Cultura

António Mega Ferreira: ‘Os livros e a música ajudaram-me a suplantar as doenças’

O fascínio pelas imagens começou com as bandas desenhadas que o pai lhe trazia todos os dias em rolos de papel kraft. Depois veio a paixão pelo cinema na adolescência. Mega Ferreira fala-nos sobre a formação do seu gosto e sobre como a cultura que acumulou lhe foi útil para os cargos que desempenhou e até para superar os momentos mais difíceis.

A s estantes têm duas camadas de livros e veem-se quadros pelo chão porque já não sobra espaço nas paredes para os pendurar. Mas o ambiente não é opressivo, longe disso. Aqui e ali desponta um pouco de branco – «para respirar um bocado» – e ao fundo da sala abre-se uma grande janela sobre o casario e o céu de Lisboa. António Mega Ferreira, escritor, antigo comissário da Expo 98 e gestor cultural, sabe que hoje é um luxo viver no centro da cidade. Mas recorda que quando se mudou para esta casa há 25 anos «ninguém queria vir viver para aqui».

À nossa chegada, o som cristalino de um piano vindo da elegante aparelhagem Bang &Olufsen silencia-se, para dar lugar a uma conversa sobre os livros, a cultura e a vida. Está lá tudo na mais recente obra de Mega Ferreira, Mais Que Mil Imagens (ed. Sextante), publicada no início deste ano.

O que estávamos a ouvir?

Ravel, por uma grande pianista, Anna Vinnistkaya.

É daqueles compositores que ficam muito marcados por uma obra – o Bolero – e depois as pessoas acham que não fez mais nada...

É um compositor absolutamente extraordinário! No século XX não me estou a lembrar de mais nenhum – talvez o Luciano Berio – que conhecesse tão bem a orquestra. Adoro o Ravel. E não gosto do Bolero, como é óbvio, já não tenho pachorra para ouvir.

O Bolero é um bocadinho como a Mona Lisa. Já a vimos tanta vez que não conseguimos olhar para ela. Mas quem a viu de perto diz que ganha outra vida e outra presença que nós, como a vemos à distância, não podemos perceber.
Pois... Esse é o problema da deformação museográfica. O próprio facto de uma obra de arte já não estar no seu sítio original, mas num museu – um sítio preparado para acolher as obras e as multidões –, torna dificilmente captável a profundidade da obra. Neste meu livro há um texto sobre um quadro do Turner [Chuva, Vapor e Velocidade – OGrande Caminho de Ferro do Oeste, de 1844] que coloca essa questão. Eu sabia perfeitamente como era o quadro, já tinha visto reproduções em todo o lado, e naquele dia na National Gallery vi coisas que nunca tinha visto. Isso iluminou completamente a leitura do quadro. É verdade que as obras ganham outra dimensão quando ficam mais próximas da sua origem. Elas chegam a nós já refratadas por uma série de filtros, uma série de espelhos.

Nessa ocasião, ao aproximar-se consegue ver uma lebre e um barquinho a remos.

Digo até que num excesso de imaginação podemos imaginar que Turner se está a referir ao paradoxo de Zenão [segundo o qual Aquiles, que corre contra uma tartaruga e segue atrás dela, nunca a alcançará, uma vez que quando chegar ao ponto onde antes estava a tartaruga, ela já terá avançado mais um pouco, e assim sucessivamente], em que a lebre faz o papel da tartaruga, pois vai à frente da locomotiva.

Eu pensava que o barquinho a remos seria a tartaruga, e a locomotiva a lebre...

Acho que o barquinho a remos é mais uma assinatura do Turner, porque ele gostava de remar. É uma cameo appearance, como fazia o Hitchcock. Admitindo que o Turner tinha o conhecimento do paradoxo de Zenão, para mim é muito claro o que ele está a dizer é: aqui a tartaruga é a lebre, e vai à frente da lebre, que é a locomotiva. Depois no final logo se vê.

Falou no museu como espaço de descontextualização. Atualmente o museu está debaixo de fogo. Gosta de visitar museus, de passear neles, de se refugiar nas suas salas?

