Cultura

Orwell. O esplendor da pobreza

Os Ensaios de George Orwell revelam várias facetas de um intelectual que rejeitou sempre o supérfluo e nunca ficou fechado no gabinete.

Foi na Birmânia, em meados da década de 1920, que Eric Blair, então um jovem funcionário da Polícia Imperial, presenciou uma situação que lhe mostrou sem margem para dúvidas a injustiça do sistema colonial britânico, de que ele próprio fazia parte.

No ensaio ‘Um enforcamento’ descreveu o momento em que um condenado à morte vai a caminho do cadafalso e se desvia instintivamente de uma poça de água no chão. Uma atitude que em qualquer outra circunstância seria natural assume ali contornos quase bizarros: por que haveria aquele nativo, vigiado de perto por seis soldados indianos, de se desviar da poça, se, desse lá para onde desse, ia estar morto dali a poucos minutos? Afinal de contas, não devia ser-lhe indiferente molhar ou não os pés?

«É curioso, mas até àquele momento eu nunca tinha percebido o que significa destruir um ser humano em pleno uso das suas faculdades físicas e mentais. Quando vi o prisioneiro a evitar a poça de água, apercebi-me do carácter misterioso e inefável dessa enormidade que é encurtar uma vida no seu auge. Aquele homem não estava moribundo, estava tão vivo como cada um de nós», registou.

O drama que abalou então o jovem polícia – que poucos anos depois passaria a assinar com o pseudónimo George Orwell – terminava numa espécie de farsa que deixava a nu a natureza perversa do imperialismo britânico. Consumada a execução sem mais delongas nem contratempos, os participantes descontraíam contando anedotas de copo na mão. «Bebemos todos juntos, nativos e europeus, muito amigavelmente. O morto estava a cem metros de distância».

 

A marca de água de Orwell

‘Um enforcamento’ é um dos vinte ensaios reunidos, organizados, prefaciados e traduzidos com proficiência por Jacinta Maria Matos, professora de Estudos Anglo-Americanos na Universidade de Coimbra, no volume George Orwell – Ensaios, recentemente publicado pelas Edições 70. O objetivo foi, explica a tradutora e organizadora, «sem descurar o Orwell político, […] dar a conhecer várias outras facetas do autor, discerníveis em particular na sua veia jornalística e ensaística, que frequentemente ficam esquecidas ou são menosprezadas». Até porque, continua, «o ‘político’, para Orwell, situa-se muito para lá do partidário ou do estritamente ideológico, […] cruzando-se assim com a arte, a cultura, a identidade e até a vivência do quotidiano».

Logo a abrir o volume, lemos no ensaio ‘A Literatura e a Esquerda’, em que Orwell lamenta que a esquerda tivesse alienado os intelectuais, esta passagem reveladora do seu poder de fogo: «Quando se consulta um anuário desportivo, encontram-se páginas infindáveis dedicadas à caça à raposa ou à lebre, mas nem uma sobre o tiro ao intelectual. E, no entanto, este é o desporto favorito dos Ingleses, com uma época que se prolonga pelo ano inteiro e em que participam ricos e pobres».

Segue-se ‘Nós e a bomba atómica’, outro texto curto e incisivo, escrito depois de Hiroxima e Nagasáqui. Nele refletia: «Épocas cuja arma predominante é cara ou difícil de produzir são tendencialmente despóticas, ao passo que quando a arma mais usada é barata e de simples manufatura, o povo ainda tem hipóteses. Assim, por exemplo, os tanques, os navios de guerra e os bombardeiros são por natureza armas tirânicas, enquanto as carabinas, os mosquetes, o arco e flecha e as granadas de mão são armas essencialmente democráticas».

Este tipo de raciocínio a um tempo lógico e criativo, que passa com agilidade do particular para o universal e do concreto para as ideias, e vice-versa, é uma marca de água de Orwell. Cada página revela um intelectual bem ginasticado que não se limitava ao gabinete, à biblioteca ou à mesa do café, mas possuidor de um conhecimento direto das coisas que lhe advinha de uma rica e variada experiência de vida. No caso das armas, por exemplo, falava com conhecimento de causa adquirido não só nos anos em que foi oficial da Polícia Imperial na Birmânia mas também na Guerra Civil de Espanha, onde combateu em 1936, integrado numa milícia marxista, e onde foi ferido com gravidade.

 

O homem e o elefante

Não existe um único ensaio neste volume que não mereça ser lido. Porém, como num voo que atinge a altura máxima pouco depois do início do percurso, é logo na segunda secção, intitulada ‘«O trabalho sujo do Império»: Orwell e o Imperialismo’, que encontramos as páginas mais empolgantes.

A ‘Um Enforcamento’ segue-se outra obra-prima do género. ‘Matar um Elefante’ relata um episódio vivido por Blair quando era subinspetor da Polícia em Moulmein, no sul da Birmânia. Um elefante com um ataque de cio tinha-se libertado, provocando prejuízos materiais e até provocando as mortes a uma vaca e a uma pessoa. A única pessoa que podia controlar o animal estava a 12 horas de distância. O jovem oficial inglês foi chamado para resolver o assunto.

