Sociedade

‘Flor Pedroso foi uma estafeta do poder político’

É jornalista há mais de 30 anos e não foge de uma polémica. Denunciou casos mediáticos como Casa Pia, Face Oculta, Monte Branco ou Operação Marquês. Diz estar convicta que o ‘estripador’ é mesmo o que denunciou e sobre o ‘Capitão Roby’ fala numa fraca figura que foi desmascarada. E irrita-se quando lhe dizem que ficou deslumbrada com Pinto da Costa.

N ão é fácil entrevistar um amigo de longa data, mas na série que estamos a fazer sobre jornalismo de investigação seria bizarro não entrevistarmos Felícia Cabrita. Jornalista que andou pela Grande Reportagem, pelo Expresso, pela SIC – e que hoje trabalha no SOL e no i.

Felícia tem o coração ao pé da boca e emociona-se a contar as histórias que a marcaram, nomeadamente quando foi a Angola reconstituir o massacre da UPA, no início da guerra colonial, em 1961, ao serviço da SIC. Ao levar ao local do ‘crime’ alguns sobreviventes da tragédia, que viram familiares ser mortos à sua frente, Felícia observou a certa altura o medo que se apoderou de uma das mulheres presentes – e sentiu-se na obrigação de a proteger. Mas, à noite, ao ligar para Portugal, Felícia soube que a sua filha bebé estava a morrer – e, aí, foi a outra mulher que a embrulhou nos braços e a adormeceu.

Vamos então falar de jornalismo de investigação...

Primeiro quero fazer uma declaração de interesses: considero que ser entrevistada pelo meu próprio jornal é uma coisa bastante incestuosa. Depois, tenho uma vida muito desinteressante: nunca me cortaram um programa de televisão, nunca um primeiro-ministro me ligou. Era só o que faltava, não lhes dou confiança para isso. Eles falam muito de mim nas escutas telefónicas, que não são nada abonatórias, mas há uma coisa que eu quero muito ser: o ‘programa’ que não vão conseguir cortar da vida deles.

Tens-te em grande conta…

Em Portugal, as pessoas conhecem-me o suficiente para nunca me terem ameaçado diretamente. Com isto não estou a relativizar o caso da Sandra Felgueiras, que foi o que acompanhei melhor ultimamente. A situação é muito grave, mas eu gosto de brincar. Se me perguntarem como gostaria de acabar, respondo que seria com uma gargalhada. A vida para mim, mesmo como jornalista, é para ser levada assim. E quero dizer que o jornalismo de investigação não é diferente do jornalismo noticioso. Todo o jornalismo, por definição, é de investigação. Mal seria se assim não fosse. Existem, depois, três áreas: a noticiosa, a reportagem e a investigação. A investigação é diferente das outras porque tem obrigação de trazer ao de cima o lado mais obscuro da sociedade, que é aquilo que o poder não quer que se saiba. No fundo, é o escrutínio aos vários poderes: o económico, o financeiro, o judicial e o político. É a única coisa que distingue o jornalismo de investigação dos outros.

De onde veio a veia romancista que usas nas tuas histórias?

Desde os meus quatro, cinco anos, gostava de escrever poesia satírica. O meu alvo era uma avó paterna que eu odiava e dedicava-lhe muita poesia. Depois foi sempre assim. Também me contaram muitas histórias, acho que é o privilégio de se viver fora das grandes capitais e de se crescer com os avós. Era de mau comer, pelo que só muito embalada por histórias comia um bife até ao fim.

Lembras-te da tua primeira reportagem?

Perfeitamente! Foi um trabalho que pensei enquanto estava na faculdade, e ‘rezava’ para que ninguém contasse aquilo, que ainda por cima se passava na casa de um conhecido jornalista português, o Jerónimo Pimentel. Era a história do menino embalsamado. Quando entro no Expresso, já vou com uma ideia. Quem me levou lá foi a Clara Ferreira Alves. Éramos amigas. Apresenta-me ao Joaquim Vieira, e eu conto-lhe a história do menino embalsamado, passada no século XIX. O primogénito de uma grande família de Trás-os-Montes morre, e a mãe, transtornada, resolve embalsamar o filho. Ora, até hoje, aquele menino conserva-se na casa da família e, quando há festas natalícias, no Ano Novo, o Jerónimo Pimentel e os seus primos levam à mesa o menino embalsamado e ele acompanha a refeição. Esta história tinha tudo a ver comigo, porque dava para usar este estilo que sempre me marcou.

Qual estilo?

Não escrevo propriamente. É por isso que não sou noticiosa. Tenho uma grande dificuldade em adaptar-me a alguns espartilhos que são necessários em certo tipo de jornalismo, como a notícia pura e dura. Gosto de uma certa liberdade de escrita. As pessoas não podem confundir a liberdade de escrita com a invenção. As histórias que conto implicam muita investigação – e só consigo contá-las porque tenho investigação a mais. Tenho sempre mais documentação do que a necessária. Há uma altura em que o jornalista tem de saber dizer que é o momento de parar de investigar – e eu tenho muita dificuldade em fazer isso.