Gosto, o que não me impede de formular críticas, designadamente aos conservadores e aos curadores, que passam a vida a alterar tudo. Sempre fui um ávido frequentador de museus pela simples razão de que é lá que estão as obras. Depois há um lado nos grandes museus que é o gigantismo. A partir de certa altura vai-se ao Louvre para se ver uma secção. Um tipo vai direto ali, acaba de ver a secção e vem-se embora. Os museus sempre me cansaram. E não é das pernas. [risos] Ao fim de fixar o olhar em cem quadros...

Fica-se saturado?

Completamente saturado. Não se quer mais, começa-se à procura do sítio que diz ‘Saída, Exit’. Os museus têm isso, mas é evidente que são uma espécie de tesouro, que acumula uma quantidade brutal de experiências potenciais. E, para quem escreve, são também estímulos à escrita. Perante determinadas imagens, surge-me esse desejo de escrever sobre elas. E não é para dizer coisas novas sobre elas, é para eu próprio as perceber melhor, porque percebo melhor as coisas quando escrevo sobre elas. Também por isso os museus são muito estimulantes.

A propósito do gigantismo, estava a lembrar-me do que se diz sobre o Hermitage: se dedicássemos um minuto a cada obra precisaríamos de não sei quantos anos para visitar o museu todo.

Tive a felicidade de visitar o Hermitage nos anos 70 do século passado, em plena União Soviética. Houve duas coisas que retive. Uma delas é o túmulo de prata do Alexandre Nevsky. É uma coisa que ocupa uma parede gigantesca, um túmulo em prata, maciça, trabalhada. Um tipo entra ali e pensa: ‘Estes czares eram completamente loucos’. E a outra é a sala de malaquite, que é uma coisa deslumbrante: ‘De onde é que veio isto tudo?’. Era uma grande loucura. Aliás tudo na Rússia tem uma dimensão... Acabei agora de ler um livro que tinha aí há uns anos...

Estava à espera de ser lido?

Chama-se Natascha’s Dance, do Orlando Figes, e é um livro magnífico sobre a história cultural da Rússia. Já não sei quem dizia isso (quem citava era o Eduardo Prado Coelho), é um ‘livro-rizoma’, um livro que vai deitando coisas por baixo do chão. As vezes que eu tive de interromper a leitura para ir à minha biblioteca buscar uma referência! E a certa altura há uma passagem em que ele pergunta: ‘Porque é que os romances russos são tão longos?’. Porque o território é imenso. A escala daquilo é uma coisa absolutamente extraordinária. O Tchékhov, que viveu há cem anos, um dia resolveu visitar a colónia penitenciária na ilha de Sacalina, que ficava a nove mil quilómetros de Moscovo. Foi de comboio, de carruagem, a pé – fez quilómetros e quilómetros a pé – para ir à ilha de Sacalina, que ficava no extremo do império. Acho que em certa medida o excesso russo marca tudo – a arte, a literatura...

As chacinas...

Tudo aquilo é excessivo, o que também tem que ver com a escala daquele território.

Gostava que me falasse do seu processo de formação intelectual e do gosto. É verdade que começou tudo pela banda desenhada?

O meu pai, eu muito pequeno – com quatro, cinco anos de idade, por aí – aparecia praticamente todos os dias da semana em casa com um rolinho de papel kraft. E dentro desse rolinho que ele me dava para a mão vinha tudo o que havia de banda desenhada: o Condor Popular, o Condor Mensal, o Cavaleiro Andante, depois o Falcão, o Foguetão... A partir de certa altura começou a haver nessa tabacaria onde ele ia o Journal Tintin – em francês, ainda não havia a edição portuguesa.

Já sabia ler?

