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One man show na alta política

Foi por António Costa bem saber disso, que Mário Centeno, o CR7 do Eurogrupo e das contas equilibradas, ficou a mais no Governo (não de repente mas a partir do momento em que a execução orçamental logrou o superavit), e que Pedro Siza Vieira e o Ministério da Economia foram promovidos ao patamar mais alto da orgânica do Executivo após as eleições de outubro.

Há um mês, para incredulidade de todos, António Costa e Mário Centeno garantiam que, não obstante a pandemia ter um impacto na economia como não há memória, não haveria austeridade. Disseram-no e repetiram-no, várias vezes.

Perante tamanha convicção de ambos – e a expressão serena que mantinham quando o afirmavam – escrevi nesta página (edição de 9 de maio) que tinham de saber que ‘vai haver dinheiro para injetar na economia de Portugal e da Europa’ e que até podiam ‘não saber de onde virá ou como virá’ mas sabiam ‘com certeza que virá’.

Não há ‘milagres’ perante uma crise que o próprio primeiro-ministro esta semana, e finalmente, reconheceu como tendo consequências «brutais».

Não vai haver austeridade?

Mas não há austeridade?

Como não há austeridade?

A verdade é que nunca deixou de haver austeridade!

Mário Centeno teve a habilidade de manter a ‘austeridade’ vestindo-a com outra roupagem e retirando-lhe a carga negativa com um discurso de propaganda que o BE, o PCP e as centrais sindicais ajudaram a fazer ecoar.

A receita foi lógica: criar a ilusão da devolução de rendimentos, reduzindo os impostos diretos (nomeadamente IRS) e aumentando exponencialmente os indiretos – de tal forma que a carga fiscal atingiu níveis nunca vistos.

Esse foi o ‘milagre’.

O que Mário Centeno fez, na verdade e bem, foi manter a linha de austeridade da troika, por forma a aproveitar a conjuntura internacional favorável para antecipar o pagamento de dívida contraída a juros demasiado altos e substitui-la por outra a juros baixos, com a credibilidade conquistada nos mercados internacionais por via do acerto das contas e o cumprimento dos compromissos assumidos.

No objetivo final, esteve irrepreensível.

Ainda que deva questionar-se se o sucesso orçamental não poderia ter sido acompanhado de políticas de crescimento económico – que, com Centeno e Caldeira Cabral, foram totalmente inexistentes.

Foi por António Costa bem saber disso, que Mário Centeno, o CR7 do Eurogrupo e das contas equilibradas, ficou a mais no Governo (não de repente mas a partir do momento em que a execução orçamental logrou o superavit), e que Pedro Siza Vieira e o Ministério da Economia foram promovidos ao patamar mais alto da orgânica do Executivo após as eleições de outubro.

Recorde-se, aliás, o episódio do café do Pragal, que seria apenas mais um daqueles fait divers tão comuns na política portuguesa se não fosse tão esclarecedor e ilustrativo da forma de ser e de atuar do político que, não tendo sido nunca soarista ou seguidor do fundador do PS, mais se assemelha a Mário Soares.

Quando foi ao café do Pragal depois da sua primeira vitória nas legislativas, cumprindo a primeira promessa eleitoral deste segundo mandato como primeiro-ministro, Costa deixou sem resposta a eleitora que lhe pedia para manter até ao fim o ministro das Finanças. Ficou a senhora esclarecida e todos os que ainda tinham algumas dúvidas: Costa já não contava, porque já não precisava, de Mário Centeno.

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