Politica

Pedro Santana Lopes: "Não podemos negar quem somos e eu adoro o combate"

Santana Lopes diz que a Aliança, com ele, ‘falhou’, mas garante que a sua vida política não acabou. Admite candidatar-se a uma câmara se lhe derem tempo para pensar e não fecha a porta a um eventual regresso ao PSD. ‘Tenho recebido mensagens que me sensibilizam’.

 

Já decidiu em quem vai votar nas eleições presidenciais?

Tomei a decisão há poucos dias e vou votar em Marcelo Rebelo de Sousa. Ficou claro nos debates que é um candidato à parte. Marcelo tem grandes qualidades e prestou grandes serviços ao país como Presidente da República. Isso não significa que concorde com todas as suas opções e até tenho uma questão que me coloca algumas reservas.

O quê?

Entendo que o Presidente da República não deve dizer que não quer pôr as suas convicções pessoais à frente das responsabilidades do seu cargo, nomeadamente em matérias fraturantes. Não estou de acordo e espero que no segundo mandato o atual Presidente atue de um modo diferente. Não tenho a certeza de que seja este seu pensamento permanente. Li declarações dele a dizer isto e não estou de acordo. O sistema que nós temos, ao dar o direito de veto ao Presidente da República, dá-lhe também o direito de decidir segundo as suas convicções. Mas Portugal precisa de um Presidente com as qualidades que manifestamente Marcelo Rebelo de Sousa tem. É muito importante que Marcelo ganhe confortavelmente à primeira volta.

Quando fala na importância das convicções está a pensar na questão da eutanásia?

É um bom exemplo. Eu posso ser a favor ou contra. Se estivesse na Assembleia da República teria votado contra as propostas que existiram, apesar das dúvidas que todos temos. Mas há várias matérias, como o direito à vida ou  questões ligadas ao ensino, em que se espera que um Presidente de centro-direita não atue como atuaria um Presidente de esquerda, nomeadamente em matérias como essa que referiu.

Gostava de ver Marcelo Rebelo de Sousa mais ativo, no segundo mandato, a defender os valores da direita?

Prefiro, agora que decidi votar nele, falar nas suas qualidades. Disse, no congresso do Aliança, que a minha decisão sobre as presidenciais dependia do que o Presidente ainda fizesse, nomeadamente em relação ao Governo e em matérias importantes como a questão da Justiça e do crescimento económico. Entendo que um chefe de Estado não pode estar satisfeito por ser Presidente  de um país em que as pessoas são detidas, ouvidas, e depois estão anos e anos sem nada acontecer. Os processos demoram anos e anos. Até estranhei quando ouvi Marcelo Rebelo de Sousa dizer que estava satisfeito porque alguns processos andaram. Andaram mas demoram anos a fio. Mas, para mim, a principal qualidade de Marcelo é o seu relacionamento humano com os portugueses.

Os afetos são importantes no momento que estamos a viver?

Ele, nesse aspeto, tem feito um trabalho extraordinário que não deve ser menosprezado. Numa altura como esta a sua sensibilidade social e a sua ligação aos portugueses são aspetos essenciais. Ninguém concorda em tudo, tenho essas reservas, mas Marcelo Rebelo de Sousa é um estadista.

Nenhum dos outros candidatos lhe merece simpatia?

Confesso que o candidato da Iniciativa Liberal, Tiago Mayan Gonçalves, me surpreendeu muito positivamente. É um homem de ideias claras e com a cabeça arrumada. Foi talvez a mensagem mais fresca, mais nova, que ouvi nesta campanha. É desconhecido de muitas pessoas, mas revelou ser um valor a ter em conta. Mas não concorre propriamente a Presidente da República. Votarei Marcelo Rebelo de Sousa com convicção de que é a escolha certa para o meu país.

Estas eleições também se disputam à volta do segundo lugar. Tem alguma preferência entre Ana Gomes e André Ventura?

Nenhuma preferência. Conheço os dois, mas independentemente do relacionamento pessoal só me interessa quem vai ficar em primeiro lugar.

Partilha da ideia de que o Presidente da República vai ser mais exigente com o Governo socialista no segundo mandato? Foi assim com Mário Soares, por exemplo, mas também com Cavaco Silva...

Algumas pessoas, nas conversas que ia tendo, diziam-me que Marcelo esteve demasiado próximo do Governo no primeiro mandato, mas no segundo vai ser diferente. Não acho correto que os Presidentes sejam diferentes no segundo mandato. A coerência manda que sejam iguais nos seus critérios. Decidi votar em Marcelo com a convicção de que ele será genericamente igual ao que foi no primeiro. Houve momentos em que exagerou na proximidade com o Governo? Talvez. Mas antes isso do que aquilo que fizeram outros Presidentes.