Não, isto foi mesmo antes de saber ler, tinha quatro anos ou cinco. Não sabia ler, portanto via os bonecos. Curiosamente, um dos livros da minha vida, que é A Ilha do Tesouro, do Stevenson, comecei por ver numa edição especial do Cavaleiro Andante, portanto tomei contacto com essa obra-prima absoluta através dos quadradinhos. De tal forma que há imagens que me ficaram na cabeça. Há uns anos recuperei num alfarrabista esse número da Ilha do Tesouro – entrei num tal entusiasmo que quando perguntei o preço o homem cobrou-me couro e cabelo... Eu alegremente paguei e vim com aquilo para casa. Depois o próprio Cavaleiro Andante tem um papel importantíssimo não só no meu gosto na minha formação como leitor de palavras. Porquê? O prato forte eram as adaptações para quadradinhos dos clássicos da literatura: Os Três Mosqueteiros, o Ivanhoe, a Alice no País das Maravilhas, que tinha ilustrações extraordinárias, o Ben-Hur...

As Viagens de Gulliver, que já vi por aí...

Também. Há um livro de crónicas onde digo que, tal como as iluminuras na Idade Média eram a Bíblia dos pobres que não sabiam ler – viam as iluminuras e aprendiam a Bíblia pelos desenhos – também o Cavaleiro Andante foi a minha Biblia Pauperum. Depois há um fenómeno curioso. Quando não sabia ler, concentrava-me ainda mais nas imagens, não passava por elas, via mesmo. A partir de certa altura, passei a ler a banda desenhada ao contrário: a ler as legendas e a passar só os olhos pelas imagens.

O passo seguinte foi a paixão pelo cinema, não foi?

Claramente. E, como tantos de nós na adolescência, era doente. Cheguei a ver três filmes por dia. Papava tudo, tudo, tudo.

O bom e o mau?

Era aquela altura em que estamos a acumular, a absorver, não temos critério para começar a fazer la fine bouche às coisas. Isso vem-nos muito depois. Ainda ontem comecei a ver na Netflix um filme que se chama Diamante em Bruto. Ao fim de meia hora parei. É um filme densíssimo, muito bem feito, mas não me interessa. E já não tenho idade para estar a levar até ao fim uma coisa que não me interessa.

Hoje acontece-lhe mais isso, deixa mais facilmente as coisas a meio?

Com filmes não me acontece muitas vezes, porque sou muito criterioso com a escolha. Com os romances acontece a mesma coisa. Hoje em dia tenho com os livros uma relação bastante diferente da que tive até aos 40 anos, talvez. Aí, claramente, o que não me interessava eu punha de parte. Hoje em dia já são raros os livros que faço isso.

A escolha é mais afinada?

Por um lado a escolha é capaz de estar mais de acordo com os meus critérios. Por outro lado, desenvolvi uma espécie de respeito supersticioso pelo autor. ‘Deixa ver até ao fim o que o gajo quer dizer’. Às vezes é uma estopada...

Ainda apanha estopadas?

De vez em quando. Mas tenho essa coisa de seguir o livro até ao fim. Em relação aos filmes só me lembro de um filme em que saí a meio. Foi A Mosca.

É um belo filme!

Mas não aguentei.

Fez-lhe impressão?

Foi-me repulsivo.

Aquilo é a Metamorfose, do Kafka.

Será, mas em literatura é diferente... Ainda por cima fiquei com uma certa embirração em relação ao ator [Jeff Goldblum], que é um excelente ator. De cada vez que aparece um filme com ele, sinto as entranhas todas a revolver-se... Hoje em dia acontece-me mais largar as coisas em matéria de cinema por causa do Netflix. Se você vê um episódio por semana, a coisa passa. Se vê três ou quatro episódios seguidos, os fios aparecem todos. Por outro lado, você começa a perceber quando eles esticam a ação.

Tipo telenovela...

Comecei a ver o The Crown, vi a primeira temporada, depois já nem comecei a ver a segunda – já estava farto de família real inglesa. As séries não me dizem muito. É preciso ser uma coisa extraordinária...

Não embarcou nesse fenómeno?

Embarquei porque subscrevi o Netflix, mas o Netflix também tem imensos filmes, longas-metragens, ainda ontem vi um interessante.

Voltando ao seu livro, acerca de um quadro do Picasso, conta como o viu pela primeira vez no ICA [Institute of Contemporary Arts] em 1971. Essa foi a primeira vez que esteve em Londres?

Em 71 foi a segunda vez.