Porquê? Achas que tens tendência a fazer um filme a partir de uma pequena história?

Não. Não tem nada a ver com isso. Temos na mão um poder enorme. Podemos destruir a vida de uma pessoa, e eu não conseguiria lidar com erros resultantes de uma investigação insuficiente.

Mas tens noticiado coisas que mexem com a vida de muitas pessoas, como o caso Casa Pia...

Não estou a dizer isso – estou a falar do erro. Não quero cometer o erro de transmitir uma informação falsa para a opinião pública. E aí o trabalho de investigação dá uma rede muito mais protetora do que a notícia, porque a notícia é diária e a realidade é muito traiçoeira. Admiro quem faz notícias e consegue gerir esse tipo de informação. No meu caso, sinto-me sempre atraiçoada pela realidade, porque ela é muito rápida, é veloz. A investigação dá-me distância em relação aos acontecimentos. A documentação é fundamental no jornalismo de investigação e dá-nos também uma segurança. A investigação não é propriamente feita pelo jornalista – são os factos que arrastam o jornalista e não o contrário. E mal de nós quando a coisa não é feita assim. Quando um jornalista parte para um trabalho com uma ideia feita, e quer chegar ao fim do trabalho com essa mesma ideia, alguma coisa está mal.

No caso Casa Pia foram atirados vários nomes para cima da mesa. Muitas dessas pessoas não foram condenadas e nem sequer foram a julgamento. Mas ficaram com o estigma de estar no processo Casa Pia. Como é que hoje, olhando para trás, vês esta história?

Podia ter mudado de opinião se houvesse factos novos que me levassem a isso. Mas não houve. A investigação jornalística não é igual à investigação judicial. Aquilo que esta pode ou não provar não me impede a mim, jornalista, de contar a história que obtive pelos meus meios. Se os miúdos disseram a verdade, como ficou demonstrado – até pelo Tribunal Europeu, que veio dizer que a investigação tinha sido muito bem feita, que havia prova abundante, tendo ficado impressionados com a quantidade de testemunhas ouvidas –, não posso pensar que os miúdos disseram a verdade a uns e mentiram a outros...

Os miúdos tiveram várias versões...

Não, os miúdos não tiveram várias versões. Há um leque enorme de miúdos da Casa Pia que são vítimas, e um leque enorme de testemunhas que não eram vítimas porque já não tinham idade para isso. E só três miúdos, creio, vieram dar o dito por não dito. Por acaso o SOL entrevistou-os. Ora, quem falou com eles foram os participantes naquela história tenebrosa. Foram estes que falaram com os miúdos que mudaram a versão. Gravaram e eles desmentiram. Porque os miúdos só podiam desmentir aquilo aos que tivessem participado com eles naquelas ‘orgias infantis’. Desmentiram tudo e disseram que foi por dinheiro, por droga. Mas passámos todos esses testemunhos no SOL, em registo áudio.

Quando dizes que a investigação jornalística pode chegar a uma conclusão e a Justiça chegar a outra, estás a dizer que a investigação jornalística é mais credível que a investigação judicial?

Não tem nada a ver com isso. São os métodos que são diferentes. E as premissas que são outras. Por exemplo, quando faço os Ballet Rose, o caso estava arquivado.

Queres explicar os Ballet Rose?

Foi um escândalo que rebentou em pleno Estado Novo clerical, onde estavam envolvidos meia dúzia de políticos, meia dúzia de empresários, pessoas muito ligadas ao salazarismo. Foi denunciado através de Mário Soares, e envolvia também crianças. Neste caso, meninas. Esse processo acabou a trouxe-mouxe. Estávamos em plena ditadura e acabou. Mas não foi destruído. Passados aqueles anos todos consegui descobri-lo no Tribunal da Boa Hora, reconstituir a história e ir atrás das mesmas testemunhas, ouvir a mesma coisa e meter as pessoas ao barulho. Aliás, tivemos um processo em cima por um daqueles envolvidos.

Não achas que o que separa a investigação jornalística da judicial são os advogados? Tu não tens os advogados de defesa pelo meio, a Justiça tem...

Não. As pessoas fazem muita confusão entre o jornalismo de investigação e a investigação judicial. O jornalismo não faz justiça. Pode é contribuir para que a Justiça atue. Tal como na Casa Pia, foi com base em reportagens minhas que foram abertos processos. E o mesmo aconteceu com outros jornalistas. Nós denunciamos, não fazemos justiça. E para nós os casos não prescrevem. Para a Justiça prescrevem. Não somos melhores nem piores que a Polícia. Trabalhamos em áreas e com interesses absolutamente diferentes. Podemos contribuir para a atuação da Justiça? Podemos. Fiz um trabalho sobre um tipo que tinha sido condenado, o Supremo mandou repetir o julgamento e o tipo foi inocentado. Dá-me muito mais gozo este tipo de jornalismo em que vejo um efeito, em que penso: «Eu trabalhei mas estou a ver aqui um resultado do meu trabalho».

