Opiniao

Cocktail de emoções

Tivemos momentos demasiado difíceis para o SNS e seus profissionais, não só decorrentes da covid mas sobretudo das outras doenças que exigem permanente atenção. Todos os profissionais de saúde trabalharam neste período muito mais do que seria razoável e todos temos de saber estar gratos.


1. Falar do sucesso da vacinação é falar de Gouveia e Melo que deu esta semana por terminada a sua missão, indiscutivelmente um sucesso a nível mundial. A população portuguesa só lhe pode estar grata e, entre todos, António Costa e Marta Temido. Este sucesso foi determinante para a tranquilidade social, pese embora todas as mortes registadas e impactos indiretos na saúde pública portuguesa.

Tivemos momentos demasiado difíceis para o SNS e seus profissionais, não só decorrentes da covid mas sobretudo das outras doenças que exigem permanente atenção. Todos os profissionais de saúde trabalharam neste período muito mais do que seria razoável e todos temos de saber estar gratos.

Mas não fosse o sucesso milimetricamente planeado da vacinação e teria sido indiscutivelmente muito pior, com mais casos de covid e falecimentos e, sobretudo, muitos entupimentos colaterais no SNS. Obrigado, Vice-Almirante Gouveia e Melo!

2. Impossível não falar das autárquicas depois de eu ter ousado aqui há umas semanas mandar uns palpites sobre vencedores. Isto foi pior que jogar no Totobola, tamanhos os erros que dei, embora tivesse acertado nuns quantos municípios. Todos ‘batem’ nas sondagens, eu também poderia fazê-lo porque realmente em situações em que registavam relativo equilíbrio eu arrisquei uns palpites e alguns foram mesmo ‘tiros na água’ – em particular em Almada e Coimbra.

Se em Almada foi o mérito de Inês de Medeiros (parabéns!) a conquistar uma Câmara perante um peso pesado da CDU como Maria das Dores Meira, em Coimbra, o meu rotundo falhanço também se deveu à interferência de Costa e promessas de uma Maternidade, adiada há anos. Nas restantes até nem estive muito mal e, mesmo em Lisboa, inferia uma surpresa, embora nunca imaginasse que depois de ver sondagens consistentemente a dar a vitória a Medina, Moedas ganhasse nas urnas.

Assim foi e veremos se os partidos de esquerda que detêm a maioria na Assembleia Municipal de Lisboa pensam nos munícipes para quem trabalham e que são quem os elege. Fosse eu Moedas e daria pelouros a vereadores da oposição, porque o trabalho tem de ser conjunto e todos são lisboetas. Trabalhos bem feitos em cada uma das suas áreas são cartões de visita para o futuro, como tão bem fez Abecassis que soube agregar a vereação.

Terá Moedas a sagacidade para conseguir estabelecer ‘pontes’ e suplantar divergências? Ou teremos eleições intercalares, porque a oposição prefere fazer jogos partidários, torpedeando o executivo, inviabilizando as medidas que Moedas quiser implementar, a pensar em eleições antecipadas onde uma maioria PS/PCP poderá reconquistar a Câmara?

3. São 28 as presidentes de Câmara agora eleitas (32 em 2017) entre as 194 que se apresentaram a eleições, cerca de 63% do total de 308 municípios. Onde quero chegar? Muito simples: a representação feminina não precisa de quotas para se impor.

Ganharam seguramente por mérito, perderam certamente por demérito ou porque os concorrentes eram melhores na perspetiva de quem os elegeu. Muito simples! Como em todo o lado, há melhores e piores e, sem fazer qualquer esforço, quando nos lembramos que hoje é impossível dissociar a Fundação Champalimaud e o seu trabalho notável em prol da Saúde a Leonor Beleza, temos a certeza de que, existindo disponibilidade e competência, as Mulheres são sempre uma aposta certa.

4. Muito se fala na renovação ministerial que todos os especialistas e comentadores sobre a matéria dizem que já tarda. Mais, até afirmam que o PS e Costa perderam diversas capitais de distrito, onde o eleitorado será mais esclarecido (na perspetiva de acompanhar o que se passa a nível nacional), também porque o Governo não foi remodelado mais cedo.

Como não sou comentador encartado, deixo a Costa a decisão e o timing de remodelar o Governo. Mas enquanto eleitor português, tenho dificuldade em compreender a continuidade de certos ministros que desgastam mais o Governo que a oposição.

Por exemplo, a continuidade de Cabrita depois de tantas peripécias que o envolvem que não podem ser apenas azar, mas que resultam de uma total inabilidade política em que apenas a amizade com Costa o sustém. Ou Gomes Cravinho a propor inopinadamente a destituição do Chefe do Estado Maior da Armada (Mendes Calado), depois de reconduzido em 16 de fevereiro último, por alegadas divergências na Lei da Defesa Nacional e sobre a nova Lei Orgânica das Forças Armadas, sendo objeto de desautorização de Marcelo. Ou ver Pedro Nuno Santos a entrar em conflitos com João Leão, por causa de uma CP descapitalizada.

Algo em comum em todos os casos: a passividade de um líder que revela surpreendente desgaste no comando do Governo.

5. Será que no Governo alguém quer ouvir o Conselho de Finanças Públicas? Nazaré da Costa-Cabral, ao seu jeito diplomata, disse umas verdades duras e irrefutáveis como «uma questão a preocupar nos próximos anos é a solidez e estabilidade salarial», acrescentando «não é desejável a multiplicação de apoios sociais com caráter não contributivo que configuram prestações assistencialistas» que «criam problemas de finanças públicas».

Tão simples, tão óbvio para quem dirige um país que registou no 1.º trimestre de 2021 uma recessão de 5,4%, apenas uma das piores recessões das economias a nível europeu (Eurostat). A dívida pública ronda os 135% do PIB e este ano o défice, segundo o Governo, andará pelos 4,5% do PIB.

Não chega dizer que estamos preocupados e que o PRR é a salvação, porque por este caminho não passará de uma aspirina para tratar uma pneumonia! Temos de exigir ao Governo elevada contenção no OE 2022 e relembrar que cedências exageradas ao PCP e Bloco só apressam o caminho para nova intervenção da troika, cujos custos serão incomportavelmente superiores ao período de 2011/15.