Aqui ainda não tinha havido o 25 de Abril, embora já se passasse por uma fase mais arejada do regime. Sentia-se uma grande diferença entre uma cidade como Londres e Lisboa?

Brutal. O simples facto de você ir ao ICA e ver lá um Picasso – só isso era outra coisa. Há uma coisa que só quem viveu antes do 25 de Abril – e eu em 71 já tinha 22 anos – pode perceber: a liberdade sente-se no ar. Isto era uma coisa oclusiva, cinzentona, e respirava-se mal. Não havia qualquer espécie de liberdade. E lá havia toda a espécie de liberdade – até aquelas que a gente nem imaginava que pudessem existir. E que experimentava na prática. No ano seguinte, em 72, estive em Manchester a frequentar um curso de comunicação social, e claro que chegava a sexta-feira depois das aulas, metia-me no comboio e ia para Londres passar o fim de semana. Durante cerca de três meses e tal, quatro meses, os fins de semana eram passados em Londres. Onde, aliás, fiel a outra paixão que eu tenho – o futebol –, ia ver o Chelsea, clube que hoje detesto, mas na altura era o que estava mais perto, e lá ia eu ver os jogos do Chelsea ao sábado para Stamford Bridge. Depois havia outra coisa que era muito diferente de Portugal. Apesar dos problemas que eles tinham, era uma sociedade afluente, de abundância, altamente desenvolvida.

E sentia-se bem ou um bocadinho como o camponês que vai à cidade grande?

Sentia-me muito bem. De alguma forma Londres dava vazão à minha avidez. Em contrapartida, Manchester, onde eu estudava, era uma cidade que estava a passar por uma depressão enorme do ponto de vista industrial. Para chegar à universidade, todas as manhãs eu tinha de atravessar casas em ruínas. Parecia o pós-guerra, embora já tivessem passado 25 anos. Manchester era uma cidade muito depressiva e deprimente. Tão depressiva e deprimente que o Manchester United foi parar à segunda divisão. E eu, mais uma vez, em vez de ver o meu United, tinha de ver o City, que era o que ficava ao pé de casa. Mas sim, esse ambiente era muito extraordinário, porque era de uma grande abertura. Saía de manhã e dizia ‘ninguém me prende, posso fazer discursos contra o Salazar no meio da rua que não há problema’.

O facto de estar por si, sem ter de prestar contas a ninguém, também contribuía para isso?

Por um lado sim, por outro lado foi a minha primeira experiência de solidão. Sobretudo em Manchester.

Sofreu com essa solidão?

Não sofri muito. No bloco de apartamentos de estudantes onde estava, eu só me dava com os indianos e os paquistaneses. Havia um escocês simpático que dizia ‘Bom dia’, ‘Boa tarde’, ‘Tony, precisas de alguma coisa?’ mas passava adiante, à inglesa.

Não dava confiança.

A maior parte deles não dava confiança. Mas não foi uma solidão dolorosa. Era a experiência de viver sozinho – tinha 21, 22 anos – que permitiu abrir muito a cabeça e fazer coisas que se estivesse acompanhado se calhar não faria.

Falou de formas de liberdade que nem imaginava que existissem. A que se referia?

A liberdade sexual, por exemplo, que era uma coisa corrente e comum, e que se praticava em Inglaterra abertamente e sem nenhuma espécie de remorsos nem de culpas. Nós cá, quando transgredíamos um bocadinho, desatavam-se os medos. Ali, o afastamento da família também propiciava essa abertura. Nunca tinha imaginado antes disso que fosse possível ir para a cama com uma data de gente. Uma data de gente que estava ali na boa, nem sequer estavam propriamente a fazer amor – fumavam charros e tal. Isso cá...

Era inimaginável, não?

Havia em pequeninos nichos, mas era muito secreto. Isso para mim foi extremamente importante, foi decisivo mesmo para a minha formação.

E depois não se tornou deprimente regressar à ‘pasmaceira’?