Como te chegam as histórias?

Depende. Esta do menino embalsamado apareceu-me à mesa durante um jantar. Os Ballet Rose surgiram porque levei para férias um livro chamado O Processo das Virgens, que era o único testemunho que tínhamos dos Ballet Rose. E ao ler aquilo pensei como era possível aquilo ter-se passado em Portugal e ninguém ter escrito sobre o assunto. Às vezes surgem por denúncias. Mas aqui há muita falsidade. A não ser, por exemplo, na Casa Pia, em que surgiram muitas denúncias falsas mas também outras verdadeiras.

E aí dependes das fontes?

Não, não dependo nada das fontes. Mas ao longo de uma carreira que já tem mais de 30 anos há pessoas que, talvez pelo tipo de jornalismo que fazemos, confiam em nós. E ao nível da Justiça tenho fontes que permitem mexer-me nesta área com alguma rapidez e agarrar os exclusivos. Mas isso é muito pontual porque a minha vida não é só Justiça. Gosto muito de reportagem, gosto muito de investigação. Podem perguntar se os processos judiciais como a Operação Marquês são investigação ou não. E eu digo que, se houver uma investigação jornalística paralela, é investigação. Na Operação Marquês nós já tínhamos um trabalho feito que vinha do tempo do Freeport. E uma das partes do processo passava pela venda de umas salinas em Benguela que não valiam nada e que apareciam como valendo milhões. Teriam sido compradas pelo primo de Sócrates e vendidas. A explicação que Carlos Santos Silva dá para os primeiros dinheiros que ganhou está relacionada com essas salinas em Benguela, de que ele seria sócio. Ora o que nós conseguimos demonstrar, indo a Benguela, é que o Carlos Santos Silva não tinha nada a ver com aquelas salinas, nunca tinha sido sócio da família Pinto Sousa, não constava em nenhum documento. Mais: as pessoas ligadas às salinas, os próprios trabalhadores, o capataz, a pessoa que na altura estava à frente das salinas, não conhecia nenhum Santos Silva. Portanto, aquele dinheiro que o Ministério Público suspeita ser a primeira comissão paga pelo universo Espírito Santo e Ricardo Salgado, essa parte é completamente desmontada.

Para ti, que investigas a Operação Marquês há tanto tempo, achas que não vai dar em nada?

Saber se isto vai ou não a julgamento depende desta fase de instrução. E há um sinal recente, em relação à fraude fiscal e ao branqueamento de capitais, que já está demonstrado. Quando o juiz Ivo Rosa vem aumentar os crimes e dizer «Não, o MP dizia que havia x crimes e eu digo que há mais», nós já sabemos que, pelo menos em relação a isso, Sócrates vai a julgamento. Falta saber agora se, em relação à corrupção, o juiz Ivo Rosa vai ter o mesmo entendimento. Porque a fraude fiscal hoje até é ‘moda’.

O Al Capone foi preso por uma fraude fiscal...

Sim. Mas o juiz pode entender que aqui há muito dinheiro e que isto só pode ser corrupção. E eu, que conheço aquele processo muito bem, acho que não só ao nível documental como ao nível testemunhal há indícios mais do que suficientes, ou provas, para levar Sócrates a julgamento também por corrupção. Por exemplo, no caso BES nós temos – e fomos o primeiro jornal a dar – um documento assinado por Ricardo Salgado em que eram distribuídas as comissões pelas partes. Esse documento veio depois a ser encontrado, elaborado de uma forma ainda mais clara, por Jean Paul Schneider, que era o homem que apenas fazia a contabilidade paralela do grupo Espírito Santo. Acresce a isso que temos testemunhas como Hélder Bataglia que vieram dizer que Ricardo Salgado lhes pediu para utilizar as contas deles e offshores deles para fazer chegar dinheiro a determinadas pessoas, dando-lhes inclusivamente o número da conta de Carlos Santos Silva. Veio também o Pedro Neto dizer o mesmo. Os dois são da Escom – e criaram offshores para fazer circular o dinheiro a pedido de Ricardo Salgado. Se isto não é prova, não sei onde é que se vai buscar prova melhor.

 

Davas-te bem com Fernanda Câncio e com José Sócrates?

Com Sócrates, não. Com a Fernanda Câncio, sempre. Posso, aliás, dizer que sou amiga da Fernanda Câncio e tive gestos de amizade bem recentes em relação a ela, não tenho nada contra ela. Como jornalista não tenho nada contra ninguém. Conheço-a há 30 e tal anos.

