Politica

Cavaco dá receita para vencer poder socialista

Ex-Presidente da República regressa a uma iniciativa partidária, das mulheres sociais-democratas, e aproveita para apontar a ‘estratégia’ que o PSD deve seguir ‘para vencer o poder socialista’. Numa análise crítica sobre a pandemia – ‘Estamos a lançar uma hipoteca sobre os mais jovens’ –, deixa um aviso: ‘Vivemos uma situação de anormalidade, mas a democracia não pode ser suspensa’.


O ex-Presidente da Republica Aníbal Cavaco Silva é o convidado especial da Academia das Mulheres Sociais-Democratas, marcada para hoje e que assinala, por antecipação, mais um Dia Internacional da Mulher (8 de março). Mais de três décadas passadas sobre a sua primeira intervenção entre as mulheres sociais-democratas (foi o orador principal no Encontro Nacional de 1987), Cavaco regressa a uma iniciativa partidária «em coerência» com o seu discurso de então, cujos «princípios e objetivos» – segundo fonte próxima do antigo chefe de Estado – foram agora relembrados no convite que lhe foi dirigido por Lina Lopes, deputada e vice-presidente do Instituto Sá Carneiro e organizadora da Academia de formação política para mulheres sociais-democratas – segundo a mesma fonte, «determinante para a aceitação do convite e para o regresso do Professor Cavaco Silva a uma iniciativa de cariz partidário».

Ao Nascer do SOL, a mesma fonte acrescentou que, tratando-se de uma Academia com o objetivo de contribuir para a formação política de mulheres sociais-democratas, Cavaco Silva não se limitará a falar sobre o papel da mulher na política e na sociedade e não deixará de analisar o impacto da pandemia da covid-19.

A crise económica e social sem precedentes será, por isso, tema da palestra de Cavaco Silva, que considera que, neste particular, «estamos a lançar uma hipoteca sobre os mais jovens».

O estado de emergência e as suas sucessivas renovações são também objeto da reflexão do antigo líder dos sociais-democratas, para quem temos vivido «uma suspensão da normalidade». Cavaco Silva é, porém, perentório: «A democracia não pode ser suspensa».

Cavaco Silva não deixará as mulheres sociais-democratas sem uma mensagem de esperança e sem soluções alternativas para o futuro próximo. Com efeito, e segundo o Nascer do SOL_conseguiu apurar, parte da sua intervenção reservada para esta Academia será dedicada à «estratégia para vencer o poder socialista».

Em declarações ao Nascer do SOL, Lina Lopes recordou que «o professor Cavaco Silva foi dos primeiros presidentes do PSD a falar sobre a participação política das mulheres na democracia portuguesa. E não se ficou apenas por palavras, fê-lo também em ações e atitudes. Promoveu grandes encontros com mulheres sociais-democratas e deu-lhes muitas oportunidades, sobretudo quando foi para o Governo, como primeiro-ministro, chamando para o seu lado grandes mulheres que ajudaram a construir o país». A organizadora deste encontro das MSD acrescentou ainda que «é tempo de recordarmos esses momentos importantes que a todas nos marcam».

Dadas as circunstâncias e as medidas restritivas do confinamento no âmbito do decreto do estado de emergência assinado pelo Presidente Marcelo e aprovado pela Assembleia da República, e regulamentado pelo Governo, a Academia das Mulheres Sociais-Democratas, que ficará obviamente marcada por esta intervenção de Cavaco Silva, decorrerá em plataformas online, através das páginas das redes sociais do PSD e do Instituto Sá Carneiro.

 

Rio no encerramento

Além da intervenção os antigo líder do partido, que foi primeiro-ministro entre 1985 e 1995 (conquistando as duas primeiras maiorias absolutas da história da democracia portuguesa, nas legislativas de 1987 e de 1991) e Presidente da República entre 2006 e 2016, o programa da iniciativa conta ainda com vários painéis, a saber: um painel sobre comunicação política, que integra nomes como o jornalista Paulo Baldaia, a diretora de comunicação do PSD, Florbela Guedes, e Manuel Teixeira, com a moderação da jornalista Paula Sá. Sobre a igualdade de género, haverá um painel Autarquias no feminino, com a participação de Fermelinda Carvalho (presidente de Câmara de Arronches), Fernanda Guardado (presidente da Assembleia Municipal de Pombal), Olga Freire (presidente de Junta de Freguesia da Cidade da Maia), Carlota Pina (presidente de Assembleia de Freguesia de Alverca), com a moderação de Salvador Malheiro (vice-presidente do PSD). Por fim, um painel sobre igualdade salarial com Mafalda Tronche (diretora da OIT em Lisboa), Albertina Jordão (da OIT em Lisboa), Ana Jacinto (secretária-geral da AHRESP) e Soraia Duarte (vogal da Comissão de Mulheres da UGT). O líder do PSD, Rui Rio, fechará os trabalhos, com uma intervenção prevista para o final do dia.

