Cultura

Rui Correia: "Quando aparece uma coisa destas gosto que possa brilhar por si própria"

‘E se durante o Estado Novo tivesse existido um jornal escrito em língua portuguesa onde não havia censura?’. Rui Correia encontrou resposta a esta pergunta numa ‘cave recôndita’ de um arquivo americano e conta-nos que uso fizeram dessa liberdade os colaboradores do Diario de Noticias de New Bedford.


E ntre 1919 e 1973, atravessando a ditadura militar e o Estado Novo, um jornal escrito em português escapou incólume às malhas da censura. Chamava-se Diario de Noticias mas era publicado em New Bedford, Massachusetts (EUA). Rui Correia, professor de História do ensino secundário nas Caldas da Rainha (vencedor em 2019 do Global Teacher Prize), descobriu por mero acaso uma página desta «fonte limpa», como lhe chama, e quis investigar. Encontrou uma coleção completa numa biblioteca universitária americana e teve uma espécie de momento eureka ao perceber que ninguém tinha ainda explorado este manancial precioso, composto por cerca de 300 mil páginas. No livro Salazar em New Bedford (ed. Guerra & Paz), Rui Correia conta a história do Diario de Noticias de New Bedford e oferece uma amostra do que ele tem para acrescentar ao que sabemos sobre a História de Portugal no século XX.

Como descobriu este acervo?
Tenho o hábito de frequentar alfarrabistas. E às vezes comprava caixas de papéis que eles tinham para lá e a que não davam grande importância. Foi assim que fiquei com uma grande quantidade de materiais, e no meio desses materiais apareceu-me uma fotocópia do Diário de Notícias. Achei engraçado ter uma fotocópia de um Diário de Notícias antigo, mas também não era nada de especial.

Um dia, quando me pus a ler aquilo, vi um artigo, até extenso, a comentar uma notícia saída na Time. Portugal foi capa da Time três vezes. A última foi com o Guterres, antes tivemos o Spínola e antes disso tínhamos tido o Salazar, com uma capa muito sarcástica: a figura dele, ótima, com uma maçã cortada a meio, que por fora estava muito luzidia e por dentro toda carcomida. E o artigo dizia aquilo que a capa dizia: que Portugal dava uma imagem de equilíbrio, de tolerância, de desenvolvimento, mas que por dentro aquilo era terrível, péssimo, péssimo, péssimo.

E o artigo na fotocópia era um comentário a esse da Time?
Exato. E dizia qualquer coisa como: ‘Não sei se leram o artigo da Time. Diz muito mal de Portugal e é pena… porque Portugal ainda é muito pior do que lá vem escrito’! [risos] Olhei para aquilo e pensei: ou eu não sei nada de História, o que é sempre uma possibilidade…

… ou aquele artigo não podia estar no Diário de Notícias.
Não podia estar no Diário de Notícias. Evidentemente aquilo interessou-me e, embora inicialmente me tenha deixado levar por aquele lettering perfeito, lá percebi que era o Diario de Noticias de New Bedford. Na altura estava envolvido numas investigações e a Torre do Tombo e a Biblioteca Nacional eram um bocado a minha segunda casa. Fui à procura e não havia nada em lado nenhum. Nem na Hemeroteca. Não aparecia uma única coleção, nem sequer números avulsos. Então fui ver em New Bedford quem poderia ajudar-me e acabei por ir parar à biblioteca do polo de North Darmouth da Universidade de Massachusetts. Disseram-me que tinham uma coleção. Tentei saber se era possível enviarem-me algumas coisas. ‘Diga quais são os números que quer, que a gente envia’.

A minha intenção era averiguar todo o articulismo político daquele jornal, e rapidamente percebi que ninguém tinha trabalhado aquilo. Na altura estava a fazer um mestrado na Universidade de Lisboa, com o professor João Medina, e ele disse-me: ‘Acho que vale a pena procurarmos apoio para o Rui ir lá, merece’. E eu assim fiz: candidatei-me a uma bolsa da Fundação Luso-Americana, eles concordaram e para lá fui. Quando lá chego, descubro que o jornal original estava numa cave recôndita e em muito mau estado, pelo menos os primeiros números.