Sim e não. Sim no primeiro embate. Mas isso é compensado por uma série de coisas que no fundo são a nossa cultura. Muito, muito rapidamente aquilo começa a impregnar outra vez. Lembro-me de estar em Manchester e durante dois meses e cinco dias o sol não apareceu. Todos os dias me levantava da cama, ia a correr para a janela e – ‘Ahhhh...’ [desilusão] Voltei para aqui, isto é o país do sol. Nessa altura percebi a importância que o sol tinha para mim. E depois havia os hábitos – havia a comida...

Que em Inglaterra não é famosa.

É o mínimo que se pode dizer – é péssima mesmo, má como tudo. Quando conto isto as pessoas não acreditam. Ao pequeno-almoço lá no bloco de apartamentos para estudantes, eles serviam um ovo estrelado. Mas o ovo era estrelado... em água.

Estrelado em água?!

Deviam pôr um bocadinho de gordura, depois punham água e tal, e aquilo cozia. Vinha como se fosse ovo estrelado mas era cozido... uma coisa horrenda. Mas pronto, reintegrei-me rapidamente e fiquei bem.

A páginas tantas diz aqui no seu livro: «Para qualquer descendente de Gutenberg, a inclinação livresca facilmente descamba no vício destemperado e na dependência». Sofre deste vício? Os livros para si são uma droga?

Ainda não viu? É o pior vício que tenho.

Apesar de tudo, é um vício saudável...

Há vícios piores, claro, mas é o maior vício que eu tenho. Às vezes costumo dizer: eu devia sofrer de bibliofagia. Assim não gastava dinheiro na comida, gastava nos livros e depois comia os livros. Um tipo entra numa livraria e não consegue sair de lá sem um livro. E digo sempre: ‘Ainda bem, não tinha nada para ler’ [risos] para desculpar-me a mim próprio. Depois, se há um assunto novo no qual eu nunca pensei, ou só pensei de passagem, a primeira coisa que faço...

É ver se há um livro sobre o assunto?

Normalmente mais do que um... Pimba, pimba, pimba. Vou à Amazon, vou à Casa del Libro, à ibs.it, de Itália, e mando vir livros. Eu não concebo aprofundar minimamente o conhecimento sobre uma coisa que não venha em livros.

E não tem quem lhe coloque entraves, não é?

Há 25 anos que vivo sozinho, não tenho esses problemas. Nem sequer tenho aquela coisa que a maior parte das pessoas tem que é uma descendência. Nunca tive filhos, nunca tive nenhuma distração, por assim dizer, desta nobre missão de acumular livros.

Acumula ou tem uma ideia de biblioteca que quer cumprir?

Não, não tenho. A minha biblioteca, como tanta coisa na minha vida, foi-se constituindo inorganicamente. O que existe aqui é à medida dos meus interesses. É um bocado como os quadros que estão nestas paredes – eu não os compro pelo valor mercantil que eles têm ou porque é uma aposta de futuro. Num determinado momento gosto de uma coisa e, se posso comprá-la, compro-a. Com os livros é um bocado a mesma coisa.

Não tendo descendentes, não o preocupa o futuro da sua biblioteca?

Preocupa. Aliás já falei com os meus herdeiros, que são os meus três sobrinhos, filhos da minha irmã. Eu gostaria de deixar a minha biblioteca a uma instituição.

Como está?

Como está. E eles estão absolutamente de acordo com isso. Tenho andado a pensar, de vez em quando tenho umas esperanças em relação a certas instituições, mas depois investigo um bocadinho melhor e chego à conclusão de que não me asseguram nada. Apesar de tudo gostava que isto não ficasse em caixotes. Veja o que fizeram em Amarante com o espólio do Pascoaes. A Câmara resolveu comprar o espólio do Pascoaes e até me pediram um parecer. Eu disse que achava muito bem. ‘Mas absolutamente não pode sair da casa do Pascoaes, tem de ficar in situ, tem de ser tratada, trabalhada’... A primeira coisa que fizeram foi estacionar camionetas à porta e meter tudo em caixotes. Continua metido em caixotes, o espólio do Pascoaes, que é uma coisa que me deixa doido. Tenho essa preocupação. E só faz sentido doar a uma instituição fora de Lisboa. Mas para isso é como o Marcelo fez. Eles construíram o edifício... Agora, a quem é que vou propor que construam um edifício para albergar a minha biblioteca? Só ao Marcelo é que passam essas loucuras pela cabeça. E consegue-as! Há tempos pensei numa biblioteca no Algarve, onde passo férias em agosto todos os anos. Comecei a ver... não me convenceu nada. Acho que iam dizer: ‘Que chatice, o que é que a gente agora vai fazer a isto?’. ‘Mete lá em baixo no armazém!’.

