Politica

Costa está para durar, mas há frenesim no PS

Pedro Nuno Santos e Fernando Medina terão ambições, mas só o ministro tem tropas entre os socialistas. Mas Ana Catarina Mendes ganhou peso no PS e já é uma ‘3.ª via’ para o pós-costismo.

«Não vejo nenhuma razão para a sucessão no PS começar a ser debatida em 2022». A frase do primeiro-ministro, António Costa, numa entrevista ao Jornal de Notícias foi proferida na fase pré-pandemia. Mas não deixa de estar atual. A discussão da sua sucessão será manifestamente exagerada. Talvez, por isso, Carlos César, presidente do PS, tenha tentado arrumar o assunto há uma semana. ‘Esperem sentados’, foi a mensagem que quis passar a potenciais interessados numa entrevista ao Público e à RR. Mas, de facto, as últimas três semanas foram pródigas em declarações e reações que alimentam um debate interno sobre protocandidatos, ou eventuais interessados numa hipotética sucessão de Costa.

A discussão interna rebentou com as declarações de Fernando Medina, presidente da Câmara de Lisboa, numa entrevista à TVI24 quando criticou a situação de combate à pandemia da covid-19 na região de Lisboa e Vale do Tejo. O autarca de Lisboa apontou o dedo às «más chefias» ou à falta de exército. Estas declarações deram azo a múltiplas interpretações. Primeiro, a crítica seria dirigida a Marta Temido, ministra da Saúde. Esta foi a primeira análise. Contudo, no PS, houve quem encarasse a crítica como um ataque a Duarte Cordeiro, secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares e coordenador do Governo (com autarquias e várias entidades) para a região de Lisboa e Vale do Tejo. A ser verdade, a crítica tinha várias dimensões, a da gestão do problema, mas também o facto de Cordeiro ser um dos elementos mais destacados (e próximos) de Pedro Nuno Santos, o ministro das Infraestruturas. Que assumiu há dois anos a sua ambição de vir a concorrer um dia à liderança do PS com um projeto claramente alinhado à esquerda.

Esta semana, Duarte Cordeiro deu uma entrevista à Lusa a realçar o contributo de Medina através do seu comentário sobre a situação em Lisboa, recordando que o autarca também presidente da Área Metropolitana de Lisboa. E afiançou que o próprio lhe ligou a garantir que as críticas não o visavam. Medina também já tinha esclarecido que as suas declarações não tinham como alvo a ministra da Saúde. Afinal eram para as autoridades de Saúde. Caso arrumado.

Porém, quando se fala na hipótese de uma eventual sucessão de Costa, Medina é um dos nomes apontados. Há quem tenha visto estas declarações como uma forma de autonomia face ao Governo. De facto, desde que Medina foi escolhido em 2013 para ser o número dois de António Costa nas autárquicas para a câmara de Lisboa, rapidamente se encarou o delfim do atual primeiro-ministro com um papel de destaque no futuro do PS.

Medina, recorde-se, faz parte da chamada geração de 70 do partido, tal como Pedro Nuno Santos e Ana Catarina Mendes (líder parlamentar) , todos nomes com influência no PS e a ter em conta numa eventual saída de cena de Costa... no futuro.

No caso de Medina, há, contudo, um problema caso sonhe chegar, um dia, à liderança do PS . Não tem tropas, falta-lhe aparelho. «São 10 a zero» a favor de Pedro Nuno Santos, conforme confidencia ao SOL uma fonte parlamentar. Que vaticina: «Se quiser, Costa pode ir a um novo mandato e a discussão de poder pode ser feita , não em 2023, mas em 2025 ou 2026». Ou seja, a tese do presidente do PS, Carlos César, de o primeiro-ministro pode ficar e tentar um novo mandato em 2023, tem muitos adeptos. Existem, contudo, incertezas no horizonte e o Governo enfrenta uma pandemia da covid-19, cuja dimensão coloca o Executivo sob stress.

Assim, há dois momentos a avaliar. Até meados de maio, o processo foi elogiado dentro e fora do país. Agora, o Governo luta pela imagem do País a nível internacional, com o aumento de casos , sobretudo na Grande Lisboa. Por isso, o desgaste será natural, sobretudo com a necessidade de acudir à crise económica e social. Que se antecipa como a maior de que há memória recente.

Entre os militantes do norte do país, há um sentimento de que é muito prematuro está a falar de sucessões internas e que tudo não passa de especulação. Mas uma fonte socialista frisa ao SOL que Pedro Nuno Santos tem todas as condições para vir a ser líder do partido no futuro: «Tem empatia com os militantes, tem coração e tem coragem». O próprio foi confrontado com a hipótese de um dia vir a liderar o PS ou ser primeiro-ministro numa entrevista à Visão. E respondeu de forma clara: «A questão, neste momento, não se coloca». Ficou o registo do ‘«neste momento’.