Quando começas a investigar a Operação Marquês e descobres que há lá várias coisas entre eles, qual é a tua reação?

Tenho vários tipos de reação em relação à Fernanda Câncio. Um é do ponto de vista pessoal e da amiga que a conhece há muito tempo e que, através das suas posições políticas (que não eram assim tão fortes quando a conheci), não estava preparada para vê-la assumir uma relação com o poder, com um elemento ligado ao poder político. Isso chocou-me. Em relação ao processo, não há ali nada de mais em relação à Fernanda Câncio. Quero acreditar que ela, tal como algumas pessoas próximas de arguidos, não tinham conhecimento de algumas matérias. Quando João Perna, o motorista do Sócrates, que tinha a missão de lhe levar dinheiro, pergunta à Fernanda Câncio pelas «fotocópias», esta estava a léguas do que eram as fotocópias. E quando Sócrates soube que Perna tinha tido esta conversa com a Fernanda Câncio, passou-se. Uma figura como José Sócrates, que enganou durante dois mandatos os melhores comentadores políticos, os melhores jornalistas, não ia mostrar as suas fragilidades numa relação amorosa. Nunca iria dizer à Fernanda Câncio, que é uma pessoa bastante intolerante, que não era o autor do livro, que o livro era escrito por um professor, que andava a meter a mão nos bolsos dos contribuintes, etc. Não podia! Estão aqui vários fatores em causa. A sua própria virilidade, por exemplo. Como é que um homem está com a mulher que ama, pela qual está apaixonado, pondo-lhe o rabo todo a descoberto?

Qual era a relação entre Carlos Santos Silva e Sócrates?

Acho que era uma relação absolutamente mercantil. O Carlos Santos Silva tinha muitas discussões com a mulher por causa de Sócrates, porque esta achava aquilo... Aliás, eles tinham um nome de código. Chamavam-lhe o ‘trinca-espinhas’, ou uma coisa assim, que era um termo muito pouco carinhoso. A Inês do Rosário estava sempre a colocar o marido em causa porque ela estava sempre em segundo lugar. Ela chegou a dizer: «Eh pá, se ele tem tanta urgência, que arranje um avião». Isto porque ele criou um esquema para se sustentar financeiramente que o ultrapassou. Como tinha de dar uma aparente legalidade à sua vida, e tinha apenas uma conta bancária, vivia de dinheiro vivo que lhe era passado pelo amigo. O que o obrigava a movimentos constantes de pessoas. Por isso é que a operação se chama Marquês: todos se deslocavam ao Marquês de Pombal onde vivia José Sócrates. Aquelas pessoas são serviçais do Sócrates e ele trata-os como serviçais. Não há ali uma ponta de amizade. Não vejo, em todo aquele processo, nem com as mulheres, nem com os amigos, esse tipo de sentimento. Vejo uma relação mercantil. Como quem diz: «As pessoas estão comigo porque eu lhes dou uma avença; as mulheres estão comigo porque eu lhes pago as viagens e outras coisas». Ele acaba por ser um solitário, criou um mundo onde se autoexcluiu, porque esse mundo não existe se ele não tiver dinheiro.

Sócrates hoje em dia não tem dinheiro?

Não, não disse isso. Ele vive numa casa na Ericeira que lhe chegou às mãos de um modo altamente suspeito. Através do primo do costume – que, segundo a investigação, foi o seu primeiro testa de ferro. E sabemos que anda bem vestido e come em restaurantes caros, quando apenas recebe 2300 euros por mês. O dinheiro continua a pingar e entra ali de alguma forma.

Como vai acabar o caso Marquês?

Acho que vamos ter de esperar muitos anos até vermos o desfecho disto. Muito provavelmente, alguns crimes de corrupção, que é o mais importante neste caso, não vão ser dados como provados. E digo-o porque sei exatamente como cada peça está a funcionar. E arrisco a dizer que o juiz Ivo Rosa em relação à PT vai achar que não há matéria suficiente para condenar José Sócrates e os outros. Em relação a Vale de Lobo não sei muito bem, mas acho que há ali crimes que vão cair. Obviamente, vão existir recursos. Este processo já passou por todas as secções do Tribunal da Relação, e só um juiz deu razão a Sócrates: Rui Rangel, que está como suspeito noutro processo, o que coloca as suas decisões sob suspeita. O Tribunal Superior, em todos os recursos de José Sócrates, deu-lhe sopa. E já estamos a falar ao nível do Supremo. Se Ivo Rosa entender que não existem indícios suficientes, por exemplo, no caso da PT, não sei se isso vai ser claro para a Relação.

Como é que te deixaram ir a Angola investigar as salinas, se o SOL, na altura, tinha acionistas angolanos?

