Sociedade

“Os resultados com ventiladores são maus. Precisamos de alternativas”

Roberto Roncon, médico intensivista coordena a unidade do São João que recebeu mais casos graves de covid-19, acredita que a organização e as equipas foram fundamentais para os resultados que alcançaram e alerta que os ventiladores não se têm revelado muito eficazes – e só por si não garantem sucesso numa segunda vaga. Pede uma mudança na política de recursos humanos no SNS, que considera insustentável. 

(…)

Em que é que esta doença é mais diferente?

Não tendo um tratamento específico, temos de fazer terapêutica de suporte. Mas isso mesmo nas formas mais graves de gripe acontece. É uma doença que se aproveita da fragilidade do hospedeiro. É um vírus cobarde, ataca mais quem tem menos probabilidade de sobrevivência. A gripe também ataca muito mas tem uma maior incidência de formas graves nos indivíduos mais novos. Depois é uma doença que se aproveita da fragilidade do hospedeiro em termos de infeção. Diminui a imunidade, induz uma linfocemia, que é uma baixa de linfócitos no sangue, e uma percentagem significativa destes doentes acaba por ter sobre-infecções bacterianas, hospitalares. Este lado faz prolongar muito os internamentos. E depois há um aspeto de que já se começa a falar e que para nós era muito evidente que são os ventiladores: estamos pouco convencidos de que no futuro a ventilação mecânica invasiva seja uma grande opção para a covid-19. Com ventilação invasiva os resultados são maus. Se conseguirmos evitar a ventilação invasiva, quem sabe com ECMO (sistema de oxigenação por membrana extracorporal, que funciona como um pulmão artificial) e tivemos alguns doentes que fizeram ECMO sem serem ventilados, pode ser uma melhor estratégia.

 

Os resultados são maus porquê?

A ventilação invasiva provoca dano no pulmão. Uma pessoa tem má oxigenação do sangue. Para salvar o doente, colocamos o ventilador. O problema é que a própria ventilação invasiva vai agravar a lesão pulmonar e levar a sobre-infeçcões. Claro que se existir uma vacina e a covid-19 deixar de existir, isto tem menos relevância. Mas se continuar a ter expressão, vamos ter de encontrar melhores alternativas ao ventilador.

 

Teremos de trocar os ventiladores comprados por ECMO?

Não temos muitos ECMOs. Aumentámos a nossa capacidade, adquiriu-se algum equipamento e temos vagas para 14 doentes ao mesmo tempo e aí estivemos no máximo de capacidade. Numa onda maior seria complicado, mas estivemos muito bem. O único país que se compara melhor que nós é a Alemanha. Tem uma taxa de camas de cuidados intensivos impressionante, cinco ou seis vezes mais camas do que nós.

 

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