Política a sério

A pandemia e a guerra

Os problemas emocionais causados pela pandemia fizeram também com que se perdesse em certa medida a racionalidade. Ouve-se muita gente dizer que as medidas impostas pelo Estado deveriam ser decididas pelos virologistas ou pelos epidemiologistas e não pelos políticos. Ora, isso é outra asneira. Nas decisões a tomar, há que ponderar muitos interesses – e não apenas o controlo da doença.


Tenho visto e ouvido muita gente comparar esta pandemia a uma guerra.            «Isto é como se fosse uma guerra!», dizem, e até colocaram um militar à frente da task force que coordena a vacinação, o qual faz questão de aparecer sempre fardado.

Ora, não pode haver analogia mais disparatada.

A luta contra a pandemia é exatamente o oposto de uma guerra.

Numa guerra, os soldados são enviados para a frente de batalha, para lutarem por um objetivo que é considerado superior à própria vida humana – seja a defesa da pátria, da liberdade ou de uma ideologia.

Ou seja, sacrificam-se vidas, às dezenas ou às centenas de milhares, para defender um determinado ideal.

Na guerra, o valor supremo deixa de ser a vida humana para ser o objetivo que se pretende atingir; na luta contra a pandemia, o que acontece é exatamente o inverso: as pessoas não são mandadas para a frente de combate, são mandadas para casa.

Na pandemia, a proteção da vida torna-se um valor superior a qualquer outro.

Não interessa a economia, nem a liberdade dos cidadãos, nem as homenagens aos mortos: a luta contra a propagação do vírus sobrepõe-se a tudo.

Os políticos que tentaram que o quotidiano prosseguisse ‘habitualmente’ nos seus países foram responsabilizados pelas mortes provocadas pela covid – como se nos outros países não morresse ninguém.

É evidente que, para um político, o mais fácil é dizer para as pessoas se meterem em casa e não saírem.

É o mais fácil e o mais popular.

Veja-se Marcelo Rebelo de Sousa: a sua posição é sempre a mais cautelosa possível, pois sabe que é isso o que o povo quer ouvir…

Se amanhã a economia colapsar, se houver desemprego em massa, fome, pessoas despejadas das casas, a responsabilidade não é dos que mandaram as pessoas para casa – a responsabilidade é do vírus.

Os problemas emocionais causados pela pandemia fizeram também com que se perdesse em certa medida a racionalidade.

Ouve-se muita gente dizer que as medidas impostas pelo Estado deveriam ser decididas pelos virologistas ou pelos epidemiologistas e não pelos políticos.

Ora, isso é outra asneira.

Nas decisões a tomar, há que ponderar muitos interesses – e não apenas o controlo da doença.

Por muito que se despreze a economia, há que manter determinadas atividades a funcionar; há que ter em conta os direitos individuais (mesmo quando são atropelados…); há que ver as disponibilidades do Estado para dar apoios; há que verificar a cada momento a capacidade de resposta dos serviços de saúde; etc.

E é evidente que esta ponderação só pode ser feita pelos responsáveis políticos e não por médicos, que só estão obviamente focados no combate à doença e não têm que ter em conta outros fatores.

Outro erro que se tem reiteradamente cometido é falar quase exclusivamente do Serviço Nacional de Saúde.

Desde o início, a preocupação máxima foi não ultrapassar a capacidade do SNS.

Todas as medidas tinham subjacente esta ideia.

Se houvesse uma subida muito brusca do número de casos, dizia-se, o SNS colapsaria, os cuidados intensivos entrariam em rutura e os médicos teriam de começar a escolher entre os que salvavam e os que deixavam morrer.

Ora, o problema não podia colocar-se assim.

A questão não deveria ser a capacidade do SNS mas sim a capacidade hospitalar do país no seu conjunto – incluindo o SNS, os hospitais privados e os das misericórdias.

Todos os raciocínios e cálculos deveriam ter sido feitos a partir daí – e não a partir das possibilidades limitadas do SNS.

Isto permitiria um planeamento abrangente, maior maleabilidade, menor saturação de certos serviços médicos, etc..

A propósito, o pedido de ajuda ao estrangeiro assumiu aspetos caricatos.

A equipa alemã que para cá veio foi recebida com grande aparato; depois, ao contrário do que se pensava, não foi para um hospital público mas para um privado; a seguir, esteve mais de uma semana sem fazer nada; depois, tratou meia dúzia de doentes; e, finalmente, foi-se embora como quem não quer a coisa.

Afinal, para que serviu?

Sobretudo para espalhar lá fora a ideia de que a nossa situação era desesperada, que o Estado português já não tinha meios para responder à doença – contribuindo com isso para uma péssima imagem que prejudicou a nossa reputação e afetará o turismo.

Um desastre!

Outro disparate consiste em dizer que será preciso no futuro preparar o SNS para novas ocorrências deste tipo.

Carlos Moedas, candidato à Câmara de Lisboa, até já veio apresentar como grande ideia a preparação de Lisboa para futuras pandemias.

Ora, isto faz algum sentido?

Seria o mesmo que termos um Exército permanentemente dimensionado para uma situação de guerra.

O SNS tem de estar preparado para dar resposta a situações normais – e não a situações de exceção.

O que deve acontecer é outra coisa: é existir um ‘plano de catástrofe’ pronto a ser acionado caso ocorra uma situação anómala – de modo a que, nessa altura, não seja necessário improvisar e já estejam definidos os passos a dar.

E, na resposta a essa situação excecional – que pode não ser outra pandemia mas um terramoto, por exemplo –, devem ser considerados todos os meios hospitalares existentes no país.

Voltando ao início do texto, comparar a pandemia a uma guerra teria algum fundamento se um Governo dissesse: «Vamos para a luta, vamos manter as lojas abertas e a sociedade a funcionar, sabendo que isso implicará a morte de pessoas».

«Vamos conscientemente sacrificar vidas humanas para que a economia não morra – os restaurantes não fechem, o pequeno comércio não feche, os hotéis não fechem, as lojas de roupa e as respetivas fábricas não fechem, as fábricas de automóveis e outros bens de exportação não fechem, os supermercados se mantenham abertos, os centros comerciais também, para os lojistas vão irem à falência, etc.»

«Vamos manter tudo aberto, embora com as necessárias cautelas, porque os negócios representam o sustento de milhares de famílias e a economia é a seiva que alimenta as finanças do país.»

Se a mensagem fosse esta, a analogia com a guerra faria sentido.

Haveria gente a morrer para manter a sociedade a funcionar e garantir a própria liberdade de circulação dos cidadãos.

Mas verificando-se a situação oposta – «metam-se em casa e não saiam de lá enquanto o ‘inimigo’ estiver por aí» – a comparação com a guerra é absurda.

Como se disse, isto é o contrário de uma guerra.

Numa guerra, o princípio é «morram os homens mas salvem-se as pátrias»; nesta pandemia, o lema é «salvem-se os homens mesmo que as pátrias se afundem».