Respondo de uma forma melhor: como é que há um processo chamado Monte Branco, que nós fomos os primeiros a denunciar, e que envolvia acionistas angolanos? Demos essas notícias...

Mas como achas que permitiram isso, que disponibilizaram dinheiro?

Não sei. No dia em que me disserem – e já aconteceu – que não posso investigar ou publicar determinada coisa, eu bato a porta. Já me despedi de dois órgãos de comunicação social. E estou muito bem com a minha consciência. Isso nunca me foi colocado enquanto estive no SOL. Só faltava agora haver qualquer tipo de censura. Mas nós somos acusados por alguma comunicação social e por alguns políticos de termos sobrevivido à conta de uns angolanos que, só por serem angolanos, já eram criminosos. Ora, por acaso, fomos os únicos e os primeiros a dar essa notícia.

Estamos a falar do Monte Branco…

Fomos nós que a demos, com as nossas fontes, sabendo o que isso implicava. Portanto, as fontes que nós temos sabem perfeitamente que não nos vendemos e que não somos calados por um acionista. Eu olho para o acionista de um jornal como para outra pessoa qualquer. Nós tivemos a liberdade para fazer isso e devemos orgulhar-nos disso.

Sofreste muitas pressões na Operação Marquês?

Não me lembro nem de uma. Talvez porque não seja pressionável e as pessoas sabem isso. Geralmente a forma como me tentam pressionar é através dos diretores. Aconteceu isso no caso Freeport e foi acontecendo no Face Oculta. Ninguém nos levou a sério, apesar de termos apresentado uma queixa à ERC. No caso Freeport, tanto quanto sei, um diretor recebeu um telefonema de alguém do PS que lhe disse que ou parávamos com a história ou acabava com o jornal. Depois foi o caso Armando Vara, no processo Face Oculta, em que ele foi para administrador do BCP, que era nosso acionista! E temos conhecimento de escutas durante a operação Face Oculta em que eles diziam que nos iam eliminar. Quando nós fizemos uma reportagem sobre umas centenas de cheques apanhados numa herdade no Alentejo em nome de Sócrates, este já estava sob escuta. E o primo diz isto, claramente: ‘Essa gaja não nos larga’.

Tens ideia de quantos processos já tiveste na tua vida?

Imensos, nunca perdi algum. Não faço ideia de quantos tive, porque isso a mim não me preocupa. Como jornalista de investigação, aquilo que sei até hoje é que os meus trabalhos estavam devidamente fundamentados e nunca perdi um processo em tribunal. Não me preocupo com isso, porque tenho a minha consciência tranquila. Não exibo isso como galões, não faço disso um troféu. São coisas que me passam ao lado, que sei que fazem parte do meu trabalho como jornalista. O jornalismo de investigação incomoda, tenho muitos inimigos, mas o [George] Orwell, que foi um grande jornalista, também dizia que o jornalismo é o que se publica e que alguém não quer que se publique. O resto é publicidade.

Que histórias marcaram a tua carreira?

Um processo que tive por tentativa de homicídio, que foi colocado pela GNR de Chaves. Isto remonta aos anos 90 e tem a ver com uma grande figura, naquele tempo, que era conhecido pelo ‘Talibã da Serra da Estrela’. Era considerado o inimigo público número 1, tinha as autoridades todas em cima dele, e vivia há anos escondido na serra da Estrela, sem ninguém conseguir deitar-lhe a mão. E porquê? O Tapada era uma criatura, no fundo, muito frágil. Mas tinha um desentendimento com a GNR muito semelhante àquelas querelas que existem entre os vizinhos com terras. Era um homem pobre, filho de agricultores, mas naquela zona não há terra para cultivar, e o expediente é rebentarem a rocha com dinamite para criarem espaço. Ele aprende com o pai, ainda em criança, a usar dinamite. Mais tarde começa a conduzir sem carta, lá para os 12, 14 anos, e é apanhado consecutivamente pela GNR. Leva com não sei quantos processos em cima e cria-se ali uma história entre eles, mal resolvida, que tem como pico o ‘Talibã’ enviar um rádio para a esquadra da GNR em Chaves dinamitado. Explode lá dentro e só não fez mortos por acaso. Desencadeia-se então a caça ao homem. Ele já estava em fuga há imenso tempo e tinha esquemas de sobrevivência incríveis. Resolvi ver qual era a história deste homem, como é que conseguia aqueles feitos. Fui para casa da mulher e dos filhos dele arranjar uma forma de o entrevistar, de chegar a ele, e consegui. No dia em que o conheço, ele desabafa e diz: «Estou farto desta vida, estou farto de fugir à polícia, quero ver os meus filhos, quero estar com a minha família. Queria entregar-me mas a GNR de Chaves odeia-me». Eu disse-lhe que se podia entregar à Polícia e não à GNR. Na altura arranjei uma forma. O ex-diretor da PJ, Almeida Rodrigues, era inspetor em Aveiro, ligo-lhe e digo-lhe que o homem se quer entregar. Combinámos a forma de fazer a entrega. Só que nessa noite, quando estou a dormir no meu carro, aparece-me um tipo cheio de sangue a dizer que tinha havido o rebentamento de uma bomba na Serra da Estrela, o Talibã estava preso e era preciso socorrê-lo. A versão dele era: «Nós já ligámos à GNR, a GNR não nos prestou atenção e ele está lá, a esvair-se em sangue, vai morrer». Meto-me no carro, vou para o topo da Serra da Estrela para salvar o Tapada. Ao mesmo tempo tenho de avisar o jornal e a SIC, porque isto era feito em simultâneo para o Expresso e para a SIC, a dizer que as coisas estavam alteradas e que a entrevista tinha de se antecipar, tinham de se fazer fotografias. No caminho até ao centro de saúde (porque a PJ se pôs a caminho para o ir buscar mal soube que ele estava ferido) foram-me orientando, dizendo qual era o sítio mais perto onde eu o podia deixar para que ele fosse socorrido. Era um dia de vendaval, chovia e eu sou um caos a conduzir. Tentei salvar o homem, ainda lhe fiz um garrote com um pedaço de uma camisa e um pau que encontrei na estrada, mas a GNR entendeu que eu levei muito tempo a salvar o homem. E meteram-me um processo de tentativa de homicídio, do qual acabou por ser minha testemunha o antigo inspetor da PJ – e que obviamente foi arquivado.