Mas conseguia-se ler?
Não era exequível. Mas havia a parte microfilmada e ler microfilmes lá era extremamente fácil, e eles eram muito práticos a tirar as cópias. E assim foi. Lá passei os meus dias todos…

A navegar naquilo.
Cada dia que passava era a confirmação de tudo o que tinha percebido: estava na presença de um jornal em língua portuguesa, um diário, que me dizia muito sobre o panorama jornalístico da comunidade luso-americana. Quando comecei a ler aquilo deparei-me com artigos de pessoas profundamente adeptas da I República, outros abertamente monárquicos, textos abertamente fascistas, muito mussolinianos, textos abertamente comunistas, e depois os mais moderados, os chamados liberais, ou seja, toda a gente que não fosse salazarista – democratas cristãos e muita gente assim. É assim que nasce o primeiro contacto com o Diario de Noticias de New Bedford.

E havia nomes familiares entre os autores desses artigos ou eram desconhecidos para si?
À medida que fui avançando na investigação comecei a ver nomes como o José Rodrigues Miguéis, por exemplo, e também uma referência a um pequeno texto que o Mário Soares mandou para lá clandestinamente. Mas o nome que mais me interessou foi certamente o do João Camoesas, que tinha sido ministro da Instrução portuguesa e, entre muitas coisas, foi o deputado que proferiu o discurso mais longo da história da Assembleia da República. Estavam à espera que uns deputados chegassem do Porto para votarem e conseguirem manter o Governo. Ele teve de estar nove horas a falar, há quem diga 14…

Nem o Fidel Castro!
[risos] Mas não serviu de nada porque os deputados não chegaram e o Governo caiu. Entretanto, o João Camoesas, que era médico, vai ser mandado para Angola. Até aqui há uns poucos anos a sua biografia terminava aí. Achei interessante, porque depois venho a encontrá-lo nos Estados Unidos da América. É um tipo profundamente moderno. Afirma-se liberal, democrata-cristão, mas ao mesmo tempo diz-se também anticlerical, no sentido da separação entre a espada e o altar. Depois encontramos muitas outras pessoas, como o Ferreira Martins, que era um dos grandes jornalistas do Diário de Notícias, de Lisboa, que também foi exilado, o Manuel Caetano Pereira, vice-cônsul em Fall River, o Laertes de Figueiredo. Mistura-se ali a comunidade luso-americana com alguns exilados políticos que encontravam nos Estados Unidos o palco certo.

Que tipo de cidade era New Bedford e o que é que a comunidade portuguesa lá fazia?
A cidade de New Bedford, como de resto toda a região, durante os finais do século XIX esteve muito ligada à indústria baleeira. Entretanto houve uma inflexão, em termos económicos, e passa muito para a indústria têxtil. Aliás, a pessoa que vai dar outra projeção a este jornal, o Guilherme Luiz, é um rapazinho que vem dos Açores e que se vai empregar numa destas indústrias têxteis em New Bedford como loom fixer – aqueles miúdos muito pequeninos que andavam atrás das máquinas de fiação a dar nós aos fios que iam rebentando. Portanto, até à década de 1920, 1930, temos uma indústria têxtil pujante. Dá-se uma grande greve de trabalhadores do setor têxtil em 1928, e mais tarde há um crescimento dos serviços e do comércio, mais do que qualquer outra indústria única.

Quando se fala em New Bedford imagino aquelas casas de madeira, pintadas de branco. Essa imagem corresponde à realidade ou está desatualizada?
É uma cidade moderna. Em todo o caso ainda preserva muito esse caráter, com casas familiares individuais. Existem prédios, mas não é muito diferente daquilo que está a dizer. Como sabe, a madeira é muito utilizada nos EUA como material de construção, porque têm muita – é tão simples quanto isso. Por acaso assisti à construção de uma dessas casas. Para uma pessoa como eu, que gosta de ver tudo, é fascinante, porque praticamente não usam pregos nem parafusos. É um processo muito rápido porque eles têm um know-how extraordinário, a carpintaria lá foi levada a um nível impressionante. Entrei em muitas delas, são casas muito acolhedoras, e onde Portugal está sempre presente. Aliás, há ruas inteiras onde se está em Portugal. A certa altura decidi fazer um jantar português. Não tive dificuldade nenhuma para encontrar tudo o que era português, porque havia mercearias exatamente iguais às mercearias de cá, onde se encontrava tudo o que fosse necessário. É uma cidade onde se vive Portugal muito intensamente.

