Politica

"Ricardo Salgado não é nenhum gangster"

José Miguel Júdice defende um Governo de bloco central e considera que os ataques de Costa ao PSD são ‘um erro histórico’.

(...)

Saiu recentemente a acusação do BES. Como é que vê este caso?

O Ricardo Salgado era considerado e com razão um grande banqueiro. No entanto, ele, ao contrário do que se pensava, não tinha muito poder. Ele era apenas a expressão de uma família com centenas de acionistas, digamos assim, cada um com os seus pontos de vista e os seus interesses. Ele tinha de gerir a sua base de apoio e tinha também de gerir o banco. Por outro lado, quando o Banco Espírito Santos foi nacionalizado, em 1975, e quando foi possível à família recuperar o banco ela pagou mais do que aquilo que o banco valia, mas ninguém lhe tinha pago na nacionalização aquilo que o banco valia. Foi comprado com enorme endividamento e quando as coisas se compram com enorme endividamento a margem de sobrevivência é muito limitada. Tudo indica, que a partir de 2008 ou 2009, a tentativa de resolver todos estes problemas com todas as condicionantes impostas pela crise terão levado a que se fizessem certo tipo de procedimentos que, possivelmente, são práticas criminosas. Conheço o Ricardo Salgado. O Ricardo Salgado não era um gangster. Cometeu erros, pode até ter cometido crimes, mas não vale a pena dizermos que o Ricardo Salgado é um malandro sem pensar em mais nada. Não estou a desculpar o Ricardo Salgado. Se cometeu crimes deve ser julgado e punido exemplarmente porque é uma pessoa responsável. Mas facilita muito simplificar e dizer: ‘A culpa é daquele senhor”. 

É redutor?

Não acredito que, se de facto o Ricardo Salgado cometeu aqueles crimes todos, tivessem sido três ou quatro pessoas fechadas num gabinete às escuras a fazer aquilo tudo sem que mais ninguém soubesse. O que lhe estou a dizer é a coisa mais politicamente incorreta que se pode dizer hoje em dia, mas já me conhece e sabe que gosto de dizer coisas politicamente incorretas. Gosto de ser atacado nas páginas de comentários. Não estou a dizer que ele não cometeu crimes, estou apenas a dizer que é muito simplista dizer: ‘era uma vez o Ricardo Salgado, que era um gangster, um criminoso, que conseguiu pôr obras muito subtis e por ser mais inteligente do que toda a gente, fazer um conjunto de coisas que são crimes. Se não houvesse o Ricardo Salgado nada disto tinha acontecido’. As coisas não são, infelizmente, tão simples, como às vezes a nossa tranquilidade nos pede para serem. 

Leia a entrevista na íntegra na edição impressa do SOL. Agora também pode receber o jornal em casa ou subscrever a nossa assinatura digital.