 

Mas acabaste de falar de um caso em que tu é que contactaste a PJ...

É que estou a falar dos meus bastidores como jornalista... E é óbvio que nós temos n histórias. Mas quando as pessoas leem não têm ideia se nós ouvimos 10 ou 100 testemunhas, o número de documentação que temos, etc. Esquecem-se que o jornalismo de investigação de facto não é fácil, há imensas pedras pelo caminho que nós temos de conseguir saltar sem escorregar.

Há muita gente que diz que tu te envolves de tal maneira que muitas vezes tomas as dores de quem está a ser investigado…

Vou dar o exemplo da biografia de Ramalho Eanes que fiz com Joaquim Vieira. A biografia era grande e saiu em duas partes. Após sair a primeira parte, estava no Expresso com o Joaquim Vieira a trabalhar a segunda parte quando os seguranças me ligam. Atendo e era a Manuela Eanes a dizer-me que achava inacreditável, que aquilo era muito violento. E estávamos a falar apenas da primeira parte, que ia até ao 25 de Abril. Era a infância, a tropa, etc. A senhora queria salvaguardar a segunda parte, penso eu. E eu dei-lhe esta resposta: «Olhe, eu quando escrevo, não tenho coração». E ela respondeu-me: «Quando acaba o trabalho, será que o coração volta ao mesmo sítio?». Mas eu não me ligo a coisa nenhuma, já escrevi sobre amigos meus.

Acham que estás feita com o MP. Como reages a essa acusação?

Estou tão feita com o MP que, quando se trata de notícias relacionadas com elementos do MP, eu as denuncio. Como foi o caso recente do procurador Orlando Figueiras, como foi o caso de uma meia investigação da PJ que levou um homem inocente à prisão e que após uma investigação minha o Supremo mandou repetir, como contei atrás.

Já há muito tempo, desde a Face Oculta, que tínhamos sinais que havia controlo da comunicação social…

Não precisávamos de chegar aí para perceber que todos os políticos, de todos os quadrantes, têm tendência para controlar a comunicação social. Já foi assim com Mário Soares com o fax de Macau... É uma história velha e que não vai terminar. De vez em quando dão sinais e tornam-se públicos. Acho muito bem que a Sandra Felgueiras o tenha denunciado a seu tempo, porque é na altura que as coisas acontecem que têm de ser denunciadas. E é de uma grande gravidade. Como é que alguém que está numa estação pública, que é diretor de uma estação pública, se atreve a pôr um programa em stand by à espera que as eleições passem? Isto não é serviço público e muito menos jornalismo. Isto é ser-se estafeta do poder político.

Como é que viste os 130 jornalistas a colocarem-se ao lado de Flor Pedroso?

Em primeiro lugar, a maior parte dos jornalistas que ali aparecem, com exceção de dois ou três, não têm uma carteira de trabalhos. Nenhum deles fez jornalismo de investigação. Depois, acho que aquilo não é tão pouco uma guerra com a Sandra Felgueiras, é pior. É uma guerra política, porque na nossa classe, infelizmente, os jornalistas entenderam que o PS era o penico da esquerda. Talvez porque o PC e o Bloco de Esquerda não sejam uma oposição credível, e acabaram por ficar debaixo do guarda-chuva do PS…

Por que razão o PS é o penico da esquerda?