Estranhou o apoio de algumas figuras do PS a um Presidente de direita?

Não estranhei. Quem acompanha a vida política não estranhou. Não é muito diferente do que aconteceu entre Cavaco Silva e Mário Soares [o PSD apoiou a recandidatura do fundador do PS].

E depois as coisas não correram bem...

Lá está a questão do segundo mandato. Marcelo tem dado alguns contributos importantes para mudar a maneira com os portugueses encaram a Presidência da República. Gostaria que ele também fosse inovador nesse aspeto e fosse no segundo mandato o mesmo que foi no primeiro. O general Eanes, hoje em dia, é apresentado como um modelo de Presidente, mas uma coisa é a consideração pessoal pelo general Eanes e pelas suas qualidades, outra questão é apontá-lo como exemplo político. Ramalho Eanes procurou fazer um partido novo a partir de Belém. E fez. Lembramo-nos do segundo mandato de Mário Soares  com o congresso Portugal, que futuro? ...

Cavaco Silva também começou o segundo mandato com um discurso muito violento para o Governo de José Sócrates...

Exatamente. Não gosto muito de falar de Cavaco Silva, mas gostava de ter um  Presidente que fosse igual nos dois mandatos. Marcelo Rebelo de Sousa disse que com outro primeiro-ministro será igual ao que tem sido com António Costa. Espero que possa mostrar isso aos portugueses e espero também que o centro-direita consiga apresentar uma alternativa. Espero que nas próximas eleições legislativas, sejam elas ainda este ano ou mais tarde, o centro-direita possa dar ao país outro Governo e outro primeiro-ministro. É a lógica da democracia. Mas respeito o trabalho que este primeiro-ministro tem feito numa altura tão difícil. Disse, no dia 14 de março, que este devia ser um tempo de coesão nacional em que as pessoas tinham de apoiar os responsáveis políticos, mesmo que às vezes não concordassem com eles. São tempos trágicos e com uma grande incerteza. Quem já foi primeiro-ministro sabe isso.

Prevê eleições antecipadas?

Acho provável. Há uma grande diferença entre a primeira e a segunda legislatura. A ausência de um acordo escrito determina uma maior instabilidade e uma maior probabilidade de haver uma rutura. Já saiu um dos parceiros da chamada geringonça...

A crise económica e social provocada pela pandemia pode ser determinante?

Depois de grandes tragédias, as pessoas normalmente querem mudar de caras, mudar de responsáveis. As pessoas querem esquecer, querem passar a outro ciclo, mesmo que os responsáveis políticos tenham estado bem. Há o clássico exemplo de Churchill, mas há outros na história do mundo e na história de Portugal. É muito difícil que a legislatura chegue ao fim. 

O PSD está preparado para ser essa alternativa?

Houve um momento de viragem. Disse, há alguns meses, que tinha chegado a hora de o centro-direita começar a trabalhar. Tivemos um período de fragmentação com a criação de novas forças políticas, mas a hora é de convergência se o centro-direita quer ser alternativa. Houve dois momentos que trouxeram uma grande viragem e que foram muito importantes. O primeiro foi quando António Costa disse que se o Governo dependesse do apoio do PSD isso implicaria a queda do Governo. Foi uma rutura muito significativa. O segundo momento foi quando o PSD, a sua liderança, decidiu formar um Governo, nos Açores, com o apoio de todos os setores à direita do PS.

Esse acordo esteve longe de ser pacífico dentro do PSD...

Teria sido um erro enorme, trágico, se a opção do PSD tivesse sido outra e tivesse deixado o PS continuar a liderar o Governo. Foi uma fase muito importante para abrir portas para a formação de uma grande alternativa entre as várias forças políticas que existem. Estou convencido que começou esse ciclo e não vai demorar muito até o centro-direita voltar a governar o país.

Essa alternativa será liderada por Rui Rio? Fala-se, muitas vezes, do regresso de Passos Coelho...

É uma questão que cabe ao PSD decidir, mas estou convencido que será Rui Rio a concretizar essa alternativa. A vida é assim. Lembro-me sempre de Durão Barroso, porque havia muita gente a dizer que não conseguiria ser primeiro-ministro. Quando chegou o momento foi ele que foi escolhido. Acho que Rui Rio marcou uma posição e a situação dos Açores foi um momento marcante, porque deu esperança às pessoas de centro-direita de que é possível concretizar uma alternativa. Rui Rio está no caminho para vir a assumir essas responsabilidades.

