a referir-se a esse período como o reinado de terror de Margaret Thatcher, frisando que nunca partilhou do entusiasmo daqueles que vêem o mercado livre como uma panaceia para todos os males sociais. No livro atrás referido, deixa claro que «o conservadorismo – pelo menos, o da tradição britânica – é uma política de costumes, compromisso e indecisão estabelecida», e adianta que, para os conservadores, «a associação política deve ser vista tal como a amizade: não tem um propósito prioritário, mas muda de dia para dia, de acordo com a lógica imprevisível de uma conversa. Por conseguinte, os extremistas da aliança conservadora são isolados, excêntricos e até mesmo perigosos.»