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Miríade. Governo tenta reunir provas de que comunicou caso à ONU

O CEMGFA informou a ONU, mas caso tenha havido comunicação do ministro da Defesa, tudo indica que terá sido verbal. Cravinho vai ao Parlamento justificar-se e o Chega pede a sua demissão.


Por Felícia Cabrita e João Campos Rodrigues

Os gabinetes do ministro da Defesa, João Gomes Cravinho, e do chefe do Estado Maior General das Forças Armadas, o almirante António Silva Ribeiro, passaram os últimos dias a reunir apressadamente a correspondência trocada com responsáveis das Nações Unidas, segundo apurou o Nascer do SOL.

Ambos tentam apresentar hoje ao Parlamento provas documentais que desmintam as acusações do Chega, segundo as quais Cravinho mentiu quando afirmou publicamente que informara a ONU quanto ao caso de tráfico de diamantes envolvendo forças militares portuguesas na República Centro-Africana. O problema é que poderá não haver qualquer registo disso. Caso tenha havido uma comunicação do ministro da Defesa, com toda a probabilidade esta terá sido verbal, numa conversa informal com o subsecretário-geral para as Operações de Paz da ONU, Jean-Pierre Lacroix, há dois anos, asseguraram fontes próximas.
 
As suspeitas em relação às declarações de Cravinho surgiram quando a missão da ONU na República Centro-Africana, a MINUSCA, assumiu publicamente que só soubera da Operação Miríade através da imprensa. Desde então, para esclarecer a questão, o Nascer do SOL desdobrou-se em contactos através dos canais oficiais do ministério da Defesa, perante um silêncio absoluto.
 
Pelo meio, o PSD veio a terreiro, somando outra acusação: a de falta de comunicação da parte da Defesa, desta vez por não ter informado o primeiro-ministro, António Costa, bem como o próprio comandante supremo das Forças Armadas, Marcelo Rebelo de Sousa.
 
Foi isto que motivou o pedido de uma audiência parlamentar da parte dos sociais-democratas, tendo-se juntado à refrega André Ventura, que chegou a pedir a demissão do ministro, lembrando as suas declarações quanto a ter comunicado o caso à ONU. “Até atendendo ao filme que já vimos em Tancos, há um dado evidente”, declarou o líder do Chega, na Assembleia da República: “O ministro da Defesa mentiu. Ou mentiu ao país, ou mentiu à sua cadeia de comando”.
 
É uma bota que Gomes Cravinho terá dificuldade em descalçar. Uma fonte nas Nações Unidas assegura que a única comunicação formal que receberam não veio do ministro, mas sim da parte do Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas (CEMGFA) que enviou uma carta ao tenente-general Daniel Sidiki Traoré, que acabara de ser nomeado force commander da MINUSCA pelo secretário-geral da ONU, António Guterres.

Não que o tenente-general burkinabé tenha obtido muita informação por aí, pois a carta do CEMGFA surgiu nos primeiros momentos da investigação. Ou seja, quando foi enviada essa informação a Sidiki Traoré, ainda não se tinha ideia da dimensão do escândalo, da extensão da rede. Quando isso aconteceu, o caso passou para as mãos da Polícia Judiciária Militar, cessando a comunicação com as chefias militares.

Entretanto, talvez melindrado pelo furor em relação à sua comunicação ou não-comunicação com a ONU, Cravinho já informou a delegação portuguesa na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, que não deverá marcar presença em Seul, na Ministerial de Defesa dedicada às operações de manutenção de paz, que decorrerá a 7 e 8 de dezembro: em vez disso, deverá ser representado por um embaixador. A ausência do ministro será particularmente sentida, dado que estarão em cima da mesa assuntos intimamente relacionados com Portugal, como um pedido para que as Forças Armadas apoiem o treino e a participação de países da CPLP em missões de paz.