O Diario de Noticias de New Bedford era um jornal em português, mas escapava à censura vigente em Portugal. Que uso os jornalistas e os articulistas faziam dessa liberdade? Criticavam abertamente o regime ou tinha de haver algum equilibrismo?
As polémicas são o lugar onde encontramos esse equilibrismo que refere. Como é que esta gente lida com essa possibilidade – que para eles é completamente estrangeira – de escreverem literalmente aquilo que pensam? Isso é fascinante porque eles levaram o exercício da liberdade de expressão ao seu ponto máximo. Temos aqui vários segmentos de raciocínio em simultâneo. Um é: ‘Somos luso-americanos, acabámos de chegar a um país que não é o nosso, temos de nos integrar’. Baixar a bola [risos], arranjar maneira de não fazer muitas ondas, tentar ser o mais americano possível.

Ora, ser o mais americano possível é entrar num ideário que pode colidir com o ser português, porque estamos num momento em que a liberdade expressão é um ponto fundamental e vimos de um país em que a liberdade de expressão é perseguida. Em Roma sê romano, devemos defender essa liberdade. Porém, se aparecer alguém a querer exercer a sua liberdade de expressão e lhe der para contestar a pátria portuguesa, vou estar numa situação muito ambivalente, porque por um lado estou de acordo com a liberdade de expressão, mas, por outro lado, que ninguém ponha em causa o meu patriotismo e o meu nacionalismo, ninguém se meta com Portugal! Ao mesmo tempo, porque é que escolhi os anos 30? Porque são anos de definição, ou se é de um lado ou se é do outro.

Não há meias-tintas?
E ia para lá das páginas dos jornais. Por exemplo, durante a Guerra Civil espanhola, o Camoesas organiza uma sessão para exibir um filme chamado O Coração de Espanha, que depois seria comentado por um jornalista espanhol, claramente republicano. As autoridades recebem uma denúncia dizendo que aquilo eram comícios comunistas. E agora entra outro segmento de que falava há um bocadinho: é que os Estados Unidos têm uma relação um bocadinho precária com a liberdade de expressão. No livro reproduzo uma notícia em que um chefe da polícia, o chief Violette, diz: ‘Aqui não passam comunistas’. Mesmo dentro da comunidade americana temos gente que defende a liberdade de expressão, mas com esse limite, e gente para quem está tudo muito bem, até os comunistas. Este jornal acolhe também gente que se afirma abertamente comunista. Publica um texto cujo título é: ‘Eu também sou comunista’, de um tal João Mattos, que depois faz uma ligação curiosíssima entre o comunismo e o cristianismo.

Em Portugal tem-se conhecimento de que o Diario de Noticias existe e dos textos que publica?
Primeiro, temos uma atenção oficial. Temos o António Ferro [diretor do Secretariado de Propaganda Nacional] a visitar o Diario de Noticias e a enviar textos. Outra prova de que o jornal chegava a Portugal é através de uma referência feita por um tipo fascinante, o Francisco Manuel Homem Cristo, de Aveiro, um homem abertamente contra Salazar, mas no sentido oposto, um tipo sem papas na língua, apaixonante de ler. E no livro reproduzo uma carta que uma senhora manda à filha a dizer que o pai tinha sido preso ‘por causa desses jornais que mandas para cá’.

