Fundo? Parece que afinal já chegamos

A picareta falante – take 2

Costa é o chefe do governo, lidera um partido que acaba de ter uma “vitoria poucochinho” nas eleições locais e pode aspirar a ganhar as próximas legislativas com um resultado a rondar os 40%, o que torna quase legítimo o excessivo interesse da comunicação social e ‘justifica’ a gestão que o próprio faz da sua agenda de intervenção.


A expressão «picareta falante» foi criada pelo cronista Vasco Pulido Valente como forma de definir e caracterizar a facilidade de expressão verbal e o desembaraço de comunicação que todos reconheciam (e reconhecem) a António Guterres.

António Guterres foi durante vários anos deputado brilhante, líder da oposição, primeiro ministro e Secretário Geral do Partido Socialista, e sempre representou uma fatia considerável do eleitorado português (35 a 40%); por isso, era naturalmente uma figura bastante presente na comunicação social.

O mesmo de resto se vem passando, nos últimos tempos, com o atual primeiro-ministro (pm) António Costa que monopolizou o espaço público, nomeadamente durante o período de campanha das últimas eleições autárquicas, de uma forma que chegou a tocar o limite do inaceitável.

De todo o modo, Costa é o chefe do governo, lidera um partido que acaba de ter uma “vitoria poucochinho” nas eleições locais e pode aspirar a ganhar as próximas legislativas com um resultado a rondar os 40%, o que torna quase legítimo o excessivo interesse da comunicação social e ‘justifica’ a gestão que o próprio faz da sua agenda de intervenção.

Apesar disso, não deixa de haver quem pense que o excesso de exposição mediática a que Costa se sujeitou (os nos sujeitou?) agravado pela natureza sectária da mensagem que procurou transmitir aos cidadãos nos últimos tempos, esteve na origem, ou também esteve na origem, dos resultados eleitorais relativamente dececionantes que obteve.
Inebriados com o seu sucesso mediático e incapazes de resistiram ao apelo dos seus umbigos, alguns políticos são incapazes de perceber que, a partir de certo nível, a propensão marginal para o sucesso entra numa curva imparavelmente descendente.

Os instrumentos que a democracia tem (ainda) à sua disposição para fazer o interface entre o pensamento dos políticos (jornais, rádios, televisões, colóquios, conferências ou tertúlias) não podem evidentemente adulterar a importância relativa, ao momento, dos partidos e dos dirigentes, sem prejuízo de usarem alguma discriminação positiva em favor de organizações e protagonistas emergentes.

Mas se isto é válido, razoável e aceitável, já parece menos curial que o espaço público seja canibalizado por um determinado partido para a divulgação ‘ad nauseam’ das suas opiniões, seja através de dois ou três dirigentes, seja com a cumplicidade de comentadores e analistas colocados em lugares estratégicos.

No decurso do último ano, exemplos desta distorção democrática não faltaram e se muitos apontam armas, justa ou injustamente, ao PM, poucos se preocuparam com a ocupação dominante que o BE vem tendo no espaço mediático, em especial nas redes de televisão, nos jornais ditos de referência e nos inumeráveis debates que, a propósito de tudo e, às vezes, de nada, são servidos aos potenciais eleitores.

Catarina Martins tem lugar cativo, nos principais programas noticiosos e aproveita para sem cansaço e com pose estudada, debitar a sua cartilha, num registo frenético que faz chegar à memória, agora pelas más razões, o conceito de ‘picareta falante’.

Tudo isto é estranho pois o BE não revela uma dimensão territorial significativa (2,75% de votos nas autárquicas) e tudo aponta para que tenha, no futuro, uma representação ainda mais reduzida.

A acreditar na profecia de José Manuel Fernandes esta situação será ‘corrigida’ (ou agravada?) se a democracia das televisões e dos jornais for substituída pela democracia (?) das redes sociais ou, por outras palavras, quandoa democracia da utopia, (consenso) der lugar à democracia da distopia (tribalismo).

Mas, apesar das ‘picaretas falantes’ ou dos ‘falantes picaretas’ o país tem outros problemas reais a enfrentar.

Não sabemos se o ‘poucochinho’ das eleições obrigará o governo a entender, finalmente, que os recursos financeiros que a UE vai colocar, durante os próximos 7 anos, à disposição de Portugal (cerca de 60 mil milhões de euros) são do país e, portanto, devem ser aplicados ao serviço de todos e não apenas dos simpatizantes do governo de turno.

Os insólitos e caricatos acontecimentos dos últimos dias que opuseram publicamente membros de governo entre si (Equipamento Social/ Finanças; Economia/Finanças; Ambiente/Economia) e o PR contra o Ministro da Defesa, parecem denunciar um ambiente de fim de ciclo e um esgotamento indisfarçável.

Ora um governo esgotado e em fim de ciclo (se for o caso) não será capaz de dar resposta ao desafio lançado pelo PR no dia 5 de Outubro quando afirmou (e só o apelo solene já é preocupante) que «não podemos perder esta ocasião única para crescer».

É óbvio que não podemos deixar perder esta ocasião, mesmo tendo consciência que algumas coisas estão muito indefinidas e atrasadas, como se conclui ao ouvir a comissária europeia Elisa Ferreira afirmar que ao contrário de outros países, entre os quais a Polónia e a Grécia, Portugal (Governo e/ou autoridades regionais e municipais) ainda não apresentou um simples esboço de solução para aceder ao Fundo de Transição Justa, através do qual será resolvida a situação da Galp/ Matosinhos, sendo certo que metade dos apoios tem de ser utilizados até 2023.

Mesmo altamente financiada, a economia portuguesa só crescerá significativamente se for alterado o atual modelo de desenvolvimento, que está apoiado, em demasia, no setor público e no consumo interno em desfavor do apoio ao tecido empresarial e à internacionalização da estrutura produtiva .

A professora Teodora Cardoso, afirmou recentemente que usar os dinheiros europeus para manter o ‘statu quo’ com a aparência de o alterar, não será solução; poderia ter acrescentado que será mesmo uma solução politicamente criminosa.