A nossa classe, se calhar por bem, porque as motivações até são nobres, está muito mais ligada à esquerda do que à direita. Sempre nos interessaram as causas sociais, somos o contrapoder. A partir da Casa Pia, há duas trincheiras. São aqueles que defendem o PS como se este fosse o último reduto da esquerda contra uns javardos que têm de ser de direita. Eu não tenho culpa da realidade não ser piedosa. Nós, SOL, por exemplo, já demos de tudo. Demos o caso do Duarte Lima, demos o caso do BPN que sobretudo envolvia gente do PSD. Não podemos ser acusados de nada, como uma certa classe política pretende para descredibilizar o nosso trabalho.

Fizeste um perfil de Pinto da Costa que foi acusado de ser muito cúmplice… Hoje tê-lo-ias feito da mesma forma?

Quando fiz a biografia do Pinto da Costa, que foi uma ideia sugerida pelo José António Saraiva, ele disse-me que, tendo em conta a minha biografia do Valentim Loureiro, coitado do Pinto da Costa... Não há nada que tivesse existido na vida no Pinto da Costa que não tivesse sido ‘checado’ e com que ele não tivesse sido confrontado. Processos antigos, nomeadamente coisas que tinham a ver com droga. Foi perguntado tudo e está lá tudo no perfil. Os chocolates, a fruta, tudo. Não tenho culpa que uns apaixonados que levam a história de um ponto de vista dramático e não frio como eu se abalancem a certo diagnóstico apenas porque são benfiquistas ou sportinguistas. Eu não percebo nada de futebol.

Ficaste encantada com Pinto da Costa?

Eu não me encanto. Quem me dera a mim surpreender-me. Eu gostava era de ser surpreendida. Gostava que ainda existissem surpresas na minha vida. O Pinto da Costa nem foi ao lançamento do meu livro, odiou a biografia.

O que achas dos consórcios dos jornalistas, nomeadamente do Rui Pinto?

Tenho de ser sincera e dar os dois lados da coisa. Acho que ele cometeu crimes e que por esses crimes tem de pagar. De todas as formas, em relação àquilo que fez de interesse público, acho que deveria prevalecer tudo o que denunciou, não só cá mas lá fora. Aliás, lá fora ele não tem tido esse tipo de problemas. Devia beneficiar com isso. No fundo, já aconteceu no caso das FP 25. Houve pessoas que falaram e que usaram de um estatuto especial e que foram atirados para África e outros sítios e não foram presas. E não se falava ainda da delação premiada. Dizia o Pedro Coelho, por acaso, que a cabeça dos portugueses não anda, rebola. A mim interessa-me muito mais um Rui Pinto que denuncia este tipo de coisas e que pode beneficiar com isso, mas não podemos tirar de cima os crimes que praticou.

O que achas da delação premiada?

A delação premiada está para a Justiça como as fontes que querem vender notícias aos jornalistas. Não acredito numa pessoa que me vem dizer ‘Eu falo consigo e dou-lhe esta informação se você me pagar’. Porque estou perante, obviamente, uma pessoa sem princípios. É um risco que se corre. Em relação à Justiça, a não ser que essa fonte traga atrás de si um rol de documentação que seja tão importante e tão esmagador e de interesse público que me faça, de facto, pensar ‘que se lixe, esta pessoa não tem caráter mas aquilo que me está a dar tem muito mais importância e o meu dever é informar’. Aí, eu pago. Nunca paguei como jornalista, mas isto já me foi sugerido. A mim não me interessa uma pessoa que é bufa, que entrega não sei quantas pessoas e depois não tem nada para me provar. Quero uma pessoa que me traga provas suficientemente credíveis e correspondam à figura do delator. E, já agora, que a Justiça lhe dê outro nome – porque delator é uma coisa com que nenhum de nós saberá lidar. Cheira a Pide, a antigo regime, tem um cheiro bafiento. Mas eu percebo. O grande problema, neste momento, é como se conseguem provar casos de corrupção.

Rui Pinto tinha dado uma grande ajuda na Operação Marquês?

Se ele tivesse acesso a provas, era fundamental. Toda a gente que tenha provas, que me traga um manancial de provas, documentos, que não suscitem dúvidas, é fundamental para uma investigação. Quero lá saber se ele é o pior pirata do mundo. Não o posso desculpabilizar dos crimes que cometeu, e ele tem de ter a noção disso. E volto a dizer que no caso das FP 25 isso existiu, não é nenhuma novidade no sistema judicial português. As pessoas que falaram – porque aquilo naquela altura dava direito a morte e houve mortes – foram retiradas do país e foi-lhes dada outra identidade. Um gajo que mata, mata. Não deixa de ser um homicida só porque confidenciou não sei quantas coisas. Podes reduzir a pena mas não lhe podes tirar o crime. É um bocado como aconteceu na Operação Furacão, em que as pessoas acabaram todas por dizer que preferiam pagar ao fisco. E pagaram um quinto daquilo que tinham de pagar. Sim, eu quero a delação premiada se ela trouxer provas evidentes. E falo de documentação, não falo do testemunho, não aceito um testemunho.