O paquiderme, que pastava calmamente num arrozal, não lhe pareceu especialmente perigoso. «Resolvi, portanto, ficar a observá-lo mais um pouco, e se ele não mostrasse mais sinais de violência, eu dava meia-volta e ia-me embora». Infelizmente as coisas não eram assim tão simples.

«Nesse momento, olhei em redor e vi a multidão atrás de mim, uma imensidão de gente, para aí uns dois mil e mais que continuavam a chegar, tantos que bloqueavam a estrada a perder de vista, um mar de caras amarelas e roupas coloridas – tudo numa grande excitação à espera que começasse o espetáculo. […] E de repente percebi que tinha mesmo de matar o elefante. Era o que esperavam de mim e, portanto, era o que eu tinha de fazer, sob a pressão inexorável daquelas duas mil vontades que me impeliam para a frente. E foi neste preciso instante – ali estava eu, carabina em punho – que pela primeira vez compreendi o caráter vão do domínio do homem branco no Oriente. Eu, o homem branco, de arma na mão, em frente da multidão nativa desarmada – aparentemente o ator principal da peça, mas na realidade uma simples marioneta absurda comandada pela vontade daqueles rostos amarelos atrás de mim. Nesse momento, percebi que quando o homem branco se transforma num tirano, é a sua própria liberdade que ele destrói. […] Ter vindo até aqui, de carabina em punho, com duas mil pessoas atrás de mim, e depois virar costas, tibiamente, sem nada fazer – não, isso era impensável. A multidão iria rir-se de mim. E toda a minha vida, a vida de todos os Ingleses no Oriente, era passada numa luta desesperada para que não se rissem de nós».

 

Lavador de pratos em Paris

Nascido na província de Bengala, Índia, em 1903, filho de um oficial do Departamento do Ópio da administração britânica, Eric Blair quase não viu o progenitor durante a infância. Logo em 1904, a mãe levou-o e à irmã para Inglaterra, criando os filhos sozinha.

Mais tarde, Orwell diria que tinha escrito o primeiro poema aos quatro anos, sobre um tigre, em forma de ditado à mãe. Embora a família não tivesse grandes pergaminhos, estudou no elitista colégio de Eton – e terá tido a sua fase snob, uma tendência tão inglesa que visaria mais tarde nos seus textos.

Na Birmânia, onde esteve entre 1922 e 1927, percebeu com clareza o que não queria da vida. Regressou a Inglaterra apenas para dela sair novamente em 1928, decidido a fazer carreira como jornalista e escritor em Paris, embora os amigos achassem que ele escrevia tão mal que se riam às lágrimas quando ele lhes lia excertos dos seus textos.

Na capital francesa, o objetivo a que se propusera foi comprometido primeiro por uma pneumonia que o atirou para uma cama de hospital logo no início de 1929, e depois por um roubo, quando uma mulher que tinha engatado num café lhe levou o dinheiro que tinha.

Mergulhado na penúria, o aspirante a escritor pôs as roupas no prego e reduziu as despesas ao essencial. Viu-se obrigado a lavar pratos e a executar tarefas menores numa cozinha de hotel. Trabalhava 14 horas por dia.

Antes do Natal de 1929 estava de regresso a Inglaterra, derrotado pela adversidade. Mas não completamente. Transpôs a experiência para o papel em Na Penúria em Paris e Londres, a que inicialmente tinha pensado chamar Memórias de um Lavador de Pratos. Inseguro, receando novo insucesso, sugeriu ao editor Victor Gollancz publicar sob pseudónimo. Dos vários que apresentou disse que preferia George Orwell, um apelido tirado do nome do rio que corria perto da casa onde vivia com a mãe e os irmãos.

 

‘Arquitetura péssima, gárgulas maravilhosas’

Talvez as dificuldades por que passou em Paris – e também em Londres, onde conviveu com mendigos, passou noites em abrigos para pobres e se vestiu com os farrapos que eles usavam – tenham ajudado a definir o seu estilo. Entre as regras de ouro que seguia, duas delas, pelo menos, mostravam a sua rejeição do supérfluo: «Nunca usar uma palavra comprida se uma curta servir» e «Se for possível cortar uma palavra, cortá-la sempre». Ele que tivera de sobreviver com o mínimo, também na sua arte defendia cortar tudo o que não fosse essencial. Cultivou uma escrita enxuta, direta ao assunto, sem espaço para conversa fiada, redundâncias ou adiposidades.

Essas qualidades brilham naturalmente com mais intensidade nos seus ensaios mais curtos e incisivos. Os textos dedicados a Dickens e a Kipling, que se prolongam por algumas dezenas de páginas, não são uma coisa nem outra.

A abordagem é astuta: Orwell empenha-se a expor as fragilidades de um e outro, para depois mostrar que apesar desses defeitos não deixam de ser grandes autores. Mas o empenho que põe em desconstruir esses dois gigantes da literatura inglesa acaba por revelar-se excessivo, quando não desagradável para todos aqueles que os apreciam.