O curioso nesta história é que o homem era analfabeto [risos], nem sequer lia os jornais! Mas a família passou dificuldades. ‘O teu pae foi preso, o chefe da casa que a gente não se amanhemos sem ele…’. Quem escreve isto é uma pessoa não muito letrada: ‘Um homem que nunca foi ouvisto em nada, que nunca foi aqueles lugares…’. Ele e vários outros foram levados para a prisão pelo simples facto de terem os jornais em sua posse. Isto para dizer que o jornal era conhecido das autoridades, e havia uma divulgação, mas muito pontual. Presumo que as pessoas tivessem o jornal enviado por um familiar emigrante. 

Ao mesmo tempo, servia para manter os emigrantes informados do que se passava em Portugal?
Sim, vai havendo uma constante fotografia do que se passa em Portugal. O primeiro número, de 1919, fala de uma revolta em Portugal. O jornal permite que as pessoas matem saudades da sua nação, mas mais: da sua terra também. O jornal tem segmentos para os diferentes distritos, noticia muitas vezes o que se passou na Covilhã, na Guarda, no Algarve para que as pessoas pudessem ter notícias da sua terra.

Há momentos em que o jornal se posiciona mais a favor ou mais contra o Regime, ou mantém sempre a equidistância?
Desde o seu início, em 1919, até aos finais de 40, e entrando um bocadinho nos anos 50, mantém essa equidistância. A partir daí começa a tornar-se, julgo eu, menos interessante. Acho que eles aprenderam com as polémicas, e as polémicas foram muito quentes. A certa altura acho que começaram a retrair-se um bocadinho, vemos um texto que possa ser um bocadinho cáustico em relação ao regime português, e fica-se por aí.

Não há seguimento.
Não querem meter-se em grandes problemas, porque isto envolve outras questões, como o eventual apoio que o jornal possa ter da embaixada, ou seja, do governo português. Eles estão sempre a dizer: ‘É inacreditável como nós somos os únicos a defender a língua portuguesa nos Estados Unidos’. Ainda quase não falámos do fundador do Diario de Noticias, o Guilherme Machado Luiz. Tem uma história fascinante. Estamos a falar de um iletrado, um autodidata que chega aos Estados Unidos e vai abrir a única livraria de livros em língua portuguesa.

Por isso é que gosto tanto desta capa: temos aqui a Acushnet Avenue, uma das principais avenidas de New Bedford, e esta casa onde diz ‘Guilherme M. Luiz & Co.’. Na montra vê-se ‘Fabre Line’, a empresa que fazia a ligação entre a Europa e os Estados Unidos. E ali ao lado está a ‘Livraria Colonial’ – a palavra ‘colónia’ tinha o sentido de comunidade, era a comunidade portuguesa. Era aí que estava também a tipografia. Ou seja, o Guilherme Luiz vivia na parte de cima da casa, em baixo tinha os escritórios da sua empresa, e ao lado a livraria, a tipografia e a redação do jornal.

O Guilherme Luiz queixa-se a certa altura de que gasta rios de dinheiro, o jornal sai-lhe muito caro. O que recebia em troca?
É espantoso, mas recebia muito pouco em troca. O Guilherme Luiz é um indivíduo que nasce em 1879 e morre no ano em que eu nasci, 1965. Começa de forma muito humilde e ganha dinheiro vendendo as passagens marítimas. Outra coisa que ele faz é a transferência de capitais.

Leva dinheiro dos emigrantes para as suas famílias em Portugal.
Exatamente. Isto exige um grau de confiança total.

E uma seriedade a toda a prova.
Isso é-lhe reconhecido até morrer. Entrevistei os descendentes do Guilherme Luiz, pessoas já de alguma idade, que me contaram várias histórias. Ele era capaz de deslocar-se milhares de quilómetros para tirar um português da prisão. Às suas custas – depois logo pagaria. Fez muito pelos portugueses. Nos navios que traziam os emigrantes para os Estados Unidos, por exemplo, os médicos não falavam português. Ele intercedeu junto das autoridades para garantir que, sempre que houvesse imigrantes, haveria um médico português a bordo. Era um indivíduo que emprestava dinheiro às pessoas e não pedia de volta… Era muito bem-sucedido, o que lhe permitia fazer este tipo de coisas. Por outro lado, a sua intervenção no jornal é praticamente invisível.