 

O discurso de 1987

Tenho o maior prazer em presidir a este XIX Congresso Nacional das Mulheres Sociais-Democratas, pois trata-se duma iniciativa que demonstra que a atitude das militantes do nosso partido não é de conformismo com as formas de participação que vêm tendo, mas aspiram antes a algo de qualitativamente diferente e superior.

[...] Estando em causa o interesse do país,  ao serviço do qual  nos dedicamos, cumpre-nos  uma atitude  de auto-exigência permanente. Pretendemos dar a Portugal sempre o melhor de  nós próprios. Por isso, é saudável e estimulante saber que podemos contar com as novas ideias e as novas formas de participação  na atividade política que as mulheres sociais-democratas estão apostadas em realizar.

As militantes e simpatizantes do PSD têm muito a dar à ação política. Aliás, deve-lhes o PSD um qualificadíssimo trabalho ao  nível das autarquias locais [...]. Deve muito também às suas militantes que têm ocupado lugares cimeiros na política nacional [...].    Está hoje aqui presente, aliás, a dra. Leonor Beleza, exemplo inequívoco de competência e coragem pessoal no desempenho das atividades que lhe têm sido confiadas.

A questão central que se nos suscita, nesta circunstância, é esta: por que continuam as mulheres arredadas da intervenção política no que toca aos lugares cimeiros, por que são tão poucas as que atingem esses lugares?

Temos de reconhecer que não se trata de um problema específico do PSD. São razões de ordem vária, profundamente enraizadas, não só na sociedade portuguesa,  como a nível mundial que o motivam. O PSD, partido que mergulha fundo no pulsar da vida do nosso país, não poderia deixar de refletir essas razões.

Elas prendem-se sobretudo com fatores de ordem social, económica  e cultural. As mulheres têm atividades e responsabilidades acrescidas no plano familiar, que as desviam da participação coletiva. As mulheres estão, em muitos casos ainda, economicamente dependentes de outrem, ou sofrem discriminações laborais que as tornam economicamente mais vulneráveis  que os homens. As mulheres sentem muitas vezes uma compreensível inibição em desempenhar lugares tradicionalmente masculinos, sabendo que, por constituírem neles uma minoria, poderão ser alvo de críticas e de incompreensões maiores do que as que  sofrem no desempenho de outras profissões. Enfim, é natural mesmo que sintam um certo desinteresse pela construção de uma obra política para a qual costumam ser muito pouco solicitadas, e que poucas compensações lhes têm oferecido.

É justo dizer-se que o PSD tem procurado contrariar esta tendência discriminadora. Mas sabe que para o fazer é necessário repensar e procurar resolver a questão sócio-cultural de fundo, e não, limitar-se a meros ajustes de ordem aritmético-eleitoral. Alguns parecem pensar que atingem grandes progressos só porque colocaram na lista de deputados à Assembleia  da República mais uma meia dúzia de deputadas. Se fosse verdade [...], então tal equilíbrio estaria também muito longe ainda, pois não vemos nenhum dos grandes partidos nacionais fazer listas de deputados com uma taxa de 50% de feminização. Ficamos assim sem perceber o motivo de satisfação que alguns líderes partidários manifestam.

[...] Às jovens que jâ cresceram num país onde está consagrada a igualdade jurídica, apelo para que não prescindam dos seus direitos e os defendam com coragem e alegria.

[...] A experiência de países bem mais avançados do que o nosso demonstra perfeitamente que a melhoria das condições de vida não traz consigo, por geração expontânea, uma participação política feminina mais intensa.

[...] Não devem os partidos políticos chamar mais mulheres por razões de bandeira. Compete em grande parte às mulheres conquistarem esses  lugares por afirmação pessoal. Entendemos que a verdadeira igualdade exige não só que nenhuma mulher seja afastada de uma posição pelo facto de ser mulher, mas também que não ocupem nenhum lugar pelo facto de o serem.

[...] Não entendo, por formação e maneira de estar na vida, a política de outro modo que não como serviço à comunidade.

[...] É, por isso, um contrassenso, além de ser uma enorme injustiça, ignorar a voz feminina, que representa mais de metade da população».

Cavaco Silva, 20 de junho de 1987