O acordo nos Açores abriu uma discussão, mesmo dentro da direita, se o Chega deve ou não ser convidado a integrar uma alternativa. Uma aliança à direita deve incluir o Chega?

Não tenho nada contra a solução que foi encontrada nos Açores. Quem lidera um partido não pode é trair as suas convicções para formar um Governo. Não pode aceitar medidas que vão contra os seus princípios e os seus valores.

É possível o PSD fazer um acordo com um partido com as características do Chega sem violar alguns princípios?

Se o acordo não implicar aplicar medidas que violentem a sua matriz não vejo razão para não ter o apoio parlamentar de outros partidos. André Ventura faz questão de dizer que é democrata. Há muitas posições do Chega que não aceitaria, mas é preciso esclarecer essas questões. O centro e a direita não podem ter menos direitos do que a esquerda democrática. A esquerda pode ter o apoio de partidos com ideologias extremistas e o centro e a direita não podem. Esse condicionamento que a esquerda sempre tentou fazer em Portugal não pode ser aceite. Isso foi feito com Paulo Portas, Manuel Monteiro, Freitas do Amaral... O centro-direita não pode admitir essa conversa. O que não pode é levar a cabo medidas que sejam contra o seu programa. O Chega tem, de facto, propostas que o PSD e o CDS não podem aceitar, mas também não podemos aceitar esse condicionamento. Temos de definir o que é aceitável e o que não é aceitável, mas a partir daí não podemos ceder a chantagens.

Criou o Aliança ao mesmo tempo que nasceram outras realidades políticas como o Chega e a Iniciativa Liberal. Esperava, nessa altura, que o Chega chegasse tão longe?

Não. Todos sabíamos que havia ventos favoráveis a partidos desse espaço político em muitos países europeus. As coisas demoram sempre dez anos, pelo menos, a chegar a Portugal, mas confesso que não previa esta situação. O que achava era que havia espaço para novas forças políticas. Disse sempre que o Aliança era um partido democrata, que dava valor à liberdade e à justiça social. Era um partido pela solidariedade e pela inclusão. O Aliança falhou, mas todos os partidos próximos do PSD ou do PS acabaram por não vingar.

Tem alguma explicação?

Vingaram os partidos que são muito diferentes. O_Aliança distingue-se na questão europeia e defende que não devíamos ser tão ortodoxos na política europeia. Mas queria ser um partido tradicional. O Chega é um partido que tem uma mensagem muito definida e a Iniciativa Liberal também.

O facto de ser uma personalidade forte dentro do PSD e ter mudado de partido não ajudou também a que a Aliança não tivesses sucesso?

Disso não tenho dúvidas. É uma história que está por escrever, mas a quase todo o lado onde chegava as pessoas falavam-me no nosso partido. Eu percebia que estavam a falar do PSD. Ouvia isso por todo o país. As pessoas achavam que continuava no PSD, mas compreendo porque foram 40 anos. É a vida, é assim. Não resultou, falhou, e isso tem de ser assumido. Agora, não queria ter votos a qualquer custo e dizer algumas coisas que outros dizem só para conseguir ter mais votos. Só defendo aquilo em que acredito.

Nas últimas semanas saíram do Aliança alguns dos seus fundadores. Qual é ligação que tem com o partido?

Sou militante do Aliança. Deixei a liderança há meses e acho que a Aliança tem de fazer opções num processo de decisão interna que ainda não está concluído. A minha intervenção política no Aliança terminou. Foi um projeto que falhou e não vale a pena insistir naquilo que falhou. Falhou e, logo na noite das eleições legislativas, assumi isso. Quase todos aqueles que fundaram o Aliança comigo já saíram, mas entendo que tenho o dever de ter uma especial preocupação na maneira de fazer as coisas. O processo de decisão para aquilo que será o futuro do Aliança não está concluído. Foi um tempo que terminou e o Aliança está a decidir se quer continuar, o caminho que quer fazer ou se não o quer fazer. É um processo de decisão interno que está em curso. Respeito muito o atual presidente, sou amigo do Paulo Bento, e os valores da lealdade são importantes.

Mas não exclui deixar o partido.

Não quero falar disso. Acho que as pessoas já entenderam qual é a orientação do caminho que estou a seguir, mas não quero ainda falar disso. Já houve muitas vezes em que rompi, cortei, perdendo oportunidades que outros aceitariam. Já recusei muitos convites para exercer cargos em Portugal, convites para ser embaixador lá fora... Saí de provedor [da  Santa Casa da Misericórdia de Lisboa], um lugar que muitos nunca deixariam.

