Cultura

A biopolítica e o apocalipse em câmara lenta

Vasco Santos, psicanalista e editor, lê nas entrelinhas do estado de emergência que o coronavírus tem permitido uma oportunista intensificação da biopolítica, para controlar, vigiar e punir.

Não passa um dia em que não sejamos ameaçados com crises e selvajarias. De algum modo, isto está no ar que se respira, naquilo que se lê por toda a parte, desde os jornais aos cartazes publicitários que encontramos nas ruas. Sentimos que se tornou constante o cerco, cujo intuito parece ser o de gerar um estado de alarme, inquietar o espírito e livrar-se da inteligência. Vasco Santos, psicanalista e editor literário, está entre essas poucas vozes que têm procurado minar a campanha à volta da epidemia do novo coronavírus. Em seu entender, esta é, antes do mais, uma epidemia oportunista conduzida pelos média e que nos reenvia à “experiência medieval da praga”. Em declarações ao i, explica como funciona este discurso virtual que se produz a par da realidade, umas vezes sobrepondo-se-lhe, outras deturpando-a, transcrevendo os dados de tal modo que produzam um efeito perturbador. Substituindo a experiência, o efeito de uma comunicação que reduz a linguagem à simples mecânica do lugar-comum é o de lançar no ar uma “poluição moral, procurando-se, ontem como hoje, um objeto contrafóbico oriental alheio às comunidades atingidas”. Assim, o Covid-19 é uma reformulação do bacilo da peste, que não morre nunca, mas apenas desaparece por uns tempos, fica a aguardar pacientemente por uma aberta, para de novo acordar os seus ratos e os mandar morrer numa cidade feliz.

Vasco Santos cita outro psicanalista, Wilhelm Reich, em tempos colaborador de Freud, que traçou um diagnóstico essencial deste tempo dizendo que “existe uma energia orgânica mortal” e que esta se respira na atmosfera. Tornou-se tão familiar a ideia expressa por Karl Kraus em janeiro de 1917, num dos seus aforismos – “O estado em que vivemos é o verdadeiro apocalipse: o apocalipse estável” –, que, hoje, mesmo um fabulista tão popular como Murakami reconhece que “toda a gente alimenta o secreto anseio de que o fim do mundo chegue a tempo de o testemunhar”.

Já no final dos anos 1970, o poeta e ensaísta alemão Hans Magnus Enzensberger notava que o apocalipse era uma noção que tinha vindo a degenerar, sendo arrancado do território do sagrado, como uma visão profética e aterradora, para tornar-se mais um mito profano, desses que são traficados como “afrodisíacos”. Assim, o velho pesadelo, esse no sentido do qual a maçã que caiu da árvore do conhecimento parecia rolar, tornou-se mais outra metáfora para o colapso do capitalismo. E porque é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo, torna-se evidente esse raciocínio que leva Enzensberger a encarar a ideia do fim do mundo como uma “utopia negativa”. Mas esta noção, quando processada no quotidiano, entregue às feras da imprensa e da opinião, é desfeita em pedaços por essa forma de senso comum que se materializa nos clichês, essa corrupção da linguagem que, em última instância, nos torna reféns de uma espécie de paranoia vazia, um abismo de falsificações, um manto de tagarelice que cobre o mundo inteiro e provoca em nós um estado de ansiedade permanente. Essa é a nova condição em que estamos a acompanhar a expansão de um vírus, “afinal, modesto e tímido”, como refere Vasco Santos, mas que “serve para impor a ordem, higienizar o corpo e a cidade e relativizar o contrato social”.

Há muito que os autores que lançaram um olhar impiedoso sobre o regime desta intriga nos dizem que o estado de exceção se torna revelador da normalidade social e acentua os mecanismos que permitem aos aparelhos de Estado “vigiar e punir”. “Se as fissuras que se abrem entre os factos não fossem preenchidas com maços de frases feitas; se a esquizoidia do laboratório não fosse dissimulada pela convicção de fazer o Bem, e um Bem cada vez mais avançado, se o raciocínio devastador não se considerasse a encarnação do Senso Comum, se... – a máquina deixaria de trabalhar, e a grande era da experimentação mergulharia num súbito, pesado silêncio”, escreve Roberto Calasso. E acrescenta: “O burburinho da Opinião Pública ajuda a evitar que tal aconteça. É agora este o insuperável combustível psíquico que impulsiona a vida. Como Kraus observou certa vez: ‘A vida continua. Mais do que é legítimo’”.

