Economia

Economistas levantam véu sobre o que esperar do OE

Os economistas contactados pelo SOL afastam um cenário de crise política, mas garantem que será um desafio grande em termos orçamentais face à incerteza que é vivida devido à pandemia. Se há quem diga que o Orçamento do Estado possa ser ‘uma obra de ficção’, há outros que acreditam que vai haver a tentação de continuar a aumentar impostos e congelar salários. O tiro de partida já foi dado pelos economistas, agora é esperar pelas negociações com os partidos de esquerda.

João César das Neves
"O próximo Orçamento vai ser uma obra de ficção"

Para João César das Neves não há dúvidas: «O próximo Orçamento do Estado vai ser uma obra de ficção». No entanto, o economista garante que «isso não é uma crítica, mas uma constatação» porque considera que ninguém sabe como vai ‘andar’ a economia e ainda menos qual vai ser o cenário das contas públicas. «A tarefa de fazer um Orçamento nestas condições é uma missão impossível, mas tem de ser cumprida. Por isso, o Governo vai ter de arriscar umas previsões, umas metas e umas políticas, com a certeza de que teremos uma ou mais revisões quando a realidade bater».

Mas, apesar das incertezas, César das Neves afasta um possível cenário de crise política – entre Governo e partidos de esquerda – ao garantir que ‘a ameaça’ de António Costa representa «uma jogada política». E vai mais longe: «Não há nada no país e na economia que justifique uma coisa dessas. Por isso, se existir uma rutura, também será por jogada política».

O que esperar do documento? César das Neves lembra que o Governo de António Costa tinha desde o início um propósito económico de fundo: equilibrar as contas públicas. E para alcançar esse objetivo, o economista entende que o Executivo «sacrificou tudo – crescimento forte, redistribuição de rendimento, reformas estruturais, etc.) – a essa grande finalidade, que agora jaz em estilhas no chão».

E acredita que Portugal vai ter o «maior défice da democracia» este ano e provavelmente no próximo, depois de ter tido o menor, e face a esse cenário «não pode manter o antigo objetivo de equilíbrio orçamental no horizonte previsível. Não sabemos como é que o Governo vai reagir, nem fazemos sequer ideia que objetivo novo vai arranjar».

Quanto a metas previstas no Orçamento, César das Neves defende que tudo pode acontecer. «Em princípio, para o ano, dá-se a retoma da queda épica deste ano, mas certamente ficaremos abaixo de 2019 e já parece evidente que a crise deixará cicatrizes fundas».

Quanto à taxa de desemprego, o economista acredita que desça em 2021, no entanto, lembra que «depende muito do seu comportamento neste final de 2020 e das políticas de suporte que forem implementadas».

Em relação à fórmula que tem sido usada pelo Governo em orçamentos anteriores e que tem passado por sobrecarregar os impostos indiretos, César das Neves garante que «não parece sequer possível falar disso nestas circunstâncias».

Quanto ao facto de ser o primeiro documento apresentado pelo novo ministro das Finanças, o economista lembra que João Leão foi escolhido «para ser quem suportava os custos dos truques usados pelo anterior ministro para criar a ilusão de controle das contas públicas». E não hesita: «As coisas iam começar a correr mal bem cedo. Afinal, começa com um golpe de sorte política: a derrapagem das contas, que era inevitável, vai ser atribuída à pandemia e não aos erros estratégicos da legislatura anterior».

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