Nunca se arrependeu de ter trocado uma situação confortável para travar combates políticos arriscados?

Foram decisões muito difíceis. Foram tempos duros. Tive um desastre de carro [na campanha para as eleições europeias] muito complicado. Passei pela suprema ironia de ter um acidente, fiquei encarcerado uma hora e vi a morte pela frente, e ainda fui criticado com aquela história de que o carro não tinha seguro, o que era falso. Foi muito duro todo este percurso. Fiz a campanha toda sem comunicação social. Mas fi-lo. As pessoas têm de reconhecer que sou capaz de tomar opções mesmo quando elas me prejudicam. Só por acreditar e achar que é esse o meu dever.

No congresso do Aliança, em setembro, deixou claro que a sua carreira política não terminou. Isso quer dizer que está disponível para novos combates eleitorais?

Não prescindo de ter intervenção política enquanto puder, mas não é por causa dos cargos. O que gostava era de ver Portugal mais em cima. Custa-me muito, muito, passarem décadas e ver o meu país quase em último lugar em relação ao nível de vida dos cidadãos da União Europeia. Porquê? Continuo a ser um revoltado com isso.

Tem alguma resposta?

Foram erradas as políticas económicas na Europa, houve uma grande falha em matéria de coesão económica e social, mas também houve razões internas porque vários Governos optaram por respeitar essa ortodoxia. Isso levou a que Portugal nunca tivesse olhado como deve ser para esta realidade. A culpa não é só nossa. As políticas financeiras e orçamentais têm de ser aprovadas em Bruxelas. Levaram-nos por caminhos que fizeram mal a Portugal. Desde a política agrícola, à política das pescas...

Mas também temos responsabilidades ou não?

Juntam-se aos erros da política europeia preconceitos ideológicos e outros que levam a erros inaceitáveis.

Quer dar um exemplo?

Não se compreende que o país esteja a enfrentar esta pandemia e haja um preconceito sobre se os hospitais são privados ou públicos. Devíamos estar a fazer um grande esforço nacional, com todos sentados à mesa, para colocar todas as infraestruturas que existem ao serviço dos portugueses.

As políticas para a saúde não estão sempre relacionadas com questões ideológicas?

Já não há tempo, nem paciência, para esse tipo de preconceitos. São mesmo criminosos determinados preconceitos, porque colocam em causa o direito à saúde das pessoas. Não quero saber se é público ou privado. As pessoas precisam de ser operadas e não podem. Que país é este?  A primeira medida que tomei como primeiro-ministro foi criar novos centros de Radioterapia em diferentes locais do país. O país preciso disso. Fui ao congresso do PSD [em 2014], aquele em que Marcelo Rebelo de Sousa entrou por ali dentro, dizer a Passos Coelho que não concordava com algumas decisões do Governo na área da saúde. Como também não esqueço o que este Governo fez na legislatura anterior em relação à saúde e em relação às cativações. Temos de tomar decisões, nomeadamente com os fundos da União Europeia.

Acredita que os dinheiros europeus vão ser bem utilizados?

É proibido desperdiçar um cêntimo. Há muitas regiões do país que precisam de hospitais novos. O principal tema do Aliança nas legislativas foi a saúde e a coesão territorial. Só que ninguém queria ouvir. Criar um partido sério para falar de assuntos sérios não compensa. As pessoas queriam era discutir os cartazes da Iniciativa Liberal, havia a senhora do Livre e o dr. Ventura. O Aliança falava da saúde, da segurança social... Uma pessoa chega ao fim da sua vida de trabalho e só tem resposta dois anos depois. Isto acontece no tempo da informática.

Deixou de haver espaço para discutir alguns assuntos?

Passamos a vida a discutir a castração  [química de de pedófilos], as estátuas... Passamos a vida a debater este temas laterais e não discutimos aquilo que interessa. Quando lhe digo que estive a pensar em quem ia votar é porque, muitas vezes, não me sinto representado em nenhum discurso que oiço. Tiago Mayan Gonçalves falou desta questão dos acessos aos cuidados de saúde. De facto, quem sofre com esta situação são os pobres que não podem ir ao privado. Esses esperam dois ou três anos. Conheci na Santa Casa da  Misericórdia pessoas que esperavam vários anos anos para fazer uma operação à coluna e já não conseguiam andar. As pessoas vão para as listas de espera. É isto que é preciso resolver. Não podemos desperdiçar os novos recursos. Tenho estado muito calado, mas tenho muito a dizer e não deixei de ser quem sou.

O país tem conseguido lidar bem com a pandemia? Como é que vê a atuação do Governo?