Não tem coisas em caixotes mas tem aqueles quadros ali no chão encostados à parede. Estão ali provisoriamente ou é mesmo assim?

É como os livros. Só que nos livros eu consigo pôr outros à frente, em segunda fila, nos quadros não posso fazer isso. Olhe, estão por aí, espalhados pela casa fora, não tenho paredes para mais nada.

E nunca se questionou se não estaria a passar os limites do razoável?

Há muito tempo que ultrapassei os limites do razoável, meu caro. Caramba! Disso eu tenho plena consciência.

Esta bagagem cultural foi importante para um bom desempenho dos cargos que ocupou?

Absolutamente. Não é a mesma coisa. Eu não tinha feito na Expo 98 um décimo do que fiz, do que imaginei, do que pus em andamento, se não fosse aquilo que li, que acumulei, que vi, que experimentei. Isso é absolutamente fundamental.

Alimentou a sua imaginação?

E abriu-me para outras ideias. Há uma coisa muito importante, que é a visão cultural que se tem. É uma forma de olhar para os problemas, uma forma de olhar para a realidade. É perceber porque é que o oceanário tem aquela forma. É uma referência da mitologia hindu, claro. É estar sentado a uma mesa, entrar o Jorge Vieira, o escultor, abrir uma maleta e tirar de lá uma maqueta. ‘Tenho aqui uma estatueta’. Eu vi aquilo e disse: ‘Ohhh. Mas isso vai estar na entrada da exposição e é o Homem-Sol. Vamos tornar isto um mito da exposição’. Lá está aquela coisa gigantesca que foi feita a partir de uma maquete que eu tenho ali que ele me ofereceu. Isto só é possível em quem tem uma certa visão do mundo e das coisas.

Só foi possível porque tinha lá o húmus da cultura para a ideia germinar?

E isso aconteceu muitas vezes durante o processo da Expo. Em conselho de administração, aconteceu termos um problema mais de ordem burocrática ou de engenharia e por três ou quatro vezes eu saí-me com a solução out of the blue. ‘E porque é que não se faz assim?’. Ficavam muito admirados. ‘Se calhar é possível...’. Porque o tipo tem uma cultura, tem uma visão da vida – e curiosidade. As coisas encantam-me. Saber mais é uma coisa que sempre me interessou. Saber, sem nenhum objetivo concreto.

A Expo foi a coisa que mais prazer lhe deu fazer? Ou também lhe deu muita chatice?

Também deu muita chatice, mas as chatices fazem parte. Acho que foi um conjunto de momentos de prazer, não foi só a abertura da exposição, foram batalhas que se foram ganhando, ideias que se foram afinando. Há uma outra coisa que me deu imenso prazer: ser chefe de redação do JL no princípio dos anos 80. Sabe porquê?

Não...

Porque era eu que fazia tudo [risos]. Não era eu que escrevia tudo, mas depois ia para a mesa com os paginadores – ‘tira daqui, mete uma fotografia’ e depois era eu que aprovava os planos. Há uma história genial. Uma noite o chefe dos gráficos chama-me: ‘Mega, podes vir aprovar os planos para ir para a gráfica?’. Entrei, fui direito aos planos, comecei por ver o da capa, e disse: ‘A data está errada’. E estava. É como se cá dentro tivesse alguma coisa a dizer: ‘Atenção, é para ali que tens de olhar’.

Acredita no poder da intuição e de coisas que às vezes não estão racionalizadas?

