Politica

Pedro Nuno Santos e Siza Vieira em pé de guerra

Pedro Nuno Santos lidera a ‘ala esquerda’ maioritária no PS e minoritária no Governo. Pedro Siza Vieira, da ‘ala direita’ e não militante, assume-se como número 2 no Executivo de António Costa. Os dois estão em rota de colisão no Governo e quase nem se falam. Dizem um do outro o que Maomé não dizia do toucinho. Primeiro-ministro não cede e obriga-os a trabalhar na mesma equipa.


por João Amaral Santos e Sónia Peres Pinto

Pedro Nuno Santos e Pedro Siza Vieira são os dois ministros com mais peso político no Governo de António Costa. O primeiro porque é o mais forte candidato à sucessão de António Costa como secretário-geral do PS, liderando a chamada ‘ala esquerda’ do partido e contando com uma vastíssima base de apoio no aparelho socialista, tanto a nível nacional como nas estruturas distritais e concelhias. O segundo porque, embora independente, foi subindo na hierarquia do Executivo, ascendendo a número dois com a saída de Mário Centeno para o Banco de Portugal. Do núcleo de amigos e de pessoas da mais estrita confiança do primeiro-ministro, Siza Vieira está associado à ‘ala direita’ que é claramente maioritária no Governo de António Costa, mas é minoritária entre os militantes socialistas.

O confronto entre estas duas correntes no interior do PS já tinha sido evidente no último Congresso do partido, em que Pedro Nuno Santos fez levantar a plateia e obrigou António Costa a lembrar que ainda está para vir o tempo em que entregará os papéis para a reforma.

Em 2018, Fernando Medina era tido como o mais provável concorrente contra Pedro Nuno Santos na próxima corrida à sucessão de Costa, mas o Congresso demonstrou a sua evidente desvantagem em relação ao atual ministro das Infraestruturas, e neste momento, a ‘contagem de espingardas’ continua a ser claramente desfavorável ao presidente da Câmara da capital – e daí  ter começado a desenhar-se uma terceira hipótese, que tem vindo a fortalecer-se com o tempo e uma maior exposição pública: a da atual líder parlamentar, Ana Catarina Mendes.

O certo é que, como António Costa afirmou na última reunião da Comissão Nacional do partido, o Congresso de julho (marcado para o fim de semana dos dias 10 e 11, sendo precedido da eleição direta do secretário-geral em 11, 18 e 19 de junho) deverá ser uma «momento alto de mobilização do partido» para o próximo desafio eleitoral: as autárquicas de outubro. Ou seja, Costa já deixou o aviso à navegação e considera que não é tempo de discussões programáticas nem fraturantes, nem de afirmação de ambições de carreira política individuais, porque a questão da liderança não se colocará tão cedo e a hora é de cerrar fileiras para ganhar as eleições que se avizinham.

‘Paz podre’ no seio do Governo 
Não obstante os avisos de Costa – a que os ministros respondem com uma imagem pública de união e solidariedade –, nem por isso reina a maior das harmonias no interior do Executivo. Bem pelo contrário, o choque é frontal entre aqueles destacados representantes da ‘ala esquerda’ e da ‘ala direita’ dos socialistas.

Além de serem cada vez mais recorrentes as incompatibilidades entre as duas correntes em relação às opções da economia nacional (interventiva e estatizante para Pedro Nuno Santos, mais empresarial e liberal para Pedro Siza Vieira), um e outro não escondem a hostilidade recíproca em círculos mais fechados ou privados.

Ao ponto de destacados socialistas já terem transmitido a sua preocupação ao próprio primeiro-ministro, sabe o Nascer do SOL, face o clima de desconfiança e afastamento que reina entre aqueles dois pilares do Governo.

No inner circle de António Costa relativiza-se, porém, as querelas entre os dois Pedros: António Costa é pragmático, sabe que conta naturalmente com Siza Vieira e não fará nada para afastar Pedro Nuno Santos, que quer manter na sua esfera de domínio enquanto puder.

Aliás, vários destacados socialistas ouvidos pelo nosso jornal alertam para o facto de Pedro Siza Vieira e Pedro Nuno Santos não fazerem nunca parte das listas de ‘remodeláveis’ que vão circulando pelos Passos Perdidos do Parlamento e pelos corredores do do Rato.

Temas mais ‘quentes’ como a TAP, a Linha de Alta Velocidade (LAV) ou as telecomunicações têm agudizado distâncias entre as duas correntes ideológicas que persistem no interior do Governo. Face aos desafios ‘quentes’ e mediáticos que têm caído nas mãos da tutela dos transportes, António Costa tem dado liberdade e até reforçado os poderes de decisão ao ministro Pedro Nuno Santos, uma opção que Pedro Siza Vieira tem respeitado sem protestar.

Aliás, no que concerne aos dossiês TAP e Groundforce tem sido por demais evidente como Pedro Nuno Santos tem conduzido as negociações com privados e sindicatos usando um estilo diametralmente oposto ao lowprofile do seu colega da Economia (muito no conteúdo, mas sobretudo na forma), permitindo-lhe consolidar, batalha a batalha, uma imagem pública de liderança política. O afastamento em março de Diogo Lacerda Machado, amigo próximo de António Costa e de Pedro Siza Vieira, da administração da TAP, após incompatibilidades com Pedro Nuno Santos – como noticiou o Expresso – é demonstrativo do capital que o ministro atualmente detém.