Não interfere?
Só vai interferir uma vez. Foi outro historiador, o Alberto Pena-Rodrígues, que descobriu isso, encontrou uma carta em que o Guilherme Luiz, numa rara aparição editorial, diz ao João Camoesas: ‘Já lá vai um ano de confusão, gostaríamos que agora acalmasse um bocado’. E o João Camoesas responde: ‘Muito bem, compreendo o que me está a dizer. Reconheço que o seu trabalho tem sido muito importante, há outros sítios onde eu possa continuar o meu’. E vai continuar a escrever por todo o lado.

A intervenção do Guilherme Luiz é mínima, e só quando as coisas começam a assumir o caráter de incêndio é que diz: ‘Tentem lá acalmar-se um bocadinho, que isto está a ficar feio’. Porque os textos não se ficavam pela questão ideológica, às vezes assumiam um cariz pessoal e ofendia-se abertamente as pessoas. Sempre com uma elegância e um estilo literário muito típico desta época. É uma maravilha ler estes textos. Aliás, eu vejo este livro como um repositório de uma fonte que tem de ser apresentado às pessoas.

Uma montra, quase?
Uma montra. Interessa-me mais que leiam o Diario de Noticias do que aquilo que o Rui Correia tem a dizer sobre o Diario de Noticias. Sabe, gosto muito de ir a sítios ‘where no man has gone before’, como diz um episódio do Star Trek. Gosto muito de ir à procura de fontes que sejam completamente inéditas, que não tenham sido trabalhadas, e quando aparece uma coisa destas gosto que ela tenha o seu oxigénio e que possa brilhar por si própria. No fundo faço apenas uma espécie de visita guiada a uma fonte absolutamente inédita e que não pode continuar inédita, porque responde a uma pergunta fundamental, que é: ‘E se durante o Estado Novo tivesse existido um jornal diário escrito em língua portuguesa onde não havia censura?’. Para quem conheça alguma coisa sobre o Estado Novo, esta é uma pergunta extraordinária.

Além destas polémicas, das controvérsias ideológicas, ao ler o Diario de Noticias também se tem vislumbres do quotidiano da comunidade portuguesa, das dificuldades e aspirações daquelas pessoas?
Esse é outro dos elementos apaixonantes desta fonte histórica. Ficamos a saber que entre a comunidade luso-americana havia revistas de teatro, por exemplo. Mas também quais são os grandes problemas. Existe aqui uma denúncia sobre a taxa de mortalidade infantil entre os luso-americanos.

Era altíssima, não era?
Altíssima. Tem a ver com uma cultura – menos hospitalar e mais doméstica – que é levada para lá. Mas temos muito ativismo social. Não é nada aquela imagem que temos das comunidades luso-descendentes, muito apáticas, muito indiferentes, com uma obsessão pela integração. Todos esses estereótipos – em que eu próprio, confesso com embaraço, acreditava – são deitados por terra. O que vemos é uma comunidade ativíssima, sempre na rua, a fazer imensas festas, comícios, bailes, saraus de poesia, saraus de música, muita participação na própria vida política americana. O jornal é muito revelador dessa realidade e dessa vivência.

Só falta sabermos como, quando e porque é que o Diario de Noticias fecha as portas…
Ele fecha em 1973 – repare bem… Para um jornal que tinha feito tanto pelos liberais, é quase irónico. Pelo que me foi dito, fechou por não ter o suporte financeiro de que precisaria.

Foi uma morte natural?
Sim, é uma morte natural. Não há nenhum grande acontecimento que dê origem à falência do projeto. Agora, na época foi um jornal incrivelmente moderno, não apenas nesta diversidade ideológica, mas na própria estrutura redatorial. Sempre tiveram a preocupação de não ter demasiada gente a trabalhar, de não ter aquilo a que hoje chamaríamos gorduras, de fazer bons negócios em matéria de fornecedores, de ser muito racionais na gestão. Os correspondentes eram recompensados, para que houvesse um compromisso profissional, e não apenas uma boa vontade que seria sempre muito falível. Esta tonalidade empresarial já existia nos jornais americanos, mas é algo completamente novo no panorama dos jornais étnicos.