Claro. A intuição é importantíssima, a intuição, o instinto, todas essas coisas que não são totalmente racionalizáveis. Eu sou de formação racionalista. Mas sempre defendi que a razão deve deixar uma margem para o que não é racional e constitui um impulso.

Às vezes toma decisões por impulso, quando a razão lhe diz que devia fazer o contrário?

Já tomei – mas não lhe vou dizer quais [risos]. Já aconteceu. ‘Não me cheira nada, vamos tentar de outra maneira’. Como diz o Beckett: ‘Try. Fail. Try again. Fail better’. Claro que é preciso manter-se o controlo para se perceber quando a coisa está a derrapar. Não se vai até ao fim estupidamente só porque eu sou o chefe e decidi assim.

Há pouco falava-me da sua casa, que se encontra mesmo aqui no coração de Lisboa. Tem-se dado conta das mudanças em Lisboa ou é como as pessoas que se veem todos os dias ao espelho e não dão pelo envelhecimento?

Dou, dou. Isso é muito sensível. Ainda no outro dia fui à Baixa de carro e estava alucinado. ‘Mas isto aqui era a loja de não sei quê’. Agora é uma coisa de souvenirs. ‘Aqui era não sei que mais’. Agora é um hotel. É uma transformação muitíssimo grande. Sabe, sobre isso tenho uma visão que não é coincidente com a de muita gente.

E ainda bem!

Pois, ainda bem. Que é a seguinte. Perde-se alguma coisa? Perde-se. Perde-se caráter, perde-se alguma identidade, etc., etc. Ganha-se o quê? Ganha-se que finalmente temos uma indústria em Portugal, que é indústria do turismo, pesa 12% do PIB. Ao menos esta não deem cabo dela como deram das outras. Há modificações? Sim. Admito que quem viva no coração da Baixa se sinta mais incomodado. E por isso acho que estas coisas devem ser reguladas, se não torna-se um inferno para as pessoas que lá vivem, e isso não pode ser. Agora, aqui perto há dois hostels, e não me incomodam nada. Estão sempre miúdos cá, às vezes à meia-noite gritam um bocado porque já beberam umas bejecas... não é por aí. Em contrapartida, o prédio aqui em frente, que estava uma ruína, foi reconstruído todo pela raiz – são apartamentos para alojamento local, claro. Mas a verdade é passei a ter um prédio decente na minha frente e dantes tinha uma coisa com ratos, com o teto a ruir, uma coisa abandonada, terrível.

Ao mesmo tempo, tem noção de que se tornou um luxo viver mesmo no coração da cidade, não tem?

Isso é verdade. Mas quando vim há 25 anos ninguém queria vir viver para aqui. [Imita uma voz afetada:] ‘Tão antiquado...’, ‘É muito perigoso’. Na altura da Expo fizeram-me uma entrevista em que me perguntaram: ‘Vem viver para a Expo, não?’ Eu disse: ‘Não, eu gosto de sítios com patine, com tempo’.

Com camadas de história?

Eu gosto de viver em casas onde tenham pessoas vivido, crescido, amado e morrido. Esta casa onde estou tem uma história engraçada. Era a casa da avó do António Costa. Aqui mesmo onde estamos era uma sala e ali havia um quartinho que eu mandei abrir, o quartinho onde o António Costa dormia quando vinha estar com a avó. E aqui na sala estava, creio que desse lado, uma mesa redonda com tampo de vidro onde estudaram e fizeram o seu curso de Direito o Jorge Sampaio e o tio do António Costa. Eu não sabia quando vim para cá.

Foi o António Costa que lhe disse?

Um dia veio cá a casa e perguntou: ‘O que é que você fez ao meu quartinho?’. E eu disse: ‘Transformei na minha sala’. Para que é que eu tinha aqui um quartinho pequenino? Abri a sala, que gosto de espaços amplos.

Falou no António Costa – e não me leve a mal esta pergunta. Ter amizades na política é importante para se conseguir chegar a certos cargos onde se consegue fazer alguma coisa que se veja?