Na referida entrevista, Pedro Nuno Santos abordou a sua relação com o primeiro-ministro, assegurando que funciona bem. «Eu e o primeiro-ministro falamos bem e trabalhamos bem um com o outro. Eu, como ministro, estou sempre disponível para o ajudar nas tarefas da governação. E ele está sempre disponível para desbloquear algumas matérias dos meus dossiês. Até agora, não existe um único exemplo em que ele me tenha falhado ou eu a ele. O primeiro-ministro sabe que sou como sou desde que me conhece». Apesar da relação governamental funcionar bem, o distanciamento entre os dois foi ganhando espaço desde o congresso de maio de 2018, quando Pedro Nuno Santos assumiu as suas ambições ao ponto de Costa ter sentido necessidade de dizer que não tinha colocado os ‘papéis para a reforma’. O processo não foi imediato, mas, hoje, Pedro Nuno Santos não faz parte do núcleo mais restrito de Costa. Já fez, sobretudo quando os acordos à esquerda foram construídos e aplicados ao longo da anterior legislatura. Pedro Nuno, como é conhecido entre as estruturas distritais e dirigentes locais, foi mesmo um player decisivo neste dossiê.

Perante esta discussão sobre hipotéticos candidatos à liderança do PS (e depois do comentador televisivo Marques Mendes ter considerado que a guerra da sucessão interna do PS já começou), Duarte Cordeiro avisou que Pedro Nuno Santos não tem pressa em chegar à liderança do partido.

«Não sei de onde surgem essas afirmações, não será de certeza nem do próprio, nem de ninguém do PS. O PS tem um líder, chama-se António Costa. Não me parece que a liderança do PS seja neste momento posta em causa por algum socialista», avisou na mesma entrevista à Lusa, insistindo que essa ideia de tiro de partida para a corrida interna é uma especulação que surgiu fora do partido para perturbar o PS.

 

Marcelo obriga a descolagem

Mas, de facto, qualquer declaração que Pedro Nuno Santos faça a discordar de António Costa é lida como uma descolagem do primeiro-ministro. Numa entrevista à RTP, há duas semanas, o ministro avisou que não votaria em Marcelo Rebelo de Sousa para as presidenciais, porque é um candidato de direita. E acrescentou que, se o PS não tiver um candidato oficial, então, votará num candidato apoiado pelo BE ou pelo PCP. Um militante que já teve responsabilidades no partido frisa ao SOL que esta posição de Pedro Nuno Santos vem na linha daquilo que sempre tem defendido. E «90 por cento dos militantes» pensa como o ministro, assegura a mesma fonte. O governante não se atravessou por nenhum nome concreto no PS nessa entrevista, nem na entrevista à Visão. Ou seja, não deu apoio público a Ana Gomes, a única militante do PS, que foi apontada como potencial candidata presidencial. A posição de Pedro Nuno Santos surgiu depois de ter ficado claro que o PS pode não ter candidato oficial e de Costa ter feito uma declaração ( na Autoeuropa) que permitiu fazer leituras de que estaria a lançar a recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa. Um facto que gerou ondas de choque tanto no PS como no PSD.

Ora, aqui, Pedro Nuno Santos também descolou de Fernando Medina. O autarca de Lisboa admitiu votar em Marcelo numa entrevista ao programa de Ricardo Araújo Pereira, na SIC. «Já o disse e volto a repetir que seria um candidato a quem daria o meu apoio, apesar de ainda não haver qualquer decisão ou posição por parte do PS», declarou Medina, que se juntou a Ferro Rodrigues ( e mesmo Carlos, presidente do PS, não tem descartado tal hipótese).

Duarte Cordeiro, por exemplo, preferiu responder que optará «pelo candidato com que tiver maior afinidade política».

Entre descolagens, alinhamentos ou autonomia face a António Costa, há um nome que é preciso ter em conta no futuro, apesar de ter um perfil discreto: a líder parlamentar do PS, Ana Catarina Mendes.

Ao contrário de Medina, a deputada tem bastante influência nas estruturas do PS e tal como Pedro Nuno Santos , passou pela direção da JS ( mesmo que tenha perdido por um voto a liderança para Jamila Madeira na década de 90). Tendo um perfil discreto (e não lhe sendo conhecidas ambições de liderança do partido) é uma figura em que alguns setores do PS apostariam. «Será sempre uma reserva» disse ao SOL um deputado socialista.

Tanto nas eleições europeias como nas legislativas, Ana Catarina Mendes teve peso político para influenciar escolhas nas equipas, tendo, aliás, protagonizado um diferendo com Pedro Nuno Santos por causa da lista de candidatos a deputados em Braga. Na altura era secretária-geral-adjunta. Ganhou Ana Catarina Mendes e ficaram alguns amargos de boca para Joaquim Barreto, líder da Federação de Braga, que hoje volta a tentar novo mandato contra o seu opositor Ricardo Costa.

Em onze federações há candidaturas únicas, contra oito onde há duas candidaturas. Se avaliarmos as sensibilidades em jogo, percebe-se que nas maiores federações Pedro Nuno Santos terá vantagem em potenciais alinhamentos futuros.

E quando se farão essas contas? Depois se verá.