Biblioteca Pessoal

Viajar à boleia de Eça

Poderá o escritor ter feito um trocadilho com uma civilização desaparecida?

N ão sei o que me passou pela cabeça, mas admito que a polémica em torno de Os Maias serem um livro racista me tenha baralhado um pouco as ideias. Fosse pelo que fosse, um dia destes ocorreu-me uma teoria um pouco estapafúrdia a propósito da obra-prima de Eça. E se o título fosse uma espécie de metáfora ou trocadilho, recorrendo ao nome de uma civilização algo exótica para caricaturar a sociedade alfacinha? É que, desconhecendo o seu teor, um livreiro mais desatento poderia colocar Os Maias, de Eça de Queiroz, ao lado de livros de divulgação histórica como Os Celtas, de John Haywood, Os Astecas, de Mireille Simoni-Abbat, ou Os Incas, de Alfred Métraux (todos estes títulos existem, posso garantir).

O primeiro passo para avaliar se essa hipótese era ou não totalmente descabida foi tentar perceber se a civilização maia podia sequer ser conhecida de Eça. O artigo da wikipedia (subcapítulo ‘Investigação da civilização maia’) deu-me alguma esperança. Passo a transcrever: «Em 1839, o viajante e escritor americano John Lloyd Stephens decidiu visitar vários locais maias com o arquiteto e desenhador inglês Frederick Catherwood. Os seus relatos ilustrados das ruínas despertaram grande interesse popular e chamaram a atenção do mundo para os maias. No final do século XIX começou o registo e a recuperação de relatos etno-históricos dos maias e foram dados os primeiros passos para decifrar os hieróglifos maias». Pelos vistos, a arqueologia maia terá sido objeto de uma certa voga na segunda metade do século XIX (recordo que o livro de Eça foi publicado em 1888).

Encorajado por esta informação, passei ao volumoso Dicionário de Eça de Queiroz, organizado e coordenado por Alfredo Campos Matos (ed. Caminho). A entrada ‘(Os) Maias. Episódios da Vida Romântica’ não me deu qualquer pista. Deixei de pensar no assunto e distraí-me a folhear o dicionário. Poderia mesmo dizer ‘a viajar’, pois a curiosidade e o acaso levaram-me às entradas ‘(O) Egipto. Notas de Viagem’, (O) Egipto na obra de Eça de Queiroz’, ‘(A) China na vida e na obra’, ‘Paris’, ‘Neuilly’, ‘Eça e o Oriente’.

Por teimosia, ainda fui espreitar se haveria alguma entrada dedicada ao México… mas não. O mais aproximado que encontrei foi ‘Cuba’. Uma passagem de uma carta a Ramalho Ortigão escrita justamente em 1888 deixa bem claro quanto Eça detestou ser cônsul naquele país. «Em Havana, num dos seus grandes centros, havia apenas um livreiro para meio milhão de habitantes; e nesse livreiro só romances de Montépin, que se vendiam por causa da encadernação. Se V. me torna a falar na América Latina, agarro num arrocho», ameaçava. Chamou à capital «depósito de tabaco», «charco de suor» e «estúpido paliteiro de palmeiras». Esta animosidade não seria totalmente injustificada: julga-se que terá sido em Cuba que Eça contraiu a doença que haveria de o levar para a última viagem…

Se não encontrei qualquer referência que suportasse a minha teoria, a verdade é que não dei nada por mal empregue o tempo que passei a ler o Dicionário de Eça de Queiroz. Quanta informação e quantos belos pedaços de prosa pude saborear, como um comensal que vai picando um petisco aqui e outro ali! Mas mesmo no momento em que ia fechar o volume vi uma palavra que me chamou a atenção: incesto. Se há suspeitas de que na civilização maia era praticada a antropofagia, no centro da trama (e da tragédia) da família Maia estava o incesto entre Carlos e Maria Eduarda – um tabu que poderia ser equiparado ao canibalismo.

E foi então que encontrei este parágrafo na entrada ‘(Os) Maias, elementos estruturais’, que antecede a dedicada ao romance propriamente dito: «A catástrofe n’Os Maias é o incesto e suas consequências: a morte de Afonso, o exílio de Carlos, o regresso de Maria Eduarda à origem, a dispersão da nobre família, enfraquecida pelo casamento de Afonso com a adoentada e doentia D. Maria Eduarda Runa e moralmente arruinada para sempre pela aparição em Lisboa de Maria Eduarda Maia». A «dispersão da nobre família […] moralmente arruinada para sempre»! Talvez eu esteja com as ideias um pouco baralhadas, mas parece-me que estas palavras podem ter alguma coisa a ver com uma antiga civilização em ruínas.