Mudando de assunto. Há uma história com o Capitão Roby...

O Capitão Roby, ao contrário do que a maior parte da classe jornalística tinha feito até àquela altura, era uma pessoa vulgaríssima, sem atração alguma, sem sedução... O Capitão Roby era um mito porque não era capitão e porque Roby é um nome nobre. Ele juntou aquelas duas coisas, mas não era nem capitão nem Roby. Não estamos a falar à toa. É um fenómeno que existe nos dias de hoje com as redes sociais. Tem a ver com a solidão. Nas vítimas dele havia professoras, havia advogadas, havia uma série de mulheres com algum nível.

Ele disse que te sentaste ao colo dele para o seduzires...

Isso disse ele mas não é uma acusação. Uma pessoa que diz a um jornal que lhe dancei a dança do ventre… O burlão sentiu-se enganado por mim e foi dizer a um jornalista que foi enganado porque dancei a dança do ventre para ele.

E dançaste?

Eu gostaria de dançar a dança do ventre para todos os que me contassem a história da sua vida. Mas não dancei. O capitão Roby foi-me vendido por muita gente como um homem cheio de classe, um bandido a sério. E eu gosto dos bandidos a sério. Prefiro um bandido a sério do que uma boa pessoa; o problema é que não encontrei nem uma boa pessoa nem um bandido a sério. O Capitão Roby era um tamanco de homem e tinha sobrevivido à conta de mulheres completamente desmunidas, divorciadas, com problemas psicológicos, etc. Eu entro no mundo dele e desarmei-o. Durante o processo criou-se o mito. A nossa classe criou ali uma criatura especial, sedutora, que estava acima da lei e eu descubro uma vulgar criatura, que de sedutor não tinha nada, era um anão. Descobri uma criatura que nem sequer fisicamente era corajosa. Houve um confronto físico entre nós. O homem era um cobarde. Se eu lhe erguesse a voz, fugia.

Ainda há dias alguém escreveu que a história do estripador foi dos teus maiores fiascos. O que achas?

O estripador deu-nos imenso trabalho e gastámos imenso dinheiro com ele, porque levou-nos a uma investigação difícil. O estripador aparece quando estou a fazer o Duarte Lima. No meio da conversa com o homem, ele mete outras pessoas ao barulho e pensei que devia investigar. Ligo imediatamente para a irmã e a irmã diz-me tudo, muito baralhada, mas eu faço uma série de diligências e antes de ir para Matosinhos, digo à polícia de Aveiro o que se passava, os indícios eram de tal maneira que esta entendeu que aquilo tinha de ser investigado. Tinha todo o tipo de testemunhas, desde o psicólogo que o tinha ouvido há 20 anos quando os crimes foram cometidos, que ele tinha confessado coisas, tínhamos todo o tipo de prova. O problema não foi ele contar o que estava para trás, o que é que fez na vida. O meu problema é ele dizer que vai matar a amante. Percebo que o homem está a um passo de fazer qualquer coisa…

Farias hoje a mesma história?

Faria! Claro que faria. Da mesmíssima forma.

Mas ele não é o estripador…

Quem é que nos diz que ele não é o estripador? A investigação diz o contrário. O Tribunal da Relação de Coimbra diz o contrário. Desde a polícia, ao Ministério Público e ao Tribunal da Relação, o que disseram foi o contrário.

O filho foi para um programa dizer que tinha um segredo que era ter enganado uma jornalista.

Antes de me dar a entrevista a mim, e quando veio ter comigo também me contou isso. Quando eu falo com o filho sabia que ele tinha dito isso. O filho era um miúdo que queria ter sucesso na vida, não havia dúvidas. Ele queria fugir daquele mono onde tinha vivido, o que era compreensível. Havia violência doméstica naquela casa. Estava comprovado na Polícia, estavam as denúncias, estavam as participações. Aqueles filhos e aquela mulher eram, de facto, alvos de violência doméstica. Aquele miúdo tinha crescido assim. Não estava a denunciar o pai para aparecer num esquema qualquer de televisão. Estava a utilizar as duas coisas. Todo ele estava baralhado. Mas nós percebemos que tudo aquilo que ele disse era verdade. Havia o diário, apareceu. Havia a psicóloga. O miúdo disse que o pai tinha ido a uma psicóloga. Pedi-lhe nome e contacto e ele deu. A psicóloga teve medo e foi para um psiquiatra. E ela deu-me também nome e contacto. Falo com os dois. E corresponde tudo.

Continuas convencida de que ele era mesmo o estripador…

Absolutamente. Eu e quem investigou.