Mas estamos num plano em que a vida já não faz o sentido que fazia antes, em que o próprio mundo se nos torna estranho, e quanto mais avançamos menos sabemos. Neste ponto, Vasco Santos recorre ao testemunho de Paulo Varela Gomes que, diante deste problema, propõe que se ponha de parte a biologia: “É evidente que o centro da questão não está nos fatores biológicos da Peste, mas sim nos organismos sociais humanos que a contraem, a espalham (e a protegem?). Seguidamente, é necessário não procurar na infraestrutura das formações económicas e sociais a inserção direta da doença; a Peste é, com efeito, um fenómeno ideológico e político, isto é, pertence ao Estado e aos seus Aparelhos”.

No caso específico do Covid-19, Vasco Santos nota que este tem permitido pôr em prática “uma estratégia higienista, antipsicanalítica pela acentuada diminuição da empatia, pela distância social legitimada”. Esta intensificação da biopolítica leva a que se possa notar a tendência que há hoje para que, como refere o autor e editor italiano Roberto Calasso, nós próprios sejamos “uma entidade administrável, que poderá até permanecer por muito tempo na quietude de um armazém, mas que a qualquer momento pode ser chamada a contribuir para o reequilíbrio do massacre”. O que se diz sobre as medidas extraordinárias que a guerra exige vale também para as epidemias, as reencarnações da Peste. E Vasco Santos vê como o novo coronavírus e as medidas de contenção que este tem exigido acentuam “a ideologia da saúde (por falência da ideia de salvação) e forcluem a morte, esse tabu excelentíssimo de agora”.

“Desinfetamos magicamente as mãos porque somos contra a morte”, acrescenta, antes de nos remeter para o ensaio de Susan Sontag A Doença como Metáfora. É ali que a ensaísta norte-americana nos diz que “a doença é o lado sombrio da vida, uma espécie de cidadania mais onerosa”. “Todas as pessoas vivas têm dupla cidadania, uma no reino da saúde e outra no reino da doença. Embora todos prefiram usar somente o bom passaporte, mais cedo ou mais tarde, cada um de nós será obrigado, pelo menos por um curto período, a identificar-se como um cidadão do outro país”.

Neste momento, estando confusos, atordoados com a informação que nos sacode em rajadas, sucessivos balanços, números de vítimas, de mortos, não sabemos bem o que pensar das medidas de prevenção. Boa parte de nós acolhemo-las, satisfeitos porque alguma coisa está a ser feita, e, assim que as coisas se agravem, será natural que as medidas também se agravem. Seguimos as notícias da pandemia relatada em tom patético e apocalíptico como em tempos nos reuníamos no templo para que o cura nos abalasse diariamente com enormidades e ninharias. Enquanto esta “catástrofe permanente” se apossa de tudo, causando em nós habituação, fica muito claro que o apocalipse, que em tempos tinha algo de venerável, na sua constituição prodigiosa recorrendo a metáforas soberbas, terríficas, está cada vez mais distante de uma ideia do sagrado. Assim, como notava Enzensberger, esta catástrofe tornou-se um “fenómeno inteiramente secularizado”.

“O nosso monstro de sete cabeças responde por uma série de nomes: Estado-polícia, paranoia, burocracia, crise económica, corrida às armas, destruição do meio ambiente”, escreve o ensaísta alemão. “Em tempos, as pessoas viam o apocalipse como um ato da Justiça divina, ao passo que hoje parece um produto metodicamente calculado das nossas ações, e aos espíritos que tomamos como responsáveis pela sua abordagem chamamos comunistas, magnatas do petróleo, terroristas, multinacionais; os gnomos de Zurique e os Frankensteins dos laboratórios de biologia (...) O apocalipse costumava ser um evento singular, que nos acometeria sem aviso como um raio rasgando céus azuis: um momento inimaginável que apenas os visionários e os profetas poderiam antever – e, como é óbvio, ninguém quereria ouvir os seus avisos e previsões. O nosso fim do mundo, por sua vez, é cantado nos telhados até pelos pardais; falta-lhe o elemento surpresa; parece ser apenas uma questão de tempo. A desgraça que esperamos que se abata sobre nós é insidiosa e torturante de tão vagarosa na sua abordagem – é o apocalipse em câmara lenta”.