Ainda assim, não deixa de haver em ambos os casos passagens memoráveis. Duas bastarão: «Não pode ser mera coincidência que Dickens nunca escreva sobre agricultura, mas escreva interminavelmente sobre comida. Sendo cockney, Londres é para ele o centro do mundo, assim como a barriga é o centro do corpo»; «Dickens é sem dúvida um escritor cujas partes são sem dúvida maiores do que o todo. Tudo é fragmento, tudo é detalhe – a arquitetura é péssima, mas as gárgulas são maravilhosas».

De uma originalidade a toda a prova é ‘A Arte de Donald McGill’. Inicialmente o leitor interrogar-se-á por que há-de gastar o seu tempo a ler sobre postais que nunca viu, ainda para mais com representações de «figuras deliberadamente disformes» num «traço grotesco». Com espanto, acaba a perceber de que afinal não estamos a falar de postais baratos, mas do Sancho Pança que existe na sociedade e em cada um de nós. «São uma espécie de Saturnália, uma revolta inconsequente contra a virtude, expressando uma das tendências da mente humana, mas uma tendência que sempre existirá e que, tal como a água, arranjará sempre maneira de sair cá para fora. Em geral, os seres humanos aspiram à virtude, mas nem tanto assim, e não o tempo todo».

 

Um diagnóstico implacável

Com apenas meia dúzia de páginas cada, ou até menos, ‘O Declínio dos Assassínios Ingleses’, ‘Algumas reflexões sobre o Sapo-comum’ e ‘A Lua sobre as Águas’ (onde descreve um pub inglês ideal) são verdadeiramente canónicos. Os dois últimos revelam já não apenas a inteligência penetrante como uma faceta menos conhecida de sensibilidade e capacidade de deslumbramento com a natureza.

Dissemos que as qualidades de Orwell brilham com particular intensidade nos textos curtos. Há que abrir uma excepção para o magistral ‘O leão e o unicórnio. O Socialismo e o Génio inglês’, que encerra este volume.

Em cerca de oitenta páginas escritas em plena II Guerra Mundial – «Dei início a este livro ao som dos bombardeamentos alemães, e escrevo agora o segundo capítulo sob o barulho ensurdecedor de um bombardeamento cerrado» – Orwell traça um diagnóstico excecionalmente lúcido, mas também implacável, da sociedade inglesa. Defende «a revolta das pessoas comuns contra a ineficácia, o privilégio e uma chefia de velhos». E continua: «Temos de lutar […] contra a noção de que um atrasado mental educado na public school tem mais qualidades de chefia do que um mecânico inteligente». Para que a Inglaterra ganhasse a guerra, acreditava, tinha de haver uma revolução que instaurasse o socialismo – embora de uma natureza muito diferente do da URSS, ou não fosse o autor de O Triunfo dos Porcos e Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, ambos recentemente reeditados entre nós, um crítico violento do estalinismo.

À distância de 80 anos (O Leão e o Unicórnio foi publicado em 1941), o leitor verificará que Orwell tinha razão em muitas coisas mas não acertou em tudo. E talvez fosse ingénuo nalgumas das suas expectativas. Em 1948 haveria de mostrar-se desiludido com o Governo trabalhista de Clement Attlee. Mas mesmo essa ingenuidade tem um lado reconfortante e redentor, servindo como uma espécie de antídoto capaz de redimir algum cinismo revelado nos textos dedicados a Dickens e Kipling.

 

‘A cara que mereces’

Aqueles que o conheceram eram unânimes num aspeto: Orwell era um homem precocemente envelhecido. Aos 30 anos parecia ter 40. Curiosamente, o rosto humano e o que revelava foi sempre para ele motivo de interesse. «Acima de tudo, fascinava-o a sua capacidade para revelar as características – a personalidade, em casos extremos a ideologia – do que jazia debaixo da pele», escreveu o seu biógrafo D. J. Taylor.

Em ‘O Leão e o Unicórnio’ esse interesse assume uma feição algo impiedosa. «No início da guerra, o mais desolador foi ver que a geração mais velha conspirou para fazer de conta que estávamos de volta à guerra de 14-18. A velhada regressou em força, com vinte anos a mais e a caveira mais visível sob a face». Em Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, o seu grande romance, era o rosto do Grande Irmão que aparecia por toda a parte a vigiar.

Foi também a propósito do rosto que formulou, alguns anos mais tarde, um dos seus mais citados aforismos: «Aos 50 anos, cada homem tem a cara que merece». Um pensamento – quase uma maldição – ainda mais enigmático e desconcertante por ter sido das últimas coisas que escreveu, já no hospital, com a vida a abeirar-se do fim. Em janeiro de 1950, quando tinha partida marcada para um sanatório na Suíça, Eric Blair foi acometido por uma hemorragia pulmonar. Tinha 46 anos e nunca chegou a descobrir que cara merecia aos 50.