[reflete um pouco] Eu poderia ser hipócrita e dizer: ‘Não, não é preciso!’. Não digo que é preciso... talvez ajude. Mas repare: eu fui nomeado administrador da Parque Expo por uma pessoa que não é um amigo, que é o Professor Cavaco Silva. Num Governo do PSD, que não é o partido com que eu me identifico. E depois sim, passei a presidente já depois de 98, com um Governo de António Guterres e do PS, mas já lá estava desde 93. Depois a nomeação para o CCB. Fui nomeado pelo engenheiro Sócrates, que conhecia, mas de quem nunca fui amigo – porque nunca se proporcionou. A partir de certa altura de notoriedade pública as influências políticas já não servem para nada. Acredito que fui para presidente do CCB porque havia um currículo e o ministro disse que eu era a pessoa indicada. Depois o cargo que tive na Orquestra Metropolitana, esse é estritamente pelo meu currículo na gestão cultural – ok, conheço a Catarina Vaz Pinto, mas não é por aí. Se estivesse um governo de outro partido ter-me-ia nomeado? Se calhar não, tinha pensado numa pessoa mais próxima. Isso é verdade. Mas é preciso fazer um exercício de honestidade intelectual e distinguir o que é uma nomeação por motivos políticos de uma nomeação política por motivos curriculares. Fui sempre nomeado politicamente. Mas a primeira vez foi por um governo que não era da minha cor, por um primeiro-ministro de quem eu não gostava. E sabia-se publicamente, porque eu escrevia, o senhor nomeou-me e eu aceitei a nomeação.

E esse convite não o fez mudar de opinião em relação a Cavaco Silva?

Nunca. A única coisa que disse foi: ‘Chapeau!’. Ele não me nomeou comissário-geral, nomeou comissário-geral um amigo político dele, o engenheiro Cardoso e Cunha. Mas disse ao engenheiro Cardoso e Cunha que tinha que me levar para o conselho de administração. Teve uma atitude nobre e eu acho que respondi sempre com a lealdade que se deve ter quando se exerce determinadas funções em relação a quem está acima. Claro que quando chegava a altura da campanha eleitoral votava em quem me apetecia – e também nunca escondi em quem votava. Mas ele não me deu razões para mudar de opinião...

Estava a olhar à minha volta e a pensar naquele livro do Boécio, que ele escreve na prisão, A Consolação...

... da Filosofia.

Tudo isto – os discos, a pintura, as músicas – são coisas que lhe oferecem consolação?

É isso mesmo. Aliás, no caso da minha história pessoal, essa foi uma consolação fundamental para suportar as agruras das doenças que fui tendo ao longo da vida. Mesmo antes da Expo tive um cancro e depois mais tarde fui operado ao coração e tenho ... não é uma vida de sofrimento, não é isso que estou a dizer, mas tenho uma vida que é complicada. Mesmo esta coisa de praticamente não andar podia não me ter dado agora. Tenho 70 anos, não tenho 80. E de facto essas coisas todas são uma consolação.

E um bom refúgio?

Um bom refúgio por um lado, por outro lado é uma forma de suplantarmos a efemeridade do corpo. O corpo é limitado, é falível, é doentio, e depois há coisas que nos levam – não é sublimar, tomara eu conseguir sublimar as dores – mas a dizer: ‘Há vida para lá do sofrimento físico’. Isso foi muito importante. Quando estive doente, sobretudo o pós-operatório foi um horror, com infeções e mais operações, durante um ano foi uma coisa terrível – e eu vivia praticamente deitado neste sofá, até reuniões da Expo eu fazia aqui. Eles vinham, sentavam-se à volta desta mesa, eu estava aqui deitado e perorava: ‘Faz assim, faz-se assado’. Estava aqui com a Expo a menos de um ano de abrir. Imagine a tensão em que eu estava. E é verdade que os livros e a música – a música tocava de manhã à noite e tinha duas pilhas de livros aí no chão, e cadernos onde escrevia – ajudaram-me a passar pelo calvário que foi esse pós-operatório horrível. A cultura ajuda a sobreviver, ajuda a suplantar as doenças, ajuda a tudo. Quanto mais conhecedor se é e quanto mais coisas andam dentro da nossa cabeça, melhor.