Houve algumas oscilações. O Presidente e o Governo fizeram aquilo que puderam, mas houve alguns erros. Nunca concordei, por exemplo, com isto do recolher obrigatório nos fins de semana a partir da uma da tarde. Quem vá às compras ao sábado ou ao domingo de manhã, eu faço-o muitas vezes, vê o resultado desta medida. Os ajuntamentos, a correria das pessoas...

O Governo insistiu nessa medida até ter decidido um confinamento geral devido à subida do número de casos. Os políticos, às vezes, têm dificuldade em recuar?

Exatamente. Tem de haver a capacidade de perceber que uma medida é errada e corrigi-la logo. Foi um erro enorme estar a insistir nessas medidas. Não faz sentido nenhum. Como a questão das presidenciais. Vai ser muito complicado. Tem de se fazer alguma coisa para evitar aglomerações. Não faz sentido confinar toda a gente e depois dizer que podem todos sair de casa para ir votar.

A abstenção pode ser elevada?

Se houver uma abstenção enorme os resultados podem ser diferentes daquilo que se esperava. Os extremos mobilizam-se mais. Estamos a viver tempos muito difíceis.

Voltando às autárquicas. Está ou não disponível para ser candidato a uma câmara municipal nas próximas eleições?

É um caso muito interessante. Se lhe contasse o número de câmaras para as quais tenho recebido convites de candidaturas, por parte de entidades partidárias, calcula qual é, não ia acreditar.

Isso surpreende-o?

É muito interessante, porque há um ano e meio tive um rotundo fracasso eleitoral. Assumo isso. Mas fico sensibilizado porque as pessoas continuam a convidar-me a acreditar em mim. No outro dia até me convidaram para me candidatar a uma capital de distrito do Norte que tem sido tradicionalmente do PS. Já não tenho 40 anos para andar a mudar de região ou a mudar para uma cidade onde nunca vivi. A minha posição em relação a todas as câmaras é a mesma. Neste momento não penso nisso. Hoje em dia sou advogado, tenho o meu escritório. Deus me dê vida e saúde para atravessar esta pandemia.

Lisboa pode ser uma hipótese?

Lisboa não. Mesmo que não houvesse pandemia estava fora de questão. É evidente que a Figueira tem sempre um cunho sentimental [Santana Lopes foi presidente da câmara da Figueira da Foz entre 1998 e 2001]. Mas a minha posição é a mesma para todas. Se me perguntarem agora digo que não. Se me derem mais algum tempo para ver como isto evolui logo se vê. Mas também lhe digo que se aceitar é mesmo por gostar muito desse tipo de trabalho.

Não tem receio de perder depois do mau resultado da Aliança nas eleições legislativas?

Não quero ter nenhuma derrota eleitoral. Se me candidatar é para ganhar. Não podemos negar quem somos e eu adoro o combate, adoro causas e gosto de mudar as coisas. Já tive muitos combates, muita luta, algumas injustiças. Não gosto de ser cínico e assumo que gosto muito desse trabalho. Sempre disse que o trabalho que mais gostei foi o trabalho autárquico. Mais do que ter sido primeiro-ministro.  Acho que é fascinante, mas vamos ver. Agora temos é de sair desta pandemia.

E a Câmara de Sintra...

Gosto muito de Sintra. Tenho muitas ligações a Sintra. Passei lá férias e a minha família ainda passa lá férias. Na praia das maçãs, Praia Grande, Colares ... E toda a outra zona, socialmente mais carenciada, das freguesias da chamada Linha de Sintra que também conheço bem. Conheço muito bem Sintra nas suas várias dimensões. Quando era secretário de Estado da Cultura o palácio que escolhi para receber os convidados e as refeições oficiais foi o Palácio da Pena. É um concelho lindíssimo. Eu passava férias na Casa de Retiros de Santo Inácio, quando começamos a ir para lá com os meus pais. Fomos para lá dois verões e eu e o meu irmão ajudávamos todos os dias na missa das oito da manhã. Miudinhos ainda, eu com oito anos e ele com seis, e ajudávamos á missa todos os dias. E, portanto, é um concelho que conheço muito bem.

Almoçou há pouco tempo com Rui Rio. Já lhe passou pela cabeça regressar ao PSD?

Neste momento estou no Aliança e não quero dizer nada que possa colocar em causa o respeito que devo ao Aliança. Mas tenho recebido das pessoas do PSD, dos mais variados níveis, muitas provas... muitas atitudes que me sensibilizam. Desde militantes PSD até aos mais variados níveis de responsabilidade. É público que me encontrei com o atual presidente do PSD e de facto têm tido atitudes que muito me sensibilizam.