Economia

Web Summit até 2028 mas Moedas quer ir mais além

Compromisso assumido por Medina para a manutenção do evento por dez anos será cumprido. Adicionalmente, Moedas quer transformar Lisboa numa fábrica de empresas.


A edição de 2021 da Web Summit, que arranca já esta segunda-feira, não será a última em Lisboa. A garantia é dada por uma fonte próxima do presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), Carlos Moedas, que confirmou ao Nascer do SOL que os compromissos assumidos pelo anterior autarca Fernando Medina são para cumprir. Ou seja, a maior conferência de empreendedorismo, tecnologia e inovação da Europa deverá manter-se na capital portuguesa pelo menos até 2028.

Dois dias após as eleições autárquicas, a 28 de setembro, numa conferência de imprensa de apresentação da edição deste ano, Paddy Cosgrave, presidente executivo do evento, já tinha manifestado o compromisso da organização com Lisboa até essa altura, afastando os rumores de que o evento iria transitar para a China.

Na altura, o empresário irlandês assegurou ainda que não antecipava que a mudança recente na liderança da Câmara Municipal não tivesse qualquer impacto: «É cedo para comentar, mas não espero nenhuma mudança».

Em outubro de 2018, o Governo e o ex-presidente da CML Fernando Medina anunciaram que a cimeira se manteria em Portugal por mais 10 anos. Mas Carlos Moedas quer ir mais além da Web Summit e tornar Lisboa uma «verdadeira fábrica de empresas». De acordo com a mesma fonte, o novo executivo está neste momento a analisar os termos do contrato. 

O objetivo é «estimular o empreendedorismo com condições criadas para as empresas serem mais do que ‘startups’ e de forma a criar emprego e gerar riqueza», tinha adiantado Moedas aquando da sua candidatura à Presidência da Câmara Municipal de Lisboa. 

Enquanto esse contrato não avança, a Web Summit prevalece no que toca a investimentos em empreendedorismo tecnológico, isto porque o acordo para a permanência da cimeira incluía contrapartidas anuais de 11 milhões de euros, o que perfazia um total de 110 milhões de euros pagos até 2028, e a expansão da Feira Internacional de Lisboa. 

Sobre este último projeto, inicialmente estava prevista pelo menos uma «duplicação do espaço dedicado ao evento até 2022», meta temporal traçada por Paddy Cosgrave. Facto é que, com uma pandemia pelo meio e a passagem da autarquia das mãos do PS para o PSD, as negociações com a Fundação AIP – que detém a FIL, o Centro de Congressos e a Praça Sony – para a ampliação do espaço entre pavilhões, de forma a uni-los e a aumentar de forma significativa a área atualmente existente, ficaram condicionadas.

Outra das alterações que estava previamente delineada dizia respeito à cobertura das traseiras da FIL, o que permitiria instalar ali salas de reuniões. Também a Praça Sony seria alterada, com a construção de um pavilhão com vários andares.

Na verdade, a expansão total da Feira Internacional de Lisboa permitiria que a área expositiva quase triplicasse, passando dos atuais 41 mil metros quadrados para cerca de 111 mil metros quadrados. Um investimento contabilizado na ordem dos 150 milhões de euros e para o qual a Fundação AIP apontou um prazo de 10 anos para o desenvolvimento de todas estas obras.

Quando Medina ainda estava à frente da CML, a autarquia até estava disposta a pagar parte das obras, mas queria — além de definir os prazos e o grau do alargamento — que o seu investimento fosse «convertido em capital social da Fundação AIP», ficando também a ‘comandar’ a FIL. O valor não foi oficialmente revelado, até porque dependeria dos termos do acordo quanto à dimensão do projeto, da participação da Fundação AIP ou de outra entidade, mas uma fonte conhecedora do projeto apontou na altura ao Expresso um valor de 30 milhões de euros.

Como os planos não tiveram resolução, Paddy Cosgrave chegou mesmo a visitar espaços ao ar livre que pudessem acolher grandes eventos. Chegaram a ser estudadas novas alternativas à FIL na Foz do Trancão, localizada entre os concelhos de Lisboa e Loures e e um outro espaço junto à Feira Popular, em Carnide.

Questionada pelo Nascer do SOL, a atual autarquia não prestou quaisquer declarações sobre o projeto de expansão até ao fecho desta edição.

Formato híbrido
Este ano, a Web Summit realiza-se pela primeira vez em formato híbrido, com uma componente presencial e online. São esperadas 40 mil pessoas em Lisboa, num evento que se desdobra em múltiplos palcos e que conta com mais de 700 oradores, durante quatro dias. Em 2020, o evento teve que se adaptar totalmente ao formato digital devido à covid-19, o que gerou alguma polémica porque a Câmara de Lisboa e outras entidades do Estado tiveram de pagar os 11 milhões de euros a Paddy Cosgrave, sem qualquer retorno para o setor do turismo, restauração e alojamento.

O Estado e a Câmara de Lisboa investiram mais de 20 milhões de euros para apoio à realização do evento, mas até hoje, não há valores que quantifiquem quanto Portugal tem ganho por ser palco da Web Summit. De acordo com dados oficiais, em 2019, o evento recebeu 70 mil pessoas de 163 países, o que trouxe benefícios evidentes à economia portuguesa e ao setor do turismo, restauração e alojamento. Os participantes do evento terão gasto cerca de 64,4 milhões de euros durante os quatro dias do evento, destacando-se a despesa associada ao alojamento, que representou 125 euros por dia, segundo uma análise da AHRESP, sobre a estimativa do impacto da Web Summit ao nível dos gastos dos visitantes, da procura e do impacto nas atividades do alojamento turístico.

Nesse ano, a Web Summit terá tido um impacto de 180 milhões de euros, valor que representou um crescimento de 75 milhões de euros face à edição de 2018. O valor calculado incluía o retorno direto dos 70 mil visitantes (64 milhões de euros por quatro dias de evento), mas também ganhos na capacidade do país ser a porta de entrada dos grandes players do universo tecnológico no mercado.

A Web Summit saiu pela primeira vez da casa-mãe, na Irlanda, em 2016, com rumo a Lisboa. Naquele ano, o evento que recebeu mais de 50 mil pessoas foi deslocado para a Feira Internacional de Lisboa (FIL) e para aquele que era anteriormente conhecido como MEO Arena — agora denominado Altice Arena —, na zona do Parque das Nações. 
A ideia de reunir as grandes figuras da comunidade tecnológica nasceu em 2010, em Dublin, — onde se manteve até 2015 —, pelas mãos de Paddy Cosgrave, o rosto que ainda hoje lidera o evento. Na primeira edição, marcaram presença cerca de 400 pessoas no Chartered Accountants House, naquela cidade. No ano seguinte, a assistência triplicou de tamanho.

Em outubro de 2015, o fundador da Web Summit justificou que a saída de Dublin se ficou a dever ao facto de o Governo irlandês não conseguir garantir as condições necessárias para uma conferência desta dimensão, nomeadamente em termos de infraestruturas, transportes, acesso à rede de internet, mas também no que se refere ao controlo de preços nos hotéis. À falta de acordo com o Governo da Irlanda, Cosgrave teve de procurar outras soluções na Europa. Aí surgiram três cidades: Lisboa, Paris e Amsterdão. Mas o fator decisivo foi mesmo o entusiasmo da comunidade tecnológica lisboeta. Quando se soube que a capital portuguesa estava no radar dos irlandeses, foi lançado o movimento “Let’s bring the Web Summit 2016 to Lisbon”.

A confirmação chegou a 23 de setembro de 2015. Foi nessa data que o vice-primeiro-ministro da altura, Paulo Portas, e o fundador da Web Summit anunciaram que tinham assinado o acordo para que a Web Summit se realizasse em Lisboa em 2016, 2017 e 2018, com possibilidade de prolongamento por mais dois anos.

Foi feito um investimento, financiado pelo Turismo de Lisboa, Turismo de Portugal e pela AICEP – Portugal Global, de 1,3 milhões de euros para cobrir a logística do evento e infraestruturas, mas, segundo explicou na altura o secretário de Estado Adjunto da Economia, Leonardo Mathias, o retorno esperado para Portugal rondava os 175 milhões de euros.