Politica

Marcelo e a luta pelo segundo lugar

Marcelo Rebelo de Sousa já afastou o sonho de ser o Presidente mais popular de sempre. E se a sua vitória é certa, a disputa nesta eleição não é só por chegar a Belém. Com ou sem segunda volta, Ana Gomes e André Ventura disputam o segundo lugar. Ao todo são oito candidatos, mas só depois do Natal se saberá quantos conseguiram as assinaturas necessárias. 


 

Marcelo Rebelo de Sousa, 72 anos 

‘Não sou louco. Mário Soares é irrepetível. Ninguém tem o passado dele’

Presidente da República e recandidato

Marcelo Rebelo de Sousa aposta numa campanha eleitoral curta e o mais simples possível. O atual Presidente da República não é adepto de campanhas com muitos gastos e a pandemia ajudou a justificar que tenha entrado tarde na corrida presidencial. A popularidade que acumulou nos últimos cinco anos continua a dar-lhe uma vitória confortável à primeira volta. O sonho de ser o Presidente mais popular de sempre e bater os 70% de Mário Soares em 1991 é que ficou pelo caminho. «Mário Soares é irrepetível», disse, na primeira entrevista que deu, à SIC, depois de anunciar a recandidatura. Marcelo volta a contar com o apoio do PSD e do CDS, apesar de alguns centristas criticarem o apoio que deu à geringonça no primeiro mandato. A novidade é o apoio de alguns socialistas que há cinco anos se dividiram entre as candidaturas de Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém. Pela primeira vez, um Presidente da República da área da direita conta com o apoio de destacados socialistas como Ferro Rodrigues, João Soares ou Fernando Medina. Os socialistas que não o apoiam alertam, porém, que no segundo mandato pode existir a tentação de se reaproximar da sua área política. Marcelo garantiu que vai ser «exatamente o mesmo» e justificou a recandidatura com a necessidade de enfrentar a pandemia e «vencer» a crise económica. Certo é que os próximos anos não serão fáceis, com a ameaça de uma crise social e política. 

Ana Gomes, 56 anos

‘Uma das atitudes que tomarei será dirigir uma mensagem à procuradora-geral da República, que tem, obviamente, uma delegação junto do Tribunal Constitucional, pedindo uma reapreciação da legalidade do Chega’

Ex-eurodeputada e militante do PS

Ana Gomes decidiu candidatar-se à Presidência da República depois de ouvir António Costa, na Autoeuropa, desafiar Marcelo Rebelo de Sousa a recandidatar-se. A militante socialista não conta com o apoio do PS, que é o único partido que não apoia nenhum candidato, mas conseguiu unir alguns socialistas à volta da sua candidatura. Manuel Alegre, João Cravinho, Vera Jardim ou Pedro Nuno Santos estão ao seu lado. Tem, porém, alguns amigos socialistas, como o presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, que preferem apoiar a recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa. É a única candidata que não conta com o apoio do partido a que pertence, mas tem ao seu lado o PAN e o Livre. O principal objetivo é passar à segunda volta mas, se não o conseguir, a candidatura de Ana Gomes quer ficar à frente do candidato do Chega. A campanha tem sido marcada pela troca de acusações entre os dois candidatos e Ana Gomes assumiu esta semana, numa entrevista à TVI, que uma das suas primeiras medidas se for eleita será pedir «uma reapreciação da legalidade do Chega». Ao contrário de Marcelo Rebelo de Sousa, a militante socialista não daria posse a um Governo com o apoio do partido liderado por André Ventura. 

 

André Ventura, 37 anos

‘Nunca houve uma candidatura como esta no sistema político’

Presidente e deputado do Chega

André Ventura foi o primeiro candidato a avançar e garante que está nesta corrida para disputar a segunda volta com Marcelo Rebelo de Sousa. Ficar à frente de Ana Gomes é um dos objetivos e já garantiu várias vezes que apresentará a demissão da liderança do Chega se isso não acontecer. Ventura formalizou esta sexta-feira a candidatura com a entrega de dez mil assinaturas no Tribunal Constitucional. «Nunca houve uma candidatura como esta no sistema político», garantiu, num vídeo em que anunciou já ter reunido as assinaturas necessárias para se candidatar à Presidência da República. A pré-campanha do líder do Chega tem sido marcada pelos ataques à candidatura de Ana Gomes. «Estas eleições presidenciais tornaram -se, ao mesmo tempo, uma luta pela democracia e pela sobrevivência do Chega. Uma luta por evitar que uma nova mordaça caia sobre o povo português», escreveu, esta semana, nas redes sociais, depois de Ana Gomes ter anunciado que pedirá a reapreciação da legalidade do Chega se for eleita. Depois de entregar as assinaturas no Constitucional, o candidato apoiado pelo Chega reafirmou que está na corrida presidencial para «enfrentar o sistema» e «enfrentar o regime». Ventura está convencido de que vai «ficar em segundo lugar para uma segunda volta e que pela primeira vez se verá a força dos portugueses, que estão cansados com este regime». 

 

Marisa Matias, 44 anos 

‘Eu não daria posse a um Governo apoiado pelo Chega’

Eurodeputada do BE

Marisa Matias volta a candidatar-se depois de ter conseguido mais de 10% há cinco anos. Ficou, nessa altura, à frente de Maria de Belém, que contou com o apoio de alguns socialistas, e de Edgar Silva, candidato apoiado pelo PCP. A eurodeputada do Bloco de Esquerda, que lançou a candidatura na primeira semana de setembro, garantiu que vai fazer uma «campanha contra o medo». O objetivo é ter mais votos do que em 2016. «Um resultado bom seria ter um melhor resultado do que tive nas eleições anteriores», disse, recentemente, em entrevista à agência Lusa. Durante a pré-campanha, a candidata bloquista tem apontado baterias à atuação de Marcelo Rebelo de Sousa. Criticou-o por não travar «um Governo dependente do Chega» nos Açores. Mais recentemente, Marisa lamentou que Marcelo não tenha contactado a família do cidadão ucraniano morto à guarda do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). «Foi um erro muito grande». André Ventura tem sido outro dos alvos da eurodeputada do Bloco de Esquerda. Marisa Matias assumiu esta semana que, se for eleita, não dará posse a um Governo apoiado pelo Chega. A candidata bloquista, que formalizou a candidatura esta sexta-feira com a entrega de mais de 12 mil assinaturas no Tribunal Constitucional, garante que vai levar a candidatura até ao fim. 

 

João Ferreira, 42 anos

‘Na hora do aperto foi e é com o Serviço Nacional de Saúde que nós podemos contar’

Eurodeputado do PCP e vereador na Câmara de Lisboa

O PCP apostou em João Ferreira nestas eleições presidenciais. O dirigente comunista já tinha dado a cara nas autárquicas, com a candidatura à Câmara de Lisboa, e nas europeias, e foi uma das figuras mais aplaudidas no congresso do partido. É um dos nomes mais falados para ocupar o cargo de secretário-geral quando Jerónimo de Sousa se despedir. Jerónimo de Sousa já garantiu que «a candidatura é para ir até ao fim», mas prefere não traçar nenhuma meta eleitoral. Nas últimas eleições, Edgar Silva, apoiado pelo PCP, conseguiu apenas 3,95%, o que corresponde a 183 mil votos. Ocandidato do PCP ficou em quinto lugar, a uma grande distância do Bloco de Esquerda e apenas a cerca de 50 mil votos de Vitorino Silva (conhecido como Tino de Rans). João Ferreira, que lançou a candidatura em setembro, esclareceu logo no início que não iria traçar nenhuma meta. «Não sou candidato a percentagens eleitorais». O eurodeputado garante que a sua candidatura é «indispensável e insubstituível» porque se baterá pela «valorização do trabalho, pelo aumento dos salários, pelo combate à precariedade» e pela «concretização dos direitos consagrados na Constituição». A aposta no SNS tem sido outra das bandeiras do candidato. «Na hora do aperto foi e é com o Serviço Nacional de Saúde que nós podemos contar», diz. 

 

Mayan Gonçalves, 43 anos

‘Nunca precisei do cartão do partido para ter emprego’

Advogado e fundador da Iniciativa Liberal

Tiago Mayan Gonçalves entra na corrida presidencial para passar a mensagem dos liberais. O advogado do Porto e fundador da Iniciativa Liberal tem feito duras críticas a Marcelo Rebelo de Sousa e quer conquistar aqueles que «não se reveem num Presidente que abdicou de o ser». Uma das principais críticas que faz ao atual Presidente da República e recandidato é a excessiva aproximação ao Governo. «Fez um pacto de colaboração com o Governo» porque «tem o sonho de ser o Presidente mais adorado e mais votado», disse, numa entrevista a este semanário. Já acusou várias vezes o atual Presidente e recandidato de ter agido como o «ministro da propaganda». Desconhecido da maior parte do eleitorado, o candidato liberal lançou a candidatura há seis meses com o objetivo de ocupar um espaço que estava por preencher. «Um espaço político que congrega liberais, mas também pessoas que não se reveem neste Presidente». Prefere, no entanto, não traçar nenhuma meta eleitoral com o argumento de que o objetivo da candidatura «é conseguir transmitir o que é que um Presidente liberal representa para os portugueses». Garante que é o único candidato fora do sistema e gaba-se de nunca ter precisado do cartão do partido para ter emprego. A Iniciativa Liberal estreou-se nas eleições legislativas, em outro de 2019, e conseguiu eleger um deputado com 1,29%, o que corresponde a mais de 67 mil votos. 

 

Paulo Alves, 51 anos 

Joaquim Paulo Pinto Alves anunciou a candidatura em novembro por estar «desiludido» com o atual Presidente da República. O empresário e candidato à Câmara de Felgueiras em 2017, pelo partido Juntos Pelo Povo, garante que vai bater-se pela regionalização durante a campanha. 

 

Vitorino Silva, 49 anos 

Vitorino Silva, conhecido como Tino de Rans, volta a candidatar-se. Em 2016, o antigo presidente da Junta de Freguesia de Rans conseguiu 3,28%, o que corresponde a mais de 152 mil votos. Vitorino Silva diz que entra na corrida para «combater os populismos e a abstenção».