Opiniao

A identidade e as autarquias

Em Bolama, cidade histórica da Guiné-Bissau (capital da antiga colónia portuguesa até 1941) existem os maiores marcos culturais e arquitetónicos do país.


A identidade de um povo, para além dos traços comuns que partilham, resulta da soma das características específicas que distinguem cada região ou município, responsáveis por torná-los competitivos e diferenciadores através da afirmação do legado histórico que trazem consigo.

Pelo reforço dessa identidade local, onde as autarquias assumem uma relevância determinante por serem os potenciais impulsionadores da história que distingue as suas áreas geográficas, surge de igual modo a possibilidade de superar dificuldades e traumas nacionais, podendo constituir-se como exemplos de integração.

Recentemente, a agenda nacional foi assaltada por controvérsias sobre certos monumentos, situações que surgem à superfície impulsionadas por intenções políticas. Estes episódios lembraram-me Bolama, a cidade histórica da Guiné-Bissau onde existem os maiores marcos culturais e arquitetónicos do país, capital da antiga colónia portuguesa até 1941.

Foi erigida nesta cidade a única estátua de um antigo presidente norte-americano, Ulysses Grant, em homenagem à decisão que tomou como árbitro internacional em 1870, a favor de Portugal e em detrimento do Reino Unido, que reivindicava aquele território. Para além disso, Bolama exibe um monumento que assinala os pilotos de aviação italianos que perderam a sua vida naquele espaço aéreo, após um acidente aéreo em 1931, quando realizavam um cruzeiro transatlântico entre Itália e o Brasil.

Alheia às críticas que ainda subsistem nos Estados Unidos sobre os mandatos presidenciais de Ulysses Grant ou às ligações dos pilotos italianos ao regime ditatorial de Mussolini, Bolama integra sem constrangimentos estes monumentos no seu rico património cultural.

Também recordei a história de Cascais, quando reis e pescadores partilhavam os mesmos lugares e espaços públicos, exemplificando como as assimetrias sociais podem e devem ser ultrapassadas. E ganhei uma esperança revigorada no futuro, onde todos possam ter as mesmas oportunidades no seu concelho, desde que as autarquias respeitem as suas culturas e respondam localmente aos